Do home office a uma empresa de bilhões

Nesta entrevista com Marco Stefanini, empreendedor da área de tecnologia da informação, descubra como ele começou sua multinacional do escritório de casa

Do home office a uma empresa de bilhões

Olá,

Hoje temos uma entrevista com Marco Stefanini, 55 anos, presidente da Stefanini. A empresa multinacional atua no setor de serviços de tecnologia da informação (TI) em 39 países, tem mais de 21 mil funcionários e faturou R$ 2,6 bilhões em 2015.

O caso desse empresário é para lá de interessante. Queria descobrir como esse geólogo de formação, “transformado” em analista de sistemas, começou sua empresa do escritório de casa, nos idos de 1987, e conseguiu transformá-la na quinta companhia mais internacionalizada do Brasil, segundo ranking da Fundação Dom Cabral, com faturamento bilionário. Tudo isso sem nunca ter frequentado um curso de administração de empresas ou de empreendedorismo.

Na próxima semana, o assinante do plano “Você Investidor” já terá acesso ao relatório mensal do mês de maio. Nele, entrevistamos o  analista da Empiricus Max Bohm, que explica tudo que você sempre quis saber sobre o universo das pequenas empresas, as chamadas “microcaps”. E diz em qual delas você pode investir agora.

Já o nosso planejador financeiro, Walter Poladian, apresenta os critérios que você precisa levar em consideração na hora de selecionar (bons) títulos de renda fixa privados.

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Nosso encontro foi na sede da empresa, em São Paulo. Minha primeira surpresa, tendo entrevistado diversos presidentes de grandes empresas, foi a austeridade e o tamanho de sua sala. Pequeno, e localizado em um canto escondido do andar, seu espaço de trabalho é composto de uma mesa cheia de relatórios empilhados e um laptop, com apenas duas cadeiras para visitantes. Nenhum quadro ou decoração enfeita o lugar, exceto um vaso de planta no chão.

Passava das 16 horas quando a entrevista começou, e Marco estava terminando de almoçar uma marmita levada de casa. Guardou os potes e talheres em uma sacola de pano e, quando começamos a conversar, pegou sua sobremesa, uma mexerica, para degustar enquanto me contava sua trajetória de sucesso.

Confira a seguir os melhores momentos de nosso bate-papo.

Como um geólogo foi parar na área de TI?

Escolhi o curso de Geologia da Universidade de São Paulo (USP) por ser uma área de Exatas, por acreditar ser uma profissão mais informal e que me permitiria viajar. Foi uma coisa de jovem, tinha 18 anos. Entrei no curso no final do período do milagre econômico brasileiro e, quando me formei, o País já estava no meio da crise da década de 1980. Por isso, tive de mudar de profissão.

Como não havia oportunidades na minha área, trabalhei apenas três meses como geólogo. Depois, dei aulas particulares, em cursinho e escolas estaduais. Então, surgiu a oportunidade de trabalhar no banco Bradesco. Eles buscavam pessoas formadas na área de Exatas para treinar como analistas de sistemas. Após seis meses de estudo, comecei a trabalhar para o banco e depois também fui empregado na Engesa.

Mas, depois de três anos, quis abrir o meu próprio negócio. Eu sempre quis isso: meu pai era empreendedor, tinha escritório de contabilidade, e tinha esse “vírus” que passou para mim.

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Como foi o começo da empresa?

Comecei oferecendo serviços de consultoria de tecnologia, porque era o que sabia fazer e não demandava muito capital, o que oferecia um risco menor. No Brasil, o capital sempre teve custo muito alto. Toda atividade que envolve capital intensivo no País é melhor nem entrar, pois os juros são proibitivos. Com taxas de 20% ao ano não tem negócio que seja lucrativo. Você vai quebrar.

Um ponto importante ao começar é ser conservador na expectativa de receita e, ao mesmo tempo, espartano nas despesas. Comecei trabalhando em casa por causa disso, em 1987. Mas eu não passava muito tempo em casa, pois dava consultoria ou treinamento aos clientes. Só depois de um ano abri escritório próprio.

Como lidou com o dinheiro no começo?

Na prática, eu vendia o meu próprio serviço e não precisava de muito investimento. Mas não tinha grana para começar. Casei na mesma época em que comecei a empresa, tinha comprado apartamento e ainda perdi um dinheiro que coloquei em ações na bolsa. Na verdade, comecei devendo.

Por isso, calibrei as despesas. A primeira funcionária foi minha mulher, e só investia no negócio se tivesse dinheiro. Esse caminho é mais lento para a empresa crescer, porém, menos arriscado.

É muito comum os empreendedores falharem, pois as pessoas têm boas ideias, mas não têm disciplina para a execução. As dificuldades são sempre maiores do que você planeja.

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Mas você tinha pouco experiência profissional para se tornar um consultor. Como conseguiu conquistar os primeiros clientes?

É verdade. Na época, o acesso à informação era muito mais restrito do que hoje. Demorava para se tornar um profissional sênior, mas fui arrojado e me dediquei. Um dos meus primeiros clientes foi a IBM, em que eu dava cursos para funcionários. Eu era o mais jovem de idade e experiência fazendo isso, mas me considero um vendedor. Todo empreendedor no início tem de ser vendedor. Se não vender, não tem negócio.

Tinha a experiência de professor que me dava a didática para ensinar, o que compensava um pouco a parte técnica, que resolvi com muito estudo. Havia outros consultores muitos bons na parte técnica, mas que não eram bons professores.

E quando começou a crescer, quais desafios enfrentou?

No início, a preocupação é sobreviver. Quando começa a crescer, o empreendedor precisa assumir um papel diferente. No começo, é necessário ser mais ousado, vendedor e cara de pau. Depois, a necessidade é entender de administração, gestão de pessoas, lidar com dinheiro etc. Precisa ser uma mescla entre empreendedor e administrador.

Conforme você vai crescendo, passa por estágios em que não gerencia mais as pessoas na linha de frente do negócio. Perde o contato. Por isso, precisa se cercar de pessoas que complementem seu perfil.

Que tipo de gestor você é?

Nunca frequentei um curso de gestão ou administração e tenho lado vendedor até hoje, com foco no cliente.

Mas como abro muitas frentes de negócio ao mesmo tempo, preciso delegar as tarefas. Mesmo assim, gosto de estar envolvido em situações críticas ou importantes. Isso, às vezes, dá noção de que sou centralizador. No entanto, o papel do bom executivo é saber quando atuar.

Gosto de liderar de perto e sentir a temperatura do jogo. Sempre tive isso: é a melhor maneira de entender as dificuldades e tomar decisões. Muitas vezes, se faz um planejamento, mas o que acontece é diferente.

Você já passou por várias crises econômicas do Brasil. O que elas lhe ensinaram?

Cada crise aconteceu em um momento específico da empresa, ela tinha tamanhos diferentes. Hoje, tenho mais dificuldade de alterar o rumo, porque o negócio é maior e disperso. Por outro lado, tenho mais opções: estamos fora do País, a marca é mais forte, temos maior capacidade de inovação e financeira. Na crise, as grandes empresas têm mais a defender. Quem é pequeno tem mais a atacar.

 Como é gerir uma empresa multinacional? Quais os desafios?

É muito trabalho. Quando acordo, já tem e-mail da Europa e da Ásia e, quando vou dormir, estão chegando e-mails dos EUA e da América Latina. Quando começamos a crescer no exterior, não tínhamos equipe de executivos para exportar, o que demandou trabalhar com profissionais locais. O ideal é um ter mix entre as pessoas, mas não tínhamos capacidade.

Isso é desafiador, porém, é muito legal lidar com culturas diferentes. Sempre gostei de viajar, não consegui como geólogo, mas hoje posso.

Como lida com o estresse de ser empreendedor?

Empreendedorismo é realmente estressante e sempre achamos que nossa área é a pior. No segmento de TI, tratamos com tecnologia e pessoas. Muitos problemas e pouca rotina. Somando a escala global, fica pior.

Por isso, sempre tento dividir o problema: é mais fácil solucionar os pedaços e depois juntar. Isso aprendi com o tempo. Se você lida mal com problemas, não serve para ser empreendedor. Quanto mais sucesso, mais difícil fica.  

O que me ajuda a relaxar é atividade física, que tento fazer três vezes por semana. Corro, o que não é minha atividade favorita, mas é o que dá para fazer por causa de falta de tempo – só preciso de um par de tênis. Prefiro esportes coletivos e com bola, mas é melhor que nada.

Como lida com o planejamento? E qual papel da intuição para um empreendedor?

Não faço planejamento de longo prazo, penso no máximo em três anos. E fico sempre atento para revisar o plano, pois oportunidades aparecem e desaparecem rapidamente.

Visão estratégica é saber o que você quer e para onde quer ir. Então, quando aparece a oportunidade, você está mais pronto para avaliar e aceitar.

Gosto de olhar os números, mas também uso a intuição. Isso diferencia um empreendedor do administrador (que não arrisca). Procuro o meio termo, mas muita coisa faço na aposta. Por que não tentar? Isso também é mais fácil na área de TI, que é mais intelectual do que física.

E como lida com o fracasso?

Foram muitos fracassos, mas o lucro é resultado do risco. Empreendedor que não quer tomar risco não é empreendedor. Você precisa calcular e mitigar risco. E ter humildade para voltar atrás: muitos insistem no erro, não têm capacidade de ouvir. Para ser líder você precisa ouvir a todos, mas tomar a decisão. Não pode se isentar, pois esse é o seu papel.

E qual é o papel dos empresários neste momento de crise política do Brasil?

Acho que a empresa é apartidária. Tenho minha visão particular, mas o papel de uma companhia é crescer e produzir riqueza. Independentemente da crise, temos de trabalhar em qualquer país que estejamos, pois não temos influência nenhuma. Tenho de focar onde tenho o comando.

Empreendedores devem defender ideias. Não é apoiar partido X ou Y, mas valorizar o empreendedorismo e a atividade privada. É isso que produz riqueza no País, não o Estado. Eu entendo que o Estado deve ser menor e existem papéis que são do Estado e outras da atividade privada.

Sempre tento contribuir dividindo nossa experiência de internacionalização e tecnologia, mas não é meu perfil me meter em política.

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Já pensou em empreender em outro segmento, fora de TI?

Sim. Quando ainda trabalhava como funcionário, antes de abrir a consultoria, minha ideia inicial era abrir um bar ou restaurante para minha esposa tocar. Mas ela não tinha o perfil empreendedora.

Já tive vontade de diversificar, mas sempre fui focado. Uma vez cometi um deslize de abrir uma fábrica de tanquinhos que durou apenas dois anos e deu prejuízo. Foi uma besteira e deu muita dor de cabeça, mas aprendi. De vez em quando, sinto essa vontade quando vou a hotéis ou restaurantes que acho legais, porque gosto do ramo. Mas prefiro não inventar. O negócio é focar.

E que conselho dá aos que querem começar o próprio negócio?

Há pessoas que têm a visão romântica do empreendedorismo, pois acham que não vão ter chefe. Quem pensa isso vai se dar mal. É o contrário: em vez de um chefe, você tem vários.

Todo cliente é um chefe que vai exigir mais do que um empregador. E ainda existe uma dose de risco, a de não receber e perder dinheiro. Você vai trabalhar mais.

Quem tem emprego, tem salário fixo, se a empresa dá certo ou errado. E, se é demitido, ainda sai com dinheiro no bolso.

Se é tão complicado, por que alguém deve empreender?

Porque é gostoso construir algo novo e tomar as decisões. Você é responsável pelo próprio destino.

Por fim, em quem você se inspira no mundo do empreendedorismo?

Gosto muito de ler biografias. Não consigo ler livro de guru de negócios, não gosto de teoria.  Por isso, me inspiro lendo sobre o Barão de Mauá (Irineu Evangelista de Sousa), o Francisco Matarazzo, o Jorge Paulo Lemann, o Steve Jobs, o Antônio Ermírio de Moraes, entre outros. Assim, aprendo bastante e me inspiro na prática.

Mão na massa!

Nem preciso comentar como gostei desta entrevista, pois o Marco é um “empreendedor mão na massa”, do jeito que gostamos aqui no Criando Riqueza! Foram vários conselhos valiosos e, mais importante, práticos para seguirmos.

Na próxima semana vou fazer um anúncio especial. Quer se tornar milionário em até sete anos? A oportunidade está chegando!

Ao trabalho!

André Zara

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