Louco e visionário

Existem algumas regras de bolso para o investidor de longo prazo que devem ser seguidas como dogmas caso queira ter rentabilidades consistentes por décadas e não apenas por meses. A que mais ajuda nessa construção contínua de patrimônio com segurança é a de não se alavancar em demasia, mesmo que a sua convicção seja a maior possível.
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ALGUÉM PARE ESSE HOMEM

Existem algumas regras de bolso para o investidor de longo prazo que devem ser seguidas como dogmas caso queira ter rentabilidades consistentes por décadas e não apenas por meses.

A que mais ajuda nessa construção contínua de patrimônio com segurança é a de não se alavancar em demasia, mesmo que a sua convicção seja a maior possível.

Isso porque convicção não quer dizer certeza a respeito do que vai acontecer. Até porque fatos não concretizados não têm uma probabilidade de 100%, esse percentual pode ser referente apenas ao que já ocorreu.

Lembre-se sempre de que o futuro é opaco e impermeável, por isso convicções não podem levá-lo a apostar o que tem e o que não tem em uma tese.

Digo isso porque tenho convicção de que estamos em meio a um bull market e acredito que o bitcoin pode alcançar a marca dos US$ 200 mil ainda neste ciclo.

Por outro lado, mesmo estando convicto, estou ciente dos riscos desse mercado e sei que posso estar errado, mesmo que a probabilidade seja baixa.

Com isso em mente, a última coisa que posso fazer é querer comprometer todo meu patrimônio. Isso porque, se por um lado eu estiver certo, posso multiplicá-lo por 10 vezes, no mínimo, mas caso minha visão não se concretize, posso perder grande parte daquilo que acumulei durante a vida.

A situação pode ser ainda pior se eu decidir tomar um empréstimo para investir nessa tese e comprometer quantias além do meu patrimônio. Isso poderia me fazer sair de um ciclo adverso até devendo dinheiro.

E não pense que esse tipo de loucura é restrito aos investidores de varejo; investidores institucionais também se comportam assim.

Provavelmente você deve ter ouvido falar de Michael Saylor, CEO da MicroStrategy, empresa listada na Nasdaq.

Ele foi responsável pela primeira alocação pública em bitcoin por uma empresa listada em Bolsa.

A sua companhia até pouco tempo atrás tinha alocado US$ 425 milhões em bitcoin, cerca de 90% do seu caixa, o que já é uma estratégia extremamente ousada.

Mais recentemente, a MicroStrategy declarou ter comprado mais US$ 50 milhões adicionais em BTC.

Não satisfeita, na última segunda-feira (7) a empresa divulgou que iria tomar uma dívida de US$ 400 milhões para comprar bitcoins, que deverá ser paga em cinco anos e foi aprovada pelo conselho da empresa.

Provavelmente o apego histórico ao preço do ativo deve ter motivado esse empréstimo de meia década, já que em janelas de cinco anos não se perdeu dinheiro investindo em BTC.

Mesmo que isso se concretize daqui em diante, novamente, por favor, não tenha esse tipo de comportamento. Alavancagem parece sempre uma boa ideia até não ser.

Enquanto o mercado cripto comemora a convicção de Michael Saylor, eu fico angustiado com os investidores da MicroStrategy e muita gente dentro da empresa também.

Nos últimos três meses, um total aproximado de 220 mil ações foi vendido em 25 oportunidades por pessoas da companhia, o que em valores atuais representa quase US$ 64 milhões.

Figura 1. Últimas dez vendas de funcionários da empresa
Fonte: Nasdaq

A MicroStrategy parece estar se transformando em um hedge fund de cripto, e não uma empresa focada em seu negócio.

Mesmo assim, se eu tivesse que apostar R$ 100 que ela sairá vencedora dessa loucura, eu apostaria.

Mas perceba, R$ 100 não são US$ 875 milhões!

Forte abraço,
André Franco