Razões para empreender após a aposentadoria

A americana Elizabeth Isele, uma das maiores especialistas do mundo em empreendedorismo após os 50 anos de idade, dá recomendações para você perder o medo do desconhecido

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Razões para empreender após a aposentadoria

Olá,

Na minha pesquisa para a newsletter do dia 29 de janeiro, na qual falei sobre como empreender na aposentadoria, li pela primeira vez sobre Elizabeth Isele, 73 anos, fundadora e diretora-executiva do The Global Institute for Experienced Entrepreneurship, organização dos Estados Unidos focada em promover o empreendedorismo para pessoas “experientes”, como ela gosta de descrever quem tem mais de 50 anos.

Logo descobri que essa senhora de sorriso simpático é uma das maiores vozes incentivadoras para que os “50+” criem seus próprios negócios, sendo requisitada para dar conselhos sobre o tema na Casa Branca, no senado americano e até a políticos europeus. Além disso, com frequência ela é convidada a dar entrevistas e a escrever artigos para publicações como Forbes e The New York Times. Para acrescentar, é pesquisadora independente de inovação social na Babson College (considerada a melhor instituição de ensino de empreendedorismo do mundo).

Quanto mais lia sobre Elizabeth, mais ficava fascinado, principalmente ao descobrir que sua carreira foi toda dedicada às Letras. Professora, editora e escritora por 25 anos, sua vida deu uma guinada quando fez 56 anos e estava quase aposentada. Tudo começou com a ideia de ensinar idosos a usar a internet, em 1998, em um pequeno centro comunitário na cidade de Portland (Maine).

O que segue é uma história de descoberta e dedicação à causa do empreendedorismo para pessoas com mais de 50 anos, que pode servir de modelo para muitos brasileiros.

Confira abaixo os melhores momentos da entrevista.

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Qual a diferença entre começar um negócio na juventude e na idade madura? Os riscos são maiores?

A maior diferença é que empreendedores jovens têm mais tempo para começar de novo se falharem. No entanto, as vantagens dos empreendedores seniores são maiores do que os riscos, porque eles sabem o que funciona e o que não funciona e têm mais resiliência do que os jovens na hora de aceitar os riscos. Também sabemos que eles são muito criativos por causa de suas experiências previas e têm como recurso uma rede de contatos sólida.

Quais os maiores erros que esses empreendedores cometem quando começam um negócio?

Os problemas acontecem na preparação. Os seniores devem arranjar tempo para avaliar se têm o que é necessário para empreender. Não importa o quanto você foi bem-sucedido em sua carreira, é diferente começar um negócio.

Por isso, as pessoas precisam se perguntar se realmente desejam empregar o tempo e a energia necessários. Se decidirem que o esforço é muito grande, podem arranjar um parceiro. Pode ser alguém da rede de contatos ou um jovem empreendedor. Outro fator importante a avaliar é quanto dinheiro você pode colocar em risco sem prejudicar seu futuro financeiro.

Nos Estados Unidos, os empreendedores com mais de 50 anos começam as empresas por necessidade ou desejo?

Segundo estudo da Ewing Marion Kauffman Foundation, 80% dos respondentes disseram que não conseguir empregos não era um fator para começar seus negócios. Apenas 4,5% afirmaram que isso havia sido determinante.

Idosos que encontrei em várias partes do mundo têm um grande desejo de permanecer relevantes e de contribuir para a sociedade pelo maior tempo possível.

Existe algum mercado em particular no qual pessoas acima de 50 anos preferem começar seus negócios?

Não. Elas começam todo o tipo de negócio que você pode imaginar, companhias de tecnologia, decoração, reciclagem, restaurantes, entre outros.

Qual a recomendação para os 50+ começarem suas empresas, do ponto de vista de financiamento?

Nunca foi tão barato para um empreendedor começar uma empresa, e existem algumas maneiras criativas de conseguir o dinheiro para iniciar, como microcrédito e crowdfunding (financiamento coletivo).

As pessoas precisam de dinheiro para começar, mas não de muito dinheiro. Podem iniciar seus negócios de casa com empréstimos de US$ 1.000. Por isso, o microcrédito é muito eficiente e, para diminuir o risco, incentivamos os empreendedores a começar pequeno.

Existe um exemplo muito interessante de uma senhora de 89 anos que, em 2013, começou a própria empresa de customização de bengalas com os US$ 3.500 que conseguiu na plataforma de financiamento coletivo Kickstarter. A Happy Canes surgiu porque seu neto viu que ela havia customizado a própria bengala, incentivou-a e a ajudou a criar a campanha na plataforma e a vender os produtos pelas redes sociais. 

O que a motivou a se tornar uma empreendedora social?

Eu estava semiaposentada e decidi me mudar para a cidade de Portland, no estado do Maine. Continuei dando algumas aulas em duas universidades locais e trabalhando como editora independente no meu escritório de casa. Na época, fui contratada por uma empresa de mídia para criar conteúdo para websites e, enquanto escrevia, refletia para quem aqueles conteúdos seriam significativos. Um dia, percebi que o mundo virtual poderia ser muito valioso para idosos, pois daria acesso a informações de saúde, educação e empregos.

Primeiro, inocentemente, achei que só seria necessário falar aos idosos sobre a internet, mas rapidamente percebi que era preciso criar um currículo para ensiná-los a usar a tecnologia. Assim, criei meu primeiro empreendimento social, em 1998, chamado CyberSeniors. Eu tinha 56 anos.

Eu não comecei com muito dinheiro – e é isso que tentamos passar para as pessoas até hoje. Você precisa aprender a acessar os recursos que já existem. O estado do Maine, por exemplo, tinha programas de educação de adultos e centros comunitários, nos quais havia diversos tipos de cursos. Quanto tive a ideia, falei com pessoas que trabalhavam em centros comunitários para idosos na tentativa de descobrir se seria uma boa ideia. Ninguém sabia, mas eles me disseram para criar um pôster e dizer que era de graça. Apareceram 12 pessoas na primeira turma.

Conforme o projeto foi crescendo, ganhamos parceiros, como a Microsoft e o National Institutes of Health (NIH). Essa agência governamental estava colocando toda a sua informação on-line, mas estava preocupada, pois idosos não conseguiam acessar aquele conteúdo valioso. Por isso, acabamos criando outro programa paralelo, o Cyber Health, para treinar idosos para acessar a informação.

Em cinco anos, o CyberSeniors se transformou em um programa de treinamento especialmente desenvolvido para idosos que capacitou 28 mil pessoas para usar a tecnologia, em todo os Estados Unidos.

Em 2009, você criou o blog “Savvy Seniors”, focado no mercado de trabalho para pessoas com mais de 50 anos. O que descobriu com a experiência?

O blog foi criado para ajudar pessoas que gostariam de continuar trabalhando em vez de se aposentar. Algumas não tinham escolha, não haviam se preparado e suas pensões e economias não eram suficientes. Outras, só queriam contribuir para a sociedade e se sentir valorizadas.

A maior reclamação que recebia dos leitores – de todas as partes do mundo – era o preconceito de idade. Se estavam desempregados (por escolha própria ou não), as chances de conseguir uma recolocação no mercado eram de menos de 10%.

O preconceito de idade, combinado com a situação econômica ruim da época, que diminuía o número de empregos, me fez pensar que deveria haver outra opção. Então, percebi que eles deveriam parar de procurar emprego e começar a criar o próprio negócio.

O que eu aprendi com o programa CyberSeniors é que você não pode simplesmente dizer a alguém como fazer algo, você precisa ajudá-lo a fazer as coisas. Por isso, criei uma série de workshops que chamei de “Experience Incubator”, na qual ensino pessoas com mais de 50 anos a traduzir suas experiências de vida e no qual trabalho em habilidades que elas precisam para criar um negócio. Essa ação preza pelo contato entre gerações. Juntamos jovens empreendedores que dividem suas habilidades de mídia social com idosos, os quais, por sua vez, dividem suas experiências de 30 anos ou mais de carreira.

Em 2012, você fundou a organização Senior Entrepreneurship Works para ajudar empreendedores seniores e demandar melhores condições para eles. Quais foram os desafios para começar o debate?

Novamente, o preconceito de idade. Somente quando apontei os benefícios econômicos, como a geração de empregos por esses empreendedores, tanto local quanto globalmente, consegui apoio para debater políticas públicas e de acesso à capital.

Em janeiro deste ano, você lançou o Global Institute for Entrepreneurship Experienced. Por que criar mais uma entidade?

Essa organização, na verdade, junta todo nosso trabalho anterior em educação, em políticas públicas, em acesso à capital e em pesquisa no mesmo lugar. Estamos criando um ecossistema global para apoiar a “economia experiente” e a troca de conhecimentos entre gerações.

Acreditamos que a experiência é uma nova vantagem competitiva. Assim, construímos melhores startups e negócios, além de contribuirmos com a sociedade. A entidade é uma comunidade colaborativa, incubadora de tecnologia e plataforma de treinamentos baseada na integração de participantes jovens e de pessoas experientes. Toda pesquisa e programas são focados no poder da experiência como catalizador de mudanças econômicas e sociais.

Vocês já conseguiram medir o impacto dessa “economia experiente”?

Ainda precisamos de muito mais pesquisa nesta área. Organizações como a Gerontological Society of America (GSA) estão estudando o empreendedorismo sênior após nós termos introduzido o conceito em 2012. Também estamos trabalhando com universidades nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Chile e com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM – consórcio mundial para estudo sobre o empreendedorismo) para fomentar novas pesquisas para medir o impacto e entender melhor o perfil.

Quais políticas públicas são boas para encorajar empreendedorismo para esse público?

Em termos de educação, precisamos de mais programas de treinamento customizado para dar mais acesso a informações e para suprir a necessidade dos 34 milhões de idosos que se auto-identificam como empreendedores nos EUA. Além disso, precisamos promover ações para desempregados, treinamento de mentores e competições especialmente focadas em empreendedores seniores.

Também precisamos de medidas para facilitar o crédito, por causa do preconceito de idade das instituições bancárias. Isso pode ser feito por meio de programas de microcrédito ou de incentivos fiscais, tanto para investidores de empresas fundadas por seniores como diretamente para os negócios.

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Como está a situação para empreendedores acima de 50 anos nos Estados Unidos atualmente?

Está mais positiva por causa do nosso trabalho com o governo, com corporações e com pesquisadores. As pessoas começaram a entender o poder econômico que este empreendedor tem de melhorar a economia e de criar empregos – além de uma oportunidade de mercado para fornecer empréstimos e tecnologia para seus negócios.

Um estudo da Ewing Marion Kauffman Foundation aponta que a maior taxa de crescimento de atividade empreendedora nos EUA nos últimos 15 anos partiu do grupo de pessoas de 55 a 64 anos*. Recentemente um dos pesquisadores da fundação me contou que a tendência não mostra nenhuma desaceleração, mesmo após os empreendedores atingirem mais de 64 anos. Hoje, nos Estados Unidos e, em muitos países, empreendedores com mais de 50 anos são maioria entre pessoas começando um negócio.

Outro estudo confirma isso: pessoas aposentadas têm três vezes mais chances do que pessoas jovens de serem empreendedoras e donas de pequenos negócios, segundo estudo do banco Merrill Lynch, de 2014.

*Nota do editor:

De acordo com a pesquisa, em 1996, as pessoas com mais de 55 anos representavam 14,8% da base empreendedora dos EUA; em 2014, passaram a 25,8%, com o segundo maior peso na amostra. No Brasil, dentre os 23 milhões de novos empreendedores em 2014, o grupo representa apenas 8%, conforme a análise do GEM.

 

Nos EUA, como está a conversa na esfera política para avançar com as medidas em favor dos empreendedores com mais de 50 anos?

Está indo muito bem por causa dos benefícios sociais e econômicos que apresentamos. Já falamos do aspecto financeiro, como a criação de empregos, de novas empresas e o estímulo à economia. Mas o impacto humano é importante também: empreendedores experientes vivem de maneira mais saudável (física e mentalmente) e produtiva do que os aposentados. Assim, criam menos demanda dos serviços sociais e de saúde.

Mão na massa!

A aposentadoria não precisa ser o fim da sua carreira, pode ser apenas o começo de uma nova. Infelizmente, no Brasil, os dados sobre empreendedorismo de pessoas experientes, apontados pela pesquisa do GEM, mostram que o grupo com mais de 55 anos é o de menor atividade dentre todas as idades.

Mesmo assim, creio que, com planejamento adequado, alguém com tanta experiência de vida pode se dar muito bem e criar uma empresa de sucesso.

Na semana que vem, vamos falar de um tema importantíssimo: os principais erros e dificuldades entre os empreendedores de todas as idades. Com base em pesquisas sobre mortalidade de empresas de diferentes partes do mundo, vou mostrar quais os problemas mais comuns que você vai encontrar e como os evitar.

Antes de encerrar, quero comentar os muitos e-mails enviados sobre a última newsletter, que falou sobre a relação entre negócios e política. Recebi muitas críticas e elogios, mas o que me deixou mais contente foi perceber o interesse das pessoas em apresentar seus pontos de vista e em se engajar no debate. Obrigado a todos que me escreveram! E, se você ainda não fez isso, leia e mande sua opinião!

Ao trabalho!

André Zara

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