Como pensar 2018?

Construímos cenários esperando um padrão, algo dentro da maior probabilidade, uma história crível, padronizada e provável.

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Como pensar 2018?

A respeito da coluna do excelente Gregório Duvivier – sim, eu gosto muito dele, como artista, desde Apenas o fim -, ontem na Folha, dois rápidos esclarecimentos:

1. A Empiricus não é um fundo de investimento.
2. A questão sobre propagandas de nossos relatórios com cenários políticos, que envolvam desdobramentos na economia e nos investimentos, já foi devidamente apreciada pelo TSE, com vitória pela goleada de 5×2. Se quiserem revanche, perderão de novo. Como provocou à época o ministro Gilmar Mendes, “daqui a pouco vão tentar proibir relatórios do FMI”.

Como resumiu o Gregório que realmente sabia escrever, “se justificam mentindo com pretextos enganosos, e com rodeios fingidos.” Tenho afinidade com quem estudou em colégio jesuíta, com Matos e guerra.

Tratadas as obviedades, vamos ao que interessa…

Rodolfo e Caio dividem um Uber em direção ao aeroporto de Guarulhos, embora tenham um destino final distinto. Em que pese a prudência usual do primeiro, estão atrasados. Chegarão 40 minutos depois do que deveriam. Há ainda alguma esperança de atraso no vôo que os permita embarcar e, portanto, seguem em frente pela Ayrton Senna, no ritmo do Ayrton Senna.

Ao chegar em Cumbica, ambos perderam o vôo. O avião de Caio saiu na hora marcada – ele passou longe de conseguir chegar. Já a aeronave de Rodolfo partiu atrasada, apenas cinco minutos atrás.

Do ponto de vista da realidade objetiva, ambos estão rigorosamente na mesma situação. Os dois perderam o vôo. Mas tente-se imaginar na posição de cada um: psicologicamente, eles estão mesmo na mesma situação? Ou estaria Rodolfo um pouco mais inconformado? “Perdi o vôo por apenas cinco minutos…. Se eu não tivesse ido ao banheiro….”

Talvez devêssemos apenas recompor o passado e pensar: “ora, eles deveriam ter saído 40 minutos antes, independentemente de qualquer coisa.” Mas nosso cérebro enfrenta armadilhas para propor cenários alternativos, desfazendo a realidade material e propondo algo diferente.

Vera andava entediada. Resolveu mudar de caminho para ir ao trabalho, como forma de quebrar a rotina. Eleitora do Haddad, manteria a bicicleta como meio de transporte, claro, como faz orgulhosamente todos os dias. Infelizmente, estava sem sorte. Ao virar a esquina, foi atropelada por um carro que vinha em alta velocidade, dirigido por um motorista que estava virado às 7h14 da manhã, estimulado por algumas carreiras de cocaína, que mandara para dentro numa tentativa de cortar o álcool ingerido por horas ininterruptas ao longo da madrugada. Nada grave aconteceu com a querida Vera, além de uma perna quebrada.

Como mentalmente desfazemos a história? Como comparamos a realidade atual a alternativas? Essa é uma pergunta das mais relevantes, porque a proposição de ideias de investimento se faz justamente a partir de conjecturas sobre cenários à frente. Você só vai conseguir retornos anormais, no sentido de acima da média de mercado, se conseguir conjecturar sobre um cenário alternativo à frente diferente daquele contemplado hoje pelas cotações.

A maneira recorrente é “se ela ao menos tivesse mantido o caminho de sempre…” Enquanto o mais simples talvez fosse simplesmente imaginar que o carro guiado por aquele Tamanduá-bandeira bicudo poderia ter passado dez segundos antes ou depois, sem qualquer acidente.

Ao pensar em cenários alternativos para o que aconteceu, apagamos aquilo que está fora do padrão e considerado improvável. Se Vera tivesse feito o caminho de sempre, dificilmente pensaríamos: “ora, mas por que ela não trocou a rota naquele dia?”, sendo que poderia fazê-lo normalmente.

Se nossa cabeça faz isso ao imaginar formas de desfazer um acontecido, ela também o faz prospectivamente, ao formular histórias para o futuro que ainda não ocorreram. Construímos cenários esperando um padrão, algo dentro da maior probabilidade, uma história crível, padronizada e provável.

O problema maior para o investidor/analista/gestor é que essa elucubração padronizada não nos oferece valor algum, pois o provável e crível está totalmente no preço. As alternativas imaginadas normalmente são plausíveis e parecidas com o mundo atual, sem capacidade, portanto, de desafiar o consenso.

O mundo, tal como ele acontece, é cheio de surpresas, ou seja, é menos plausível do que alternativas que criamos em nossas cabeças a partir de narrativas críveis e coerentes. Mas se o próprio mundo atual possui surpresas, por que o mundo imaginário não há de possuir?

Ontem, pela primeira vez fui cobrado pelo “meu cenário para 2018”. A resposta foi frustrante, mas, ao mesmo tempo, a mais honesta que eu poderia oferecer: “eu não tenho um cenário. E se tivesse, ele não adiantaria nada, porque o que realmente vai guiar os mercados e fazer o investidor ganhar dinheiro passa muito longe da nossa capacidade de imaginação.”

O sujeito me achou um idiota. Eu pude dormir em paz.

Mercados iniciam a terça-feira com variações modestas, tentando recuperar-se de alguns dias com predomínio da cautela. Aguarda-se com expectativa discurso de Janet Yellen no início da tarde. Há alguma preocupação de que a presidente do Fed possa sinalizar maior convicção de que a baixa inflação é algo temporário, o que ensejaria prognóstico de mais aumentos de juro nos EUA.

Por aqui, o ministro Henrique Meirelles tenta manter otimismo com a reforma da Previdência, vendo votação até novembro, depois de demonstração de Rodrigo Maia na véspera de que não haveria os votos necessários para sua aprovação.

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Lá fora, ainda há alguma tensão envolvendo EUA e Coreia do Norte, embora sem novidades hoje.

Agenda local reserva nota do setor externo e INCC um pouco abaixo do esperado, além de leitura de nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Nos EUA, temos preços de moradias, vendas de casas novas, confiança do consumidor e relatório do Fed de Richmond.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3%, dólar sobe marginalmente contra o real e juros futuros estão perto da estabilidade.

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