A Estratégia Curupira

Obviamente, nenhuma trajetória é linear e ininterrupta

A Estratégia Curupira

Durante dois anos, eu e o Caio gerimos os fundos de uma corretora tradicional em São Paulo. Ao meu lado, sentava um ex-banqueiro importante (mais famoso do que inteligente). Na sala em frente, ficava um analista responsável por escrever o relatório diário daquela instituição. Entre suas tarefas, estava a de adivinhar qual seria o comportamento dos principais mercados no dia.

Parecia loteria esportiva da Caixa. Havia uma tabela com três colunas: Bolsa, juros e câmbio. Em cada manhã, o sujeito deveria preencher as lacunas com setas coloridas. Verde e ascendente, se achava que o ativo subiria. Amarelo e horizontal, no caso de estabilidade projetada. Vermelho e descendente, para o caso de esperar queda.

Eu imaginava que aquilo não poderia funcionar. Mas, sabe como é, ficava quietinho. Eu era – e ainda sou – apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes. Se o banqueiro do meu lado não falava nada, “quem é eu pá julgá”.

Desafiando o paradoxo da intolerância de Karl Popper, decidi ser cético sobre meu ceticismo. O camarada era respeitado na corretora, chamado de Doutor pela turma do floor. Ganhava bem, usava Eviews, quatro monitores conectados ao terminal Bloomberg. Deve ser gente importante. “Vai que ele desenvolveu uma estratégia boa para acertar para onde vai o mercado… eu que devo estar errado em não acreditar.”

Então, resolvi monitorar as previsões. A cada dia, anotava o que ele esperava para cada um dos mercados, com disciplina monástica. Marcava naquilo que chamo de meu Ipad, um caderno 100 folhas da Kalunga, com modelo morena de olhos verdes na capa – cada um tem uma tecnologia de preferência!

Depois de seis meses, vi que o sujeito era realmente impressionante naquilo que fazia. Para contrariar a proposição estatística, o Doutor errava mais do que 50 por cento das vezes. Ainda mais incrível, parecia que quanto mais errava, mais respeito ele tinha ali dentro, mais entrevistas dava para o Globonews.

O problema, pra mim, não era o enriquecimento do sujeito. Deixa ele ser feliz pra lá. Mas me incomodava a possibilidade de alguns clientes estarem se baseando naquelas tentativas absurdas de previsão.

Eu precisava avisar as pessoas, mesmo que internamente, daquela atrocidade. Falar de maneira direta não funcionaria. Eu era o jovem louco, intuitivo, transgressor e espontâneo. O Doutor era o cientista ilibado. Embora minha descrição seja fidedigna, eu achava que tinha um ponto.

Como denunciar aquela fraude intelectual?

Não sabia como. Até que, numa manhã, vi a Luzinete, a morena que nos servia café todas as manhãs, adentrando a sala. Com todo o respeito, mas também sinceridade do mundo, ela era ma-ra-vi-lho-sa. Uma mulata esguia, pele bronzeada cor jambu, pernas e ombros torneados. Uma loucura. A sorte é que ela só aparecia com o mercado fechado. Se as cotações já estivessem se mexendo, não haveria como acompanhá-las enquanto aquela deusa de Ébano marcava presença na sala.

Na tentativa de desmascarar o Doutor e, claro, aproveitar para avançar algumas casas na tentativa de aproximação com a Luzinete, propus:

Luzi, a partir de hoje, você será minha analista favorita. Diz ai o que você acha pra Bolsa hoje.
“Ah, seu Felipe, Corinthians ganhou ontem, né? Então hoje é dia bão. Acho que é alta.”
E lá foi o índice como um foguete. Tudo – tudo mesmo – subiu com a firmeza de uma rocha naquela segunda-feira.

Então, fui fazendo o tracking em voz alta, comparando com as projeções do tal analista. Passados três meses, a Luzi estava na frente, com alguma folga. Quando todo mundo estava na sala, fiz a provocação:

Luzinete, você viu que tem acertado mais as projeções para Bolsa do que o Doutor?
Ah, mas daí não tem graça. O Doutor sabe nada, não. A gente chama ele aqui de Curupira. Os pezinho dele são tudo trocado.
Foi um deleite. Todos viram o quanto o sujeito estava, na verdade, sendo ridículo ao tentar penetrar o futuro. Não era culpa dele, no sentido de que não era uma incompetência individual. Era porque a tarefa que se dispôs a fazer era mesmo impossível.

Estou indo para a Amazônia no feriado. Talvez por lá eu encontre o Curupira. Saudade mesmo tenho da Luzinete…

Conto essa história porque ainda é um pouco triste ver a obsessão das pessoas por previsões. as perguntas que mais ouço, mesmo depois de passar oito anos escrevendo sobre a impossibilidade de enxergar o futuro, são:

Vou viajar em seis meses. Acha que devo comprar dólar agora ou na véspera? Ele vai subir até lá?
Quanto vai subir a ação XPTO3?
Se eu assinar a Empiricus, quanto você me garante de retorno ao mês?
Olha, a única coisa que eu garanto é uma perseguição obstinada por retornos assimétricos. Compramos opcionalidades baratas, numa busca implacável e com a mesma voracidade de sempre – Day One sempre. Essa é a essência da coisa.

Isso me traz a um ponto fundamental neste momento. Embora eu já tenha falado de outras formas algo parecido, vou roubar uma frase que a Luciana Seabra ouviu daquele que é hoje talvez o mais brilhante de gestor de ações do Brasil na sexta-feira (eu só não o cito nominalmente porque ele mesmo se auto-denomina bicho do mato, alheio às citações – fico triste porque queria muito ele no livro da Luciana, mas respeito, claro): “agora há risco de você ganhar dinheiro.”

Não há melhor resumo para o momento. O que eu acho mais curioso sobre os gênios é que eles mesmo não se sentem geniais.

Estamos numa mudança estrutural do ciclo. Você tem duas opções à sua frente: adaptar-se e mudar seu posicionamento ou manter-se apegado à mesma postura dos anos anteriores.

Veja as coisas em perspectiva. Tente entender a profundidade, a complexidade do momento e os desafios que ele nos impõe.

Entre 2009 e 2015, quem ganhou dinheiro foram os fundos e os investidores defensivos. Observamos dois tipos ente os outperformers: i) aqueles que apenas pegaram um ciclo ruim de mercado e, por características próprias “surfaram” o bear market por conta de seu pessimismo/medo pessoal insuperável, e ii) aqueles que foram defensivos por identificar uma necessidade conjuntural de serem prudentes.

Há um risco importante aos primeiros. Se você é medroso e ganhou dinheiro no bull market, apenas surfou, quase aleatoriamente, o alinhamento do cenário conjuntural aos seus atributos pessoais. Não há nenhum problema em ganhar dinheiro na sorte. Mas também não existe genialidade alguma aqui. Os pessimistas não foram geniais, eles apenas se depararam com um cenário péssimo.

E agora? Se for mesmo um bull market, o ciclo pertencerá aos outros, aqueles que puderem se adaptar (estavam pessimistas e viraram a mão, mantendo o espírito de uma start up mesmo estando num belo e merecido escritório novo no Leblon de frente para o mar) ou aos estruturalmente otimistas, que eram heróis entre 2003-2008 e foram defenestrados no período 2009-15.

Talvez isso seja uma tautologia, mas, agora, felizes mesmo serão os otimistas. Se dinheiro traz felicidade? Ora, como diria Woody Allen, “eu acho que não, mas ele provoca uma sensação tão parecida que é necessário um especialista para verificar a diferença…”

Obviamente, nenhuma trajetória é linear e ininterrupta. Segunda-feira marca aumento do grau de aversão a risco em âmbito global, com novos testes nucleares pela Coreia do Norte. Tensão se elevou fortemente no final de semana, após ter aparentemente se dissipado nos dias anteriores.

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Feriado nos EUA por conta do dia do trabalho reduz liquidez internamente. Mercado doméstico digere relatório Focus, com revisão para cima nas projeções de crescimento, e mais uma evidência de inflação abaixo do esperado, medida pelo IPC-Fipe. Ministro Meirelles cita possibilidade de PIB crescer até 3 por cento em 2018, o que seria surpreendente – não compro ainda a ideia, mas também não descarto.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,4 por cento, acompanhando praças internacionais. Dólar oscila perto do zero a zero contra o real, ao ponderar exterior mais tenso e prognóstico de entrada de recursos – Paper Excellence fechou a compra da Eldorado por 15 bilhões de reais e China Merchantes levou 90 por cento do terminal Paranaguá por 2,89 bilhões de reais.

PS.: Hoje é o dia do lançamento do projeto 1 MR, um dos mais especiais da Empiricus, voltando a uma estratégia para chegar a 1 milhão de reais, da maneira mais rápida e segura possível. Está imperdível.

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