Por que mentimos para nossos filhos?

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Por que mentimos para nossos filhos?
Nota da editora:Caro leitor, esse texto do Mark Ford está sendo enviado excepcionalmente hoje. Nesse começo do mês de outubro iniciaremos uma seleção de conteúdos especiais sobre educação financeira e investimentos para crianças e adolescentes. Recomendo esse texto a todos que possuem filhos, sobrinhos, netos e para aquele que futuramente pensam em formar uma família.

 

Alguns anos atrás, Bill Bonner, meu amigo e sócio, me pediu para dar uma palestra sobre “o desafio da riqueza entre gerações”.

O que é riqueza entre gerações?

É a riqueza que você adquiriu para seus filhos, netos e talvez até bisnetos.

O desafio é como preservá-la.

A história mostra que as pessoas costumam desperdiçar todo o dinheiro que herdam. E se não o desperdiçam, seus filhos certamente o fazem.

Este é um problema sério não apenas para quem é muito rico, mas também para pessoas de todas as classes.

Não se trata apenas de impedir que seus filhos desperdicem o dinheiro que você trabalhou tanto para economizar. A grande questão é impedir que o dinheiro transforme seus filhos no tipo de adulto que você não quer que eles sejam.

A experiência de fazer aquela palestra me deu ideias úteis em relação ao problema.

A desvantagem de ajudar os filhos

Sejamos realistas: dar dinheiro é bom e queremos pensar nisso apenas como um ato benéfico.

Mas doar dinheiro – seja para seus filhos, seja para estranhos – na maioria das vezes resulta em consequências inesperadas.

Dar dinheiro para os filhos (de qualquer idade) pode transformá-los em esbanjadores. Talvez os torne dependentes. Pode enfraquecer ambição e acabar com confiança deles. A expectativa de conseguir dinheiro de você pode até torná-los gananciosos.

É mais fácil entender isso quando nossos filhos são jovens. Reconhecemos que dar a uma criança pequena tudo o que ela quer provavelmente fará com que ela fique mimada.

Minha esposa K. e eu nos preocupávamos com isso há 30 anos, quando nossos filhos eram pequenos.

Morávamos em Boca Raton, na Flórida, onde “os riquinhos” com renda alta se digladiavam em uma competição diabólica e velada para ver quem gastava mais com os filhos.

Pais ensinavam a seus filhos pequenos como distinguir Hondas de BMWs. Estudantes de ensino médio sabiam quais eram os pais de seus amigos que ganhavam mais. Alguns sentiam orgulho de ir à escola usando relógios Rolex e sapatos Gucci.

Como CEO de nossa família, K. travou uma guerra contra tudo isso ao ter grandes expectativas para nossos filhos, tanto como estudantes quanto como membros da família. Ela era rígida com as regras da casa e mesquinha com luxos.

Se nossos garotos falhavam em ter uma média igual ou menor que B+ eles ficavam de castigo. Ponto final. Antes de brincar nos fins de semana, eles tinham que fazer tarefas domésticas. E o trabalho era real: limpar o banheiro e cortar a grama.

Não tínhamos TV ao vivo. Videogames eram proibidos. Nunca comprávamos roupas ou brinquedos que eles haviam pedido. Eles tinham que esperar por seus aniversários ou pelo Natal.

Mas, acima de tudo, esperávamos que nossos filhos fossem respeitosos conosco e com os outros.

Em outras palavras, eles eram parte do universo, e não o centro dele.

A abordagem de K. funcionou. Nossos filhos não eram mimados.

Mas devo admitir que, às vezes, tinha dúvidas sobre seus métodos.

Uma vez, algumas horas antes de buscar uma garota para a formatura, encontrei meu filho mais velho polindo o assento de vinil do veículo que ele usaria para chegar ao evento: sua enferrujada pick-up de 20 anos (ele havia a comprado do avô). Ele trabalhava de bom humor sem perceber a espuma saindo de um grande rasgo no meio do assento.

Pensei se tínhamos ido longe demais.

Agora, não tenho dúvidas.

E os filhos adultos – quão ruim pode ser ajudá-los um pouco?

Se dinheiro pode estragar seus filhos quando pequenos, pode estragá-los depois de crescidos?

K. e eu fizemos essa pergunta muitas vezes. Nossos garotos são adultos agora. Eles são produtivos e autossuficientes. Nosso protocolo de grandes expectativas e controle financeiro parece ter funcionado no fortalecimento de seu caráter.

E agora que não precisam do nosso dinheiro e nem o desejam, haveria problemas em dar um pouco a eles?

Temos amigos que deram a seus filhos ajuda financeira quando se formaram na faculdade. Alguns continuam ajudando mesmo depois de 10 anos.

Eles justificam isso falando sobre como a economia anda mal e como é difícil para os jovens encontrarem emprego.

Na minha opinião isso não é muito diferente de assistência social.

Não conseguem enxergar o que estão fazendo aos filhos? Estão fazendo com que fiquem mais dependentes a cada ajuda.

Pais não podem ser tão cegos. Talvez escolham ignorar o fato dizendo a si mesmos que estão fazendo seu trabalho como pais: facilitando a vida dos filhos. Ou talvez eles simplesmente gostem da sensação de serem necessários.

Esse tipo de ajuda financeira incondicional é muito ruim. E mesmo assim não estou pronto para dizer que qualquer tipo de ajuda seja errada.

Quando K. e eu visitamos o primeiro apartamento do nosso segundo filho, há vários anos, tive que pensar sobre o assunto.

No momento, meu filho e sua noiva só podiam pagar por uma espelunca de 1 quarto em uma parte horrível do Brooklyn. O lugar era muito pequeno, os eletrodomésticos eram muito velhos, o encanamento mal funcionava e o piso estava torto.

Eles estavam felizes, mas K. e eu ficamos chocados.

Então eu disse à K. que compraria um bom apartamento em um bairro melhor e o alugaria para nosso filho e sua noiva pelo mesmo preço que pagavam pela espelunca.

A questão da herança

Você não pode compartilhar a riqueza com seus filhos quando eles são pequenos… e talvez não consiga fazê-lo quando forem adultos.

E depois? Devemos deixar o dinheiro para eles depois que morrermos?

Tenho um amigo que não fala com os irmãos por causa de uma disputa sobre a distribuição dos bens da mãe.

Ouvi minha vizinha dizer que sua sogra era uma “idiota egoísta” porque, aos 80 anos, ela se casou novamente e começou a gastar seu dinheiro com o novo marido.

Quando meu pai deixou a maior parte dos bens para duas de suas filhas “porque elas não eram casadas”, isso causou um ressentimento que durou muitos anos.

“Brigas entre filhos depois da morte do genitor ocorrem em boa parte das famílias”, disse Tim O’Sullivan, advogado e gerente de propriedades, em uma entrevista ao U.S. News & World Report.

“Se o objetivo n° 1 é criar harmonia familiar, então os bens devem ser organizados de forma a preservá-la. É tão triste ver o que acontece nessas situações.”

A última coisa que um pai quer é que o dinheiro que ele deixa para os filhos se torne motivo de discórdia. E, mesmo assim, isso acontece o tempo todo.

É por isso que K. e eu sempre mentimos para os nossos filhos.

Cofrinho Quebrado

Quando o assunto surgiu, nós dissemos – muito claramente – que eles “nunca herdariam nada” de nós.

Dissemos que pretendíamos gastar todo o nosso dinheiro antes de morrer. Se não conseguíssemos, doaríamos para caridade.

Dissemos também que esperávamos que eles ganhassem seu próprio dinheiro, pois não teriam direito ao nosso.

E estávamos falando sério.

Bem, estávamos falando sério sobre esperar que eles ganhassem seu próprio dinheiro. Mas mentimos sobre a herança. É claro que deixaríamos nosso dinheiro para eles – pelo menos boa parte dele.

Mentimos porque tínhamos medo de que, se esperassem a herança, se tornariam menos ambiciosos.

E nosso método parece ter funcionado. Como disse, nossos garotos se tornaram jovens que trabalham, pagam as contas e nunca nos pedem dinheiro.

Outra (talvez melhor) Abordagem

Enquanto isso, meu amigo Bill e sua esposa E. escolheram uma abordagem diferente. Eles evitaram mentir quando seus filhos eram pequenos, simplesmente evitando o assunto.

Falar sobre dinheiro – eles ensinaram aos filhos – era um tabu.

Mas quando seus filhos se tornaram adultos eles começaram a falar sobre dinheiro frequentemente. Na verdade, planejaram uma estrutura sucessória legal que tinha como objetivo preservar a riqueza familiar entre gerações.

Enquanto eu preparava meu discurso sobre “o desafio da riqueza entre gerações” para Bill, conversei com ele sobre nossas abordagens diferentes.

E a conversa mudou minha forma de pensar.

Eu contei o que tinha feito e disse que estava feliz com os resultados. Também disse que agora que meus filhos eram adultos – com seus caracteres já formados – eu estava com problemas por não os ajudar.

E então nós falamos sobre a questão da herança.

Ele ficou surpreso em saber que nossos filhos ainda acreditavam que não herdariam nada de nós.

“Quanto tempo você pretende continuar com a mentira?” – ele perguntou.

“Até o final” – eu respondi.

“Então eles só vão descobrir que herdaram todo o seu dinheiro depois que você estiver morto?”

“Isso mesmo.”

“E eles não terão sua ajuda para aprender como administrar esse dinheiro… como trabalhar para preservar e criar riqueza… como utilizá-la produtivamente?”

Aquilo me acertou em cheio.

Meus filhos sabiam como trabalhar e sabiam como se divertir. Mas eu percebi que um dia eles herdariam todos os meus ativos financeiros sobre o qual nada sabiam.

Então K. e eu decidimos fazer uma reunião familiar. Nós pedimos ao advogado de nossa família para dirigi-la. Nessa reunião mostramos aos nossos filhos, pela primeira vez, a soma de nossos ativos. E dissemos a eles que herdariam uma parte daquilo.

Fico feliz de dizer que a primeira reação deles foi negativa. “Nós não precisamos do seu dinheiro e não o queremos.”

Eu disse que estava feliz de saber que se sentiam dessa forma. Mas, gostando ou não, eles herdariam um bom dinheiro um dia. E nós precisávamos começar a falar sobre o que fariam.

Em vez de herdar dinheiro, nossos filhos vão herdar juros em um “fundo familiar”. O objetivo do fundo é ajudar os membros da família a enriquecer suas vidas… Mas de forma adequada.

Os filhos podem pegar emprestado do fundo. Mas, se o fizerem, devem devolver o dinheiro com juros. Eles podem usar o dinheiro para abrir negócios ou para estudar, mas não podem usá-lo para comprar carros esportivos ou iates.

Eles também devem ajudar a colocar mais dinheiro no fundo. Assim, quando morrerem, o dinheiro terá crescido o suficiente para ajudar os filhos de seus filhos.

Eu criei o fundo “The Ford Family Limited Partnership 20 anos”.

Já utilizamos essa parceria para conceder dois empréstimos: um para ajudar nosso filho mais velho a comprar uma casa e outro para ajudar nosso segundo filho a montar uma empresa. Sem acesso a esses fundos nenhum dos dois poderia ter feito essas coisas.

O crédito deles pode não ser bom o suficiente para os bancos, mas é bom o suficiente para nós. Ter a estrutura de sociedade limitada permite que forneçamos benefícios financeiros sem os mimar.

The Ford Family Limited Partnership possui vários imóveis, o que parece ser o veículo perfeito para nossos objetivos. Recentemente, nosso segundo filho concordou em administrar essas propriedades.

Como músico e compositor, ele teve pouca exposição a investimentos em imóveis e gestão de negócios. Mas suas novas tarefas caíram como uma luva.

Ele passa várias horas por semana aprendendo sobre o setor imobiliário, aprendendo que – assim como no setor da música – o trabalho pode ser divertido e desafiador. Ele é recompensado por seus esforços. Isso nos permite ajudá-lo financeiramente por seu próprio mérito.

Nosso filho mais velho ainda não se envolveu nos negócios da família, mas talvez o faça um dia. Se não fizer, há sempre uma chance de que um primo ou neto queira se envolver.

Ainda temos muitos ativos com os quais teremos que lidar, mas estamos felizes com o que já fizemos até agora.

De forma geral, acho que estamos sendo inteligentes: envolvendo nossos filhos na gestão dos ativos que um dia eles vão herdar enquanto ainda estamos aqui para fornecer conselhos e orientações.

Então o que aprendemos sobre esse assunto complicado?

Enquanto seus filhos são jovens…

Não compre nada caro só porque você foi pobre e nunca teve nada. Lembre-se, menos às vezes é dar mais.

Espere que trabalhem – e não apenas estudem. Obrigue-os a fazer tarefas domésticas e pague o valor de mercado. Nunca pague demais.

Evite discussões sobre riqueza familiar. Se o assunto da herança surgir, diga a eles que não vão receber nada.

Quando seus filhos saem de casa…

Deixe claro que seus quartos não serão mais seus quartos. Guarde seus objetos pessoais. Diga que são bem vindos para visitar por breves períodos. Lembre-os de que convidados devem ter boas maneiras.

Quando seus filhos se tornam adultos…

Depois que seus filhos tiverem provado que podem cuidar de si mesmos, você pode começar a discutir riqueza familiar, inclusive o que talvez eles herdem um dia.

Considere colocar um negócio ou ativos que produzam renda em uma estrutura legal que possa operar como um banco da família, concedendo empréstimos quando são merecidos.

Use o banco da família e a caridade para ensinar a seus filhos adultos o que você aprendeu sobre administrar riqueza

 

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Um abraço
Mark Ford

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