Bitcoin: o ornitorrinco do sistema financeiro

O bitcoin passou por um processo complexo até ser “levado mais a sério” assim como a comunidade científica classificou o ornitorrinco como um embuste no início (e hoje ele é um dos animais-símbolo da Austrália).

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Bitcoin: o ornitorrinco do sistema financeiro

No século 18 a pele de um animal que ninguém conseguia classificar chegou à Europa. A princípio, os cientistas locais pensaram que aquela pele se tratava de um trote dos colegas australianos.

Mesmo depois de muitas trocas de informações entre os especialistas dos dois continentes, os europeus continuavam achando impossível existir uma espécie tão única, que pudesse reunir características de mamíferos, répteis e aves.

Mais uma tentativa foi feita: o capitão John Hunter viu a espécie com os próprios olhos e enviou um desenho para a Europa para que tivessem a certeza da existência do animal. Então, em 1799, George Shaw publicou a descrição do novo animal e o nomeou de Platypus anatinus. Um ano mais tarde, outro cientista recebeu de fato um ornitorrinco conservado em álcool e entendeu que esse animal possuía um ancestral e então o nomeou de Ornithorhynchus anatinus.

Além dessas idas e vindas acerca das evidências da existência do ornitorrinco, a comunidade de cientistas teve que reavaliar as classes de animais até então existentes para classificar essa mais nova espécie catalogada no fim do século 18. (Não deve ter sido nada fácil mudar tudo que acreditavam para incluir um animal desajeitado e estranho, que ninguém conhecia.

QUALQUER SEMELHANÇA…

O bitcoin passou por um processo semelhante. À primeira vista, tentaram classificá-lo como uma moeda, depois como uma commodity. Cogitaram também que ele pudesse ser o ouro digital ou mesmo um meio de pagamento. Mas a verdade é que o bitcoin não precisa ser colocado em apenas uma categoria. Ele pode ser tudo isso e muito mais.

Assim como a comunidade científica classificou o ornitorrinco como um embuste no início (e hoje ele é um dos animais-símbolo da Austrália), o bitcoin passou por um processo complexo até ser “levado mais a sério”.

Nesta semana, porém, conseguimos ver a evolução do entendimento sobre o que é o bitcoin na Consesus: Invest, um evento focado em investidores institucionais em criptomoedas. Percebemos que aquele mesmo mercado de engravatados que não dava a mínima para o que um bando de nerds estava fazendo em 2008 passou a prestar mais atenção no ativo digital depois de 2010.

Naquela época, o mercado também repudiou a ideia, chamando o bitcoin de fraude. Só então, quando conseguiram realmente entender o potencial desse ativo, passaram a considerá-lo, mas ainda sem saber em que classe de ativos colocá-lo.

Ainda não existe um consenso quanto à classificação do bitcoin no mundo de ativos que existem atualmente. Talvez o mais prudente seria criar uma nova classe para ele. Assim, deixaríamos que as próprias funcionalidades desse inovador protocolo se mostrassem na prática para nós, para só daí decidirmos como ele deve ser classificado — a exemplo do caso do ornitorrinco, que inicialmente ganhou o nome de Platypus anatinus e depois passou a ser chamado definitivamente de Ornithorhynchus anatinus.

Na verdade, acredito que o bitcoin seja algo transmorfo, ou seja, ele nasceu com a proposta de ser uma moeda digital e universal, mas, no caminho, tornou-se, espontaneamente, uma forma de investimento muito rentável.

Ainda creio que ele possa se tornar uma moeda internacional, mas ainda é cedo para chegarmos a esse estágio. Afinal, não existe na história uma moeda com valorização semelhante, incríveis 1.000% em um ano.

Leia mais: Vamos falar sobre criptomoedas?

Imagine um mundo em que o preço do bitcoin não varie muito. Nesse mundo, as demais características do bitcoin são preservadas, e ele deixa de ser rentável como um investimento, mas passa a servir muito bem como moeda. É dessa forma que vejo esse ativo se transformando ao longo do tempo e chegando ao seu principal propósito, que consta do seu white paper: ser um sistema P2P de dinheiro eletrônico.

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