O recomeço do criador do RestauranteWeb

Confira o bate-papo com Marco Corradini (e seu sócio Fernando Moribe) sobre o novo projeto para o segmento de beleza

O recomeço do criador do RestauranteWeb

Olá,

 

Na primeira entrevista deste ano quero contar uma história de recomeço.

 

Há algumas semanas, recebi aqui na sede da Empiricus um dos sócios-fundadores do RestauranteWeb, Marco Corradini e seu sócio Fernando Moribe. Eles vieram falar sobre o desafio de começar de novo após ser bem-sucedido como empresário ou na carreira profissional.

 

O RestauranteWeb é uma plataforma pioneira no Brasil de pedido de refeições on-line. A empresa, fundada em 2003, foi vendida para o grupo europeu Just-Eat, em 2011 (por valores não divulgados). Na época, a plataforma tinha 180 mil usuários cadastrados, mil estabelecimentos parceiros e faturamento perto de R$ 10 milhões, sendo um case de sucesso entre as startups nacionais.

 

Já Fernando trabalhou em outra startup de sucesso, o Buscapé, e depois fez carreira na gigante IBM na área de Tecnologia da Informação (TI).

 

Após esboçar duas tentativas como empreendedor de startups, ele se uniu ao Marco, no ano passado, para uma nova empreitada: a Body Hair, um marketplace no segmento de beleza e bem-estar, lançado em agosto do ano passado, que permite o agendamento on-line de serviços de salões de beleza.

 

(Fernando Moribe, à esquerda, e Marco Corradini, na sede da Empiricus)

 

A aposta é em um segmento gigantesco no Brasil (o terceiro maior mercado de beleza no mundo e 700 mil estabelecimentos como potenciais clientes para a Body Hair), mas que nenhum dos dois têm experiência.

 

Na entrevista, eles contam suas estratégias e muitos outros pontos sobre empreendedorismo. Acompanhe os melhores trechos:

 

Por que essa startup é um recomeço para vocês?

 

MC – Eu comecei minha carreira na área de TI e fui empreender no mundo das startups. A nossa aposta com o RestauranteWeb foi arrojada e nasceu de um trabalho meu de pós-graduação: um e-commerce para pequenas empresas, que desencadeou na ideia de praça de alimentação on-line.

 

Na época, a conexão de Internet ainda era lenta, por isso, fomos tocando como um projeto em paralelo. Em 2005, começou a ser fortalecer comercialmente, pois foi ganhando adeptos e as grandes cadeias de alimentação gostaram da ideia. Foi crescendo tanto que acabei indo trabalhar só nela. Em 2011, fomos procurados por dois grupos, um europeu e outro dos EUA, para aquisição. Naquele momento, eu e meu sócio achamos melhor vender, pois precisávamos de investimentos para crescer em um mercado que estava cada vez mais acirrado. Para nós, foi financeiramente satisfatório. Eu ainda fiquei na empresa até 2014, em um cargo de direção.

 

FM – Eu iniciei minha carreira na área de TI de uma startup, o Buscapé. Foi minha introdução ao empreendedorismo, porque participei do crescimento da empresa. O que aprendi foi como lidar com um ambiente dinâmico, com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, financeiro reduzido e tentar fazer uma nova ideia dar certo. Depois de sair do Buscapé fui para IBM, cuja mentalidade é totalmente diferente. Mas a passagem pela startup despertou em mim a vontade de empreender. Depois de visitar o Vale do Silício (EUA) e acompanhar o movimento nacional de startups, decidi que ia entrar nesse barco. Tive algumas ideias e cheguei a esboçar duas, mas a oportunidade surgiu com a Body Hair, no ano passado.

 

Marco, por que você decidiu empreender novamente, sabendo dos problemas que iria enfrentar para fundar uma empresa?

 

MC –Se eu não tiver nada para fazer, passo mal. Trabalhar faz bem à saúde, ainda mais quando se pode ter as rédeas. Mesmo se não tiver sucesso, essa correria é benéfica. É confuso e parece que voltei ao começo do RestauranteWeb. O segmento de beleza não está acostumado com tecnologia e temos que doutrinar os donos de salões, como fizemos com donos de restaurante no passado. Mas eu gosto de problemas. Quando eles surgem devemos trabalhar para solucionar, sem nunca desviar deles.

 

E como vocês dois se encontraram?

 

FM –Eu conheci o Marco quando ele ainda estava no RestauranteWeb. Mostrei algumas ideias de negócio para ele, em 2013, e mantivemos contato. Aí surgiu a ideia do Body Hair, pois vimos como era precário a parte de tecnologia no setor e decidimos ajudar consumidores e estabelecimentos.

 

MC – Esse é meu primeiro investimento-anjo em um startup, entrando com dinheiro e trabalho. No início de 2015 passamos da conversa para a ação. Eu fiquei com a parte comercial, marketing e financeira da operação. Fernando está na tecnologia e operações.

Como surgiu o modelo de negócios da Body Hair?

 

FM – O nosso modelo é baseado nos agendamentos. O cliente seleciona horário e faz o agendamento on-line, do qual cobramos comissão. Assim, ajudamos os negócios ter visibilidade na Internet e preencher sua agenda. O modelo é importado de empresas que já tiveram sucesso lá fora, como a Wahanda. Mas sempre há um abrasileiramento constantemente e haverá mais.

 

MC – Ganhamos dinheiro na transação, pois existe comissionamento dos empresários (os primeiros 90 dias são grátis, mas depois cobramos 8% sobre o agendamento). Ainda é um valor baixo porque queremos ganhar escala. Temos também uma ação de incentivo, que funciona como um programa de milhagem e dá pontos em troca de serviços ou prêmios para os empreendedores.

 

 

E como está sendo esse começo da operação?

 

MC – Ainda estamos engatinhando, levando em conta que lançamos o aplicativo em agosto do ano passado. Hoje, estamos com 120 estabelecimentos parceiros e focados em São Paulo, a cidade explosão.

 

Estamos organizando a casa, principalmente fazendo o marketing on-line, que é caro, e acertando o modelo para crescer. E estamos buscando investimento. Enquanto nos EUA é fácil achar investidor, aqui tem de provar o modelo primeiro.  O cenário já evoluiu bastante, mas ainda é difícil nesse sentido. Outro desafio que tenho discutido com investidores é o receio deles, pois não conseguem traçar planejamento de longo prazo no Brasil por causa das incertezas da economia e política. Não é falta de grana, mas falta de perspectiva, principalmente para os estrangeiros. Por isso, gosto de planejar com duas ou três alternativas, sempre pensando do melhor ao pior cenário. Empreender nunca é uma linha reta.

 

FM – Em uma startup operamos sempre de forma evolutiva. Temos uma primeira versão do produto e vamos desenvolvendo de acordo com feedback dos estabelecimentos. Em termos de equipe temos vendedores e operacionais, totalizando sete pessoas. O cronograma para 2016 está definido, mas deve mudar por causa das respostas dos clientes. O que é normal.

 

“Gosto de planejar com duas ou três alternativas, sempre pensando do melhor ao pior cenário. Empreender nunca é uma linha reta.”

– Marco

 

A principal associação do segmento (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos – Abihpec) registrou queda no faturamento do setor em 2015 pela primeira vez em 23 anos. Como vocês encaram o cenário?

 

FM – Para o empreendedor a crise é oportunidade. Temos propósito de ajudar no relacionamento e trazer novos clientes para os empresários do setor de beleza. E nós vemos no mercado pessoas que reclamam da crise, mas outros que estão na contramão. A questão é buscar novas oportunidades para fazer negócios.

 

MC- Hoje, os clientes de salão surgem por indicação ou pela proximidade. Nós trazemos o salão para a era do smartphone. O dono tem investimento zero, pagando em cima apenas do resultado, o que é um grande benefício.

 

E quais os planos para o futuro da Body Hair? Essa startup também pode ser vendida?

 

MC – Nosso planejamento, na parte financeira, é conseguir R$ 7 milhões em investimentos em dois anos. Com isso, teremos o break even (ponto de equilíbrio das contas) em 24 meses e pay back (retorno) de 38 meses. O nosso foco é na empresa e estamos muito envolvidos. Não consigo nem mensurar o valor financeiro dela, se fosse para vender.

 

FM – A mentalidade não pode ser para vender, mas no propósito da empresa. A venda é consequência de sucesso. Se fizer focado nisso, não vai dar certo, pois não vai haver envolvimento.

 

E a concorrência preocupa?

 

MC – Nós já temos três concorrentes diretos, fora os estrangeiros que podem surgir por meio de aquisições. Mas isso não preocupa, pois, a concorrência ajuda a disseminar nosso modelo de negócios.

 

FM – Ter concorrente é positivo, principalmente em um modelo novo.  Em um mercado grande como o da beleza é utopia pensar que vamos estar sozinhos.

 

 

“Ter concorrente é positivo, principalmente em um modelo novo. Em um mercado grande como o da beleza é utopia pensar que vamos estar sozinhos.”

– Fernando

 

Qual a melhor parte e a pior parte de ser um empreendedor?

 

MC – A melhor parte é ter liberdade de expressão e fazer o que quiser no direcionamento da empresa. A pior parte é se preocupar em pagar as contas no final do mês (risadas).

 

FM – Nem tudo são flores…

 

E em quem vocês buscam inspiração nos negócios?

 

MC – Gosto de empreendedores à moda antiga, mais mão na massa e coração, como o criador das Casas Bahia, Samuel Klein. Gosto também do Steve Jobs por ele ser perfeccionista.

 

FM – Eu me espelho nos criadores de startups, como os próprios criadores do Buscapé, que tive contato. Gosto de ideias de impacto que mudam a vida de pessoas.

 

Quais os conselhos para os empreendedores?

 

MC – O primeiro é estudar muito sobre o negócio e contar com cenários positivos e negativos. As pessoas só pensam no lado otimista e não se preparam para problemas. Tem de ser pé no chão. E gastar o mínimo necessário, o que é possível com parcerias. Se tiver um bom relacionamento e rede de contatos, não precisa de muito dinheiro, sendo muito efetivo sem investimento.

 

FM – Empreender é dedicação. Está disposto? As pessoas pensam que vão ficar mais tranquilas, mas vai ter que se dedicar mais do que trabalhando como funcionários. Além disso, é preciso acreditar na empresa, sempre estar junto dos clientes e de olho nos concorrentes.

 

Mão na massa!

 

E você? Tem uma história interessante de recomeço no mundo dos negócios para dividir conosco? Eu gostaria muito de saber.

 

E na semana que vem vou falar de um tema muito importante: como lidar com a concorrência. Vou mostrar quando ir à guerra e quando se aliar a ela.

 

Abraço e sucesso!

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