Destrua esse Bitcoin

Há quem simplesmente não se interesse por Bitcoin, mas tem muito investidor que fica perdido com a divisão de opiniões entre os “evangelizadores" das criptomoedas e os críticos ferrenhos.

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O vídeo do Crypto Talks desta semana acabou de sair. Já assistiu?

If your time to you is worth savin’
Then you better start swimmin’ or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’

[…]

Come mothers and fathers throughout the land
And don’t criticize what you can’t understand
Your sons and your daughters are beyond your command
Your old road is rapidly agin’

O trecho acima é de Bob Dylan, da canção “The times they are a-changin”. Os tempos estão mudando. É bom começar a nadar ou você afundará como uma pedra.

A newsletter de hoje é dedicada aos leitores que ainda não possuem criptomoedas em seus portfólios.

Sei que ainda há quem simplesmente não se interessa pelo assunto. Porém, sei também que tem muito investidor que ainda fica com um pé atrás por ver tanto fogo cruzado de opiniões divergentes.

De um lado, os “evangelizadores” das criptomoedas pregam a beleza da descentralização do Bitcoin e da inovação tecnológica do ativos que estão surgindo.

De outro, críticos ferrenhos apontam a irracionalidade dos primeiros. “Onde já se viu uma moeda que nem existe valer 10 mil dólares?”, “isso só é usado para fins ilegais!”, “é a maior bolha da história!”

Calma, calma… Vamos colocar alguns pingos nos is hoje.

Na live que fizemos hoje, “Destrua esse Bitcoin”, falamos um pouco sobre por que e como há alguns agentes relevantes do mercado que se posicionam fortemente contra as criptomoedas.

Não tem problema criticar. Críticas geram ideias, promovem evolução. Problema mesmo é fazer isso sem argumentos minimamente fundamentados. “Don’t criticize what you can’t understand” — não critique aquilo que você não consegue entender.

Ontem mesmo, mais um texto com algumas pontas soltas me chamou a atenção. Em um artigo publicado no jornal “O Estado de s. Paulo”, José Serra intitulava o Bitcoin como “uma tecnologia à procura de um produto”.

O senador começou muito bem o texto, explicando, de forma até didática, como funciona o processo de mineração e a rede do Bitcoin. Ao chegar à metade do texto, porém, as coisas passaram a não caminhar tão bem.

Com todo respeito ao senador e a todos os outros especialistas de mercado que levantam críticas, eu humildemente acho que falta entendimento em alguns pontos.

Levantei os principais e espero que isso ajude também o investidor que tem dúvidas sobre o mercado de criptomoedas a ter maior clareza sobre onde está pisando.

1. Um problema do Bitcoin é não ter uma autoridade central que possa reverter transações ilegítimas.

A descentralização, na realidade, é uma das principais inovações do protocolo Bitcoin, que foi capaz de criar um modelo de consenso entre os agentes da rede de forma a validar transações sem precisar de uma autoridade central.

Por meio disso, cria-se um ecossistema financeiro que não depende das intervenções governamentais, imune à censura e pode ser usado por qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo.

Uma rápida leitura sobre a última grande crise financeira, em 2008, é suficiente para entender do que as autoridades centrais são capazes. Elas parecem sérias em seus discursos. Mas em uma injeção de liquidez ou no socorro aos bancos, quem paga o pato é você.

2. O sistema de transações é lento e caro.

Vejo muitas alegações de que o bitcoin não serve para nada pois, para fazer uma transação com a moeda, é preciso esperar muito tempo até que o valor enviado chegue ao destinatário, por conta das seis confirmações de rede necessárias para validar a transação.

Além disso, a limitação a sete transações por segundo e os altos custos de transferência seriam um empecilho ao uso em larga escala.

Vamos lá então. Do ponto de vista do tempo de confirmação das transações, há um erro de concepção que é acreditar que todos os pagamentos, necessariamente, precisam esperar seis confirmações de rede para serem validados, o que leva em média uma hora.

Para pequenas transações, que são as mais afetadas pelo tempo de espera — afinal, você não quer ficar uma hora na padaria esperando para poder levar o pão embora —, o dono de um estabelecimento pode aceitá-las sem confirmações, correndo um risco da mesma magnitude que correria se fizesse a venda com cartão de crédito.

Para transações de valores altos, o tempo de confirmação costuma ser muito menor do que se esperaria para fechar uma remessa internacional.

Em relação ao número de transações por segundo e taxas, a Lightning Network, um dos principais desenvolvimentos do momento no ecossistema do Bitcoin, está sendo constituída justamente pensando em escalabilidade da rede.

3. Uma moeda, por definição, deve servir como reserva de valor. O bitcoin não pode ser considerado uma.

Esse é um dos que eu mais gosto de ouvir, mas meu preferido mesmo é o próximo. Ok, vamos considerar que aqueles pedacinhos de papel que estão na sua carteira sejam, de fato, uma reserva de valor.

Suponha que um sujeito, no ano 2000, logo após ter tido seu primeiro filho, resolveu colocar dinheiro em um cofrinho para o futuro da criança. Em 2018, quando o filho se prepara para entrar na faculdade, o pai quebra o porco.

O dinheiro lá dentro serviu como reserva de valor? Se considerarmos a inflação de 210% entre os anos 2000 e 2018, não. O dinheiro de dezoito anos atrás perdeu mais de 65% de seu valor.

A inflação é aquela morte lenta e indolor. Você não sente seu dinheiro perder valor. Mas ele perde caso você não tome uma atitude. Portanto, moeda fiduciária também não funciona muito bem como reserva de valor. Quer garantir seu poder de compra? Vá de NTN-B.

4. A grande inovação é o blockchain, não o bitcoin.

Ahá! Agora você me pegou, né?

Não. Esse é um dos maiores absurdos que escutamos diariamente. A tecnologia do blockchain é UMA das inovações do bitcoin.

Além disso, um blockchain sem um ativo subjacente não vale nada. Eu e você podemos criar um blockchain para nós, mas ele não vai ter valor algum.

Como bem apontou um amigo do mercado de criptomoedas, o blockchain não é o remédio para todos os males.

Andreas Antonopoulos, uma das maiores referências desse ecossistema, é categórico em dizer que é o mecanismo de consenso do Bitcoin, chamado Proof-of-Work, que torna a rede tão poderosa e, consequentemente, fortalece o blockchain. O blockchain não fará automaticamente tudo o que um banco quer. Não é a solução miraculosa sem um ativo por trás, uma rede de usuários ampla e uma estrutura de confiança.

Não é possível dissociar as criptomoedas de seus blockchains. Quem diz para você que “criptomoedas não valem nada, mas o blockchain será o futuro”, provavelmente, não se deu ao trabalho de ler meia dúzia de artigos sobre o assunto.

The new kid on the block

As criptomoedas são o novo garoto na vizinhança. Naturalmente, os moradores mais antigos terão uma boa resistência contra o recém-chegado, mesmo que saibam, no fundo, que o moleque tem potencial.

Ele tem seus defeitos. Claro que tem! Quem é perfeito, que atire a primeira pedra.

Olhe por outro lado: é justamente pelas melhoras que ainda precisam ser feitas nos códigos das criptomoedas que elas possuem tanto potencial.

Quando forem mainstream, tecnologias estabelecidas e rodando em regime permanente, aí não tem mais como ficar rico com elas.

Nós, investidores “early-stage”, pagamos o ágio da incerteza por uma assimetria mais convidativa de retorno.

A realidade é que as criptomoedas estão apenas começando. Há muito mais para ser feito na economia global que só transações de valores. Criptomoedas não são comparáveis com dinheiro.

São MAIS que dinheiro.