Criando negócios com pouca grana

Veja soluções para começar uma empresa com recursos limitados

Criando negócios com pouca grana

Olá,

Como está a sua conta bancária? Espero que bem, pois muitas pessoas andam reclamando que não têm dinheiro e outras estão desempregadas. Alguns também têm reclamado que é impossível empreender com poucos recursos. Eu creio que a afirmação não é justa e, na verdade, uma desculpa. Existem dezenas de casos de sucesso que provam o contrário.

Eu não estou aqui para pregar que o empreendedorismo é a solução para seus problemas financeiros, porque acredito que é preciso ter um perfil para ser empresário. Você pode aprender a ter características empreendedoras, mas simplesmente correr o risco não é para todo mundo.

Então, para os que se atrevem, vamos discutir como é possível gastar pouco dinheiro para começar seu negócio, investindo mais tempo do que dinheiro.

Precisamos falar sobre grana

De onde vem o dinheiro para começar? Segundo pesquisa sobre mortalidade de empresas feita pelo Sebrae-SP (eu falei sobre ela em nossa última newsletter sobre concorrência), 88% dos empreendedores contaram com recursos próprios (pessoais/familiares) para abrir a empresa. Uma fatia de apenas 12% contratou empréstimos de bancos.

Agora deixe-me citar outro dado interessante da pesquisa: 31% dos empresários que falharam não sabiam o tamanho do investimento necessário para o negócio. Isso acontece como reflexo de um problema maior e muito comum: a falta de planejamento. Na abertura do ano, escrevi especificamente sobre isso e, naquela newsletter, você encontra também mais casos de empreendedores que começaram com pouca grana fazendo um bom planejamento.

Os riscos de não se planejar, segundo outra análise do Sebrae-SP, que monitorou 10 anos de sobrevivência e mortalidade de empresas (1998 a 2007), são claros: 50% dos empreendedores que encerraram seu negócio perderam todo o recurso investido (apenas 23% recuperaram todo valor aplicado). Entre aqueles que perderam recursos ao fechar a empresa, o prejuízo médio foi de R$ 34 mil.

Consegui convencer você a planejar melhor antes de iniciar um negócio?

Para o consultor do Sebrae-SP Wagner Paludetto, o ideal é começar a empreender com recursos próprios, levando em conta uma reserva para a empresa e outra para despesas pessoais. “Abandonar o emprego sem planejamento é complicado, principalmente sem o apoio da família, pois, no começo, pode haver mudanças no padrão de vida”, diz.

Por isso, é recomendado testar a ideia de negócio em paralelo ao seu emprego, o que garante o salário e permite entender o cliente e suas necessidades. O Mark Ford sugere o mesmo aos membros do WBC. Em seus artigos ele afirma que a maioria das pessoas bem-sucedidas “começou pequeno, tomando riscos modestos e calculados. Eles não eram arrojados e imprudentes”.

Segundo Mark, existe o chamado “empreendedor frango” que “mantém o seu emprego durante o dia enquanto investe na sua carreira ideal à noite e aos fins de semana. Ele é um empresário porque está tomando a iniciativa de começar seu negócio próprio. É um frango porque não está disposto a deixar o emprego e perder sua fonte de renda.”

Mas que tal ir ao banco pegar um empréstimo? Em 2013, li um comentário do empreendedor americano Mark Cuban sobre isso: “Somente idiotas começam um negócio com um empréstimo. Entre tantas incertezas de se abrir uma empresa, a única certeza é ter de pagar o banco”. Ok, não vamos demonizar os empréstimos, mas começar já devendo é um risco grande (e olhe que o Mark Cuban estava falando dos Estados Unidos). Imagine se ele conhecesse o Brasil, com taxas de juros tão altas!

E o consultor do Sebrae-SP lembra que, desde 2014, os bancos estão restringindo o crédito para empresas iniciantes. A conta é simples: as instituições querem lucro e, em um negócio iniciante, não há garantias. “Mesmo que você consiga o financiamento, é preciso prever muito bem a capacidade de pagar, pois, tendo vendas ou não, você será cobrado. Financiamento pode ser bom, mas, quando não tem planejamento, é um tiro no pé”, completa Wagner.

A fórmula

O jornalista Ricardo Viveiros analisou 20 histórias de empreendedores brasileiros de sucesso em seu livro “Todo mundo disse que não ia dar certo” (Geração Editorial, 2014) e chegou a interessantes conclusões. Para escolher os casos, ele teve como parâmetro alguém com uma boa ideia, mas com recursos limitados que conseguiu vencer as adversidades.

E o jornalista percebeu que, apesar de atuarem em áreas distintas, os comportamentos dos empreendedores eram parecidos. Para começar, esses empresários de sucesso nunca foram ao banco, fazendo uso de recursos próprios, seja com economias, empréstimos de familiares ou negociando coisas.

Você sabia, por exemplo, que o fundador da Cacau Show, Alexandre Costa, vendeu um Fusca para começar sua empresa?

E que o dentista Robinson Shiba, fundador da rede China in Box, vendeu dois consultórios e pegou dinheiro emprestado com o pai para criar o primeiro restaurante?

“Eles economizaram onde puderam para fazer o negócio viável, porém nunca na qualidade do produto ou serviço. Se você tem uma boa ideia, acredita em si mesmo e no que oferece e vá à luta”, afirma Ricardo.

Os empreendedores analisados no livro seguiram alguns mandamentos para o sucesso (veja abaixo), mas o básico é contar com bom planejamento, estratégia, criatividade e trabalhar muito. “O Brasil está em crise, sim, mas a necessidade é a mãe das invenções: existem muitas oportunidades, você só precisa saber enxergar”, diz.

Em relação a começar uma empresa estando ainda empregado, Ricardo faz um alerta: “Quando você se divide, não dá atenção para nenhum dos dois. Por isso, é preciso definir sua escolha e esse período híbrido, entre emprego fixo e o empreendedorismo, não deve passar de seis meses a um ano”.

Mandamentos do empreendedor de sucesso:

  • Empreendedor é corajoso. Ele escuta todo mundo, mas principalmente a sua intuição
  • Nunca acredite que teve grandes resultados. A insatisfação é sempre necessária
  • Não confie em elogios. Críticas são melhores para o crescimento
  • Nunca demore mais de 24 horas para resolver problemas
  • Não deixa a vida pessoal atrapalhar os negócios
  • O negócio dever crescer sempre, não se acomode
  • Reúna bons colaboradores, que tenham ética e qualidade
  • O bom gestor sempre prepara substitutos

Força própria

O engenheiro elétrico Patrick Nogueira trabalhava em uma fábrica de cabos em Manaus (AM), longe de sua terra natal, o Espírito Santo. Em início de carreira, sabia que demoraria para ganhar aumento e avançar na hierarquia, algo frustrante para todo jovem. Para passar o tempo, gostava de fazer compras on-line e, para isso, levava horas buscando o melhor preço.

Em suas comparações, percebeu que havia uma possibilidade de mercado na checagem de preços entre lojas virtuais. Desta forma, em 2008, criou um blog para monitorar. Toda noite, após chegar do trabalho, ele passava pelo menos mais quatro horas na frente do computador trabalhando no projeto paralelo. Nos fins de semana, perdeu a conta de quantas horas se dedicava.

Além das atualizações no blog, que também contava com força da namorada, ele começou a estudar como criar um site por meio de vídeos tutoriais na internet. Para não gastar com anúncios e marketing, escolheu como estratégia visitar fóruns on-line e engajar a audiência, falando diretamente com possíveis consumidores. Fez ainda parcerias com outros blogs para que um divulgasse o serviço do outro.

Um ano depois, em 2009, a iniciativa começou a dar dinheiro e, gradualmente, superou seu salário. Foi então que ele decidiu largar o emprego e voltar para o Espírito Santo. Durante duas semanas, trabalhando pelo menos 14 horas por dia, criou finalmente o site da Baixou. Nos anos seguintes, continuou com sua estratégia de marketing de guerrilha investindo quase nada em propaganda. A iniciativa se provou sustentável, tanto que a startup foi escolhida, em 2011, pela aceleradora Start You Up para receber um investimento de R$ 30 mil.

Desde então, a empresa tem crescido e Patrick já tem três funcionários, além de dois sócios. “Toda vez que que achava que não ia dar certo, eu corrigia o plano, mas não desistia de fazer o site um sucesso”, conta.

Dicas do Patrick:

  • Pesquise muito sobre o mercado em que vai empreender
  • Não adianta apresentar projetos. É preciso ter algo para mostrar
  • Não diga que não tem tempo. Se precisar, durma menos
  • Mude o planejamento em caso de obstáculos, não a meta de fazer empresa dar certo

Tente até acertar

Rafael Heringer já tinha tentado empreender duas vezes antes de acertar com o modelo do Jurídico Correspondentes, startup de vagas para correspondentes jurídicos (advogados que realizam serviços para escritórios ou empresas em outras cidades). Em 2008, ele saiu do emprego para abrir uma consultoria de software. Chegou a ter três funcionários e vários clientes, mas, por inexperiência na gestão, fechou após um ano.

Em 2009, novamente empregado, usou o tempo livre para criar um portal de leilão de centavos, em que os lances para arrematar produtos partiam de um valor abaixo de R$ 1. Rafael investiu R$ 10 mil, sendo grande parte voltada para marketing on-line, mas o projeto acabou não dando certo. Pelo menos conseguiu vender o portal e receber o investimento de volta.

Em 2011, começou a trabalhar na área de TI de uma grande empreendedora imobiliária, onde conheceu o futuro sócio, Diego. Os dois tinham vontade de empreender e acabaram percebendo a oportunidade a partir um site de vagas de emprego para advogados chamado Jurídico Vagas.

Durante cafés da manhã na padaria antes do trabalho e, à noite, em um espaço de coworking (escritório coletivo) alugado por R$ 300 mês, eles desenvolveram o projeto, lançado em junho de 2012. Como queriam testar para ver se o modelo funcionava, investiram R$ 4 mil em anúncios on-line.

O site começou a crescer e eles descobriram que havia um nicho de vagas só para correspondentes jurídicos. Por isso, dentro do próprio site Jurídico Vagas, abriram uma área para testar, com cobrança de assinatura de R$ 9,90. Em 2013, já com mil cadastros, decidiram criar um site separado. Com as coisas dando certo, os sócios fizeram um acordo com a empresa em que trabalhavam e se demitiram. Reuniram R$ 30 mil de investimento próprio, o suficiente para se manter por três meses, e seguiram com o projeto.

O planejamento deu certo e, no período estabelecido, já se pagava. Em 2014, o faturamento dobrou e eles saíram do coworking em direção a um escritório próprio. Em 2015, o faturamento cresceu 30%. E, diferentemente de muitas startups, ávidas por arranjar um investidor desde o início, os sócios só começaram a pensar no assunto neste ano. “Não tínhamos vontade, porque queríamos desenvolver o produto. Assim, podemos ceder menos da empresa para um investidor por um valor maior”, explica Rafael.

Mão na massa!

Agora que mostrei que é possível começar um projeto com pouca grana, se tiver coragem e disposição, pense se esse é realmente seu desejo. Vai dar muito trabalho, mas a satisfação também é grande.

Releia as newsletters anteriores e comece a pesquisar (muito) sobre o mercado em que quer atuar – de preferência, algo que ame fazer. Depois faça um planejamento otimista, realista e pessimista e comece, então, a testar sua ideia, lembrando sempre de investir o mínimo possível.

Nesse começo, seu investimento deve ser mais de tempo do que de dinheiro. Se quiser dividir comigo suas ideias e problemas, mande um e-mail. E na semana que vem vou falar sobre o empreendedorismo como opção para quem está perto ou já está aposentado.

Hoje também convido os leitores do Criando Negócios a conhecer o curso Investimentos para Leigos, essencial para quem quer construir um patrimônio de forma sólida. Os analistas do Criando Riqueza e da Empiricus explicam sobre como fugir dos micos dos bancos e falar de igual para igual com seu gerente, entre outros temas.

Ao trabalho!

André Zara

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