A casa de todas as casas

Sempre fui preocupado com problemas de oferta. Veja a Bolsa brasileira, por exemplo. Todo mundo reclama da falta de demanda. A verdade é que tem pouca ação para comprar.

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A casa de todas as casas

Fui saber que o Love Story pediu recuperação judicial. Fiquei triste, como já tinha ficado quando do fechamento da boate A Lôca.

Não me leve a mal. Nunca fui muito dessas, mas sabe como é… três horas da manhã, vagando pelo centro após uma carreira de marias-moles, você topa qualquer coisa.

Se você não conhece muito bem São Paulo e seus pontos turísticos tradicionais, o Love Story costumava (não sei se ainda costuma) ser o lugar onde as mulheres da vida iam se divertir após seu trabalho formal. Não era um prostíbulo, fique claro. Definitivamente, nada de carteira assinada. Ali, elas estavam sem farda. Não havia Natashas, Samanthas, Charlenes ou Cínthias. Eram Ana Paula, Célia, Marta, Maria das Dores.

Gosto de conhecer as pessoas por trás dos personagens, desprovidas de suas armaduras que vestem no dia a dia para impedir-nos de ver o que escondem lá dentro. O véu do perfume doce e do creme rinse inibe a observação do mais interessante, aquilo que fica escondido só para os que realmente podem se aproximar: a complexidade de cada um, as ambivalências, as contradições, os arrependimentos e as cagadas. Pena só haver personagens no Itaim, com suas camisas azuis padronizadas, os relógios Rolex e os Evoques – todos eles príncipes na vida!

O mais legal mesmo do Love Story, porém, era outra coisa: a diversidade. Ali tinha todo tipo de gente, convivendo da mesma forma, bebendo a mesma bebida, usando a mesma droga e, óbvio, disputando a mesma Maria das Dores – como era gostosa a Maria das Dores! Preto, branco, amarelo (muito amarelo!), policial, ladrão, traficante, cafetão, prostituta, travesti (lembro quando a gente pegou o Pantera dando uns amassos num traveco no banheiro; nada contra, mesmo, só foi engraçado), transgênero, andrógino.

A oferta ali dentro era muito rica e dava aos clientes uma pluralidade enorme de alternativas. Eles podiam fazer o que quisessem, sem julgamentos. Por isso, era legal. A própria etimologia conecta a diversão com a diversidade.

Sempre fui preocupado com problemas de oferta – muito antes de o governo Dilma confundir tudo e dar estímulos de demanda a uma economia com restrições no lado da oferta, que, claro, só poderiam se traduzir em inflação e aumento de importações, exatamente como acabou sendo.

Veja a Bolsa brasileira, por exemplo. Todo mundo reclama da falta de demanda. “Investidor brasileiro só quer saber de imóveis e poupança, não compra ações. Olha só nos EUA quanta gente compra renda variável… blá blá blá.”

A verdade é que tem pouca ação para comprar.

Se você pegar o desempenho do Ibovespa nos últimos anos, vai ver como ficamos para trás frente às demais Bolsas globais, sejam elas norte-americanas ou de outros países desenvolvidos.

Pode haver vários motivos para isso. A frustração com o ritmo de recuperação da economia brasileira, a não aprovação da reforma da Previdência, as incertezas políticas, o Joesley, o Neymar e por aí vai. Mas tem outro lance acima disso: o que subiu de verdade nos últimos anos no mundo foi tecnologia. Isso acontece dos EUA, mais facilmente percebido pelo desempenho estelar do acrônimo FAANG (Facebook, Apple, Amazon, Netflix, Google), até a China, que se transformou num polo de fintechs e coisas parecidas.

No Brasil, você vai comprar o que no setor de tecnologia? Positivo? Com todo respeito, mas podemos mais do que isso.

Não há alternativas. Talvez pudesse escrever que não há opções, aqui no emprego técnico da palavra. Como derivativos sobre ações no Brasil, você tem meia dúzia de nomes, ainda muito concentrado em Petrobras e Vale, não há prazos longos e, quando você pede liquidez para os bancos, nego enfia a faca, inventando uma desculpa qualquer para justificar a volatilidade implícita fora de qualquer propósito. Daí o investidor tenta baratear a operação e, depois de comprar uma opção, vende uma outra para formar uma estrutura com derivativos. O perfil de retorno piora ainda mais: ele pagou caro na que comprou, e vendeu barato a outra. Não tem saída.

Não é uma exclusividade da falta de liquidez das opções ou da ausência de alternativas em tecnologia (biotecnologia, nanotecnologia ou afins). Também não temos representados na Bolsa brasileira qualquer coisa que venha a se beneficiar diretamente, por exemplo, dos pujantes setores de maconha ou de blockchain, cujas multiplicações em Wall Street têm sido simplesmente astronômicas.

Sabe o que é pior disso tudo? Sem a possibilidade de comprar essas coisas consideradas malucas, o investidor está alijado do que considero uma das maiores vantagens das ações e de posições compradas em opções: a convexidade, ou seja, a capacidade de se expor a retornos positivos filosoficamente infinitos, enquanto limitam sua perda potencial.

Por conta da lei de responsabilidade limitada, ao comprar uma ação, o investidor tem sua perda máxima restrita a 100% do capital empregado. Ao mesmo tempo, pode ganhar quanto? Uma, duas, dez, cem vezes o que investiu.

Dai decorre que, necessariamente, por mera imposição da álgebra, investir em ações de maneira bastante diversificada no longo prazo é uma boa, mesmo que você faça isso de forma aleatória.

Se você comprar cem ações hoje. O que provavelmente vai acontecer daqui a 30 anos? Algo mais ou menos assim: um terço vai quebrar, um terço vai ficar ali no zero a zero em termos reais, e um terço vai se dar bem. Então, naquelas que foram mal, você perdeu 100 por cento do capital investido. Mas no um terço de sucesso, você multiplicou por sei lá quantas vezes, muito mais do que compensando as perdas de 100 por cento dos fracassos. No bojo, você ficou rico.

Claro que você pode dar um azar danado e todas se darem mal. Quanto mais diversificado estiver, maior a chance de prevalecer a lei dos grandes números, ou seja, do resultado real convergir para a tendência média. E, obviamente, se você introduzir aí no meio esses nomes com potencial de multiplicar por 10x, maior a chance de o negócio dar certo.

Daí a importância de separar algum dinheiro – não precisa ser muito do seu capital; ao contrário, é preferível que seja pouco – para comprar essas doideiras como ações de maconha, bitcoin, ethereum, biotecnologia, nanotecnologia, opções fora do dinheiro, startups, fintechs inovadoras…

O problema prático é que você não encontra boa parte dessas coisas no Brasil. Precisa recorrer ao mercado internacional. Não se assuste. Calma. É mais fácil do que parece – e vai ficar ainda mais fácil quando o amigo Roberto Lee materializar sua boa ideia de colocar a Avenue de pé, pavimentando a via para brasileiros investirem no exterior sem burocracia, da mesma forma com que fazem hoje em seus home brokers.

Além de simples, é também mais necessário do que parece. As pessoas entendem facilmente a ideia da diversificação, sintetizada no clichê “não colocar todos os ovos na mesma cesta”. Sabem que não podem expor-se somente a uma classe de ativos e, então, dividem suas aplicações entre ações, renda fixa e imóveis. Mas ainda resistem a diversificar entre moedas.

No portfólio médio do investidor brasileiro, prevalece o viés local, com muita exposição a esta moeda um tanto exótica que é o real.

Abrir-se à possibilidade de investir no exterior não é somente um passo para sofisticar seus investimentos e blindar-se das incertezas econômicas e políticas brasileiras. É um necessário mecanismo para obter diversificação e convexidade de suas aplicações.

Com isso em mente, convido você hoje a conhecer o material da Agora Financial Brasil, uma empresa totalmente americana pertencente ao Grupo Agora Inc, focada em trazer para os brasileiros as melhores oportunidades de investir lá fora. Neste momento, há um IPO que, segundo eles, está bastante quente e vale a pena participar,mirando ganhos convexos.

Antes de encerrar a introdução de hoje, já que estamos falando de ações internacionais, uma palavra sobre Tesla e seu comportamento de ontem. Talvez você tenha lido sobre a disparada das ações, após o fundador Elon Musk sugerir no Twitter a possibilidade de fechar o capital da companhia.

Observando a valorização imediata e destacada das ações, os analistas fundamentalistas, sempre muito céticos de Tesla por não se enquadrar nos critérios buffettianos clássicos de investimentos, apressaram-se em aconselhar Elon Musk sobre princípios de governança corporativa. Os professores de educação moral e cívica logo foram ensinar: “Um tuíte deste não pode!”.

Teria mesmo Musk algo a aprender com essa gente? Ou seria o contrário?

Como homenagem ao Love Story, termino lembrando os travestis de Wall Street (aqui no sentido de que se travestem de outrem) do próprio Warren Buffett, que tanto admiram: “Wall Street é o único lugar do mundo onde pessoas que andam de metrô dão conselhos a outros que andam de Rolls-Royce”.

Mercados brasileiros iniciam a quarta-feira demonstrando certa preocupação. Após serem atingidos por uma série de rumores na véspera sobre o cenário político, voltam a esboçar maior aversão a risco.

Há expectativa por pesquisa CNT/MDA, com especulações de que pintaria um quadro mais desfavorável para os candidatos considerados reformistas.

Na esfera econômica estrita, IPCA de julho apontou inflação de 0,33 por cento, levemente acima do 0,26 por cento esperado. Resultado empurra juros futuros para cima, embora não deva ser suficiente para alterar os planos do Copom.

Lá fora, Bolsas estão perto do zero a zero, enquanto ponderam preocupações remanescentes com guerra comercial, resultados corporativos e balança de comércio na China. As importações do país em julho montaram a 28,05 bilhões de dólares, contra prognóstico de 39,10 bilhões de dólares.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4%, dólar e juros futuros sobem.