A grande migração

Com a chegada do mês de julho, após o pior trimestre desde 2015, entendo que seja adequada uma migração nos portfólios.

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A grande migração

Nunca gostei dessa história de Discovery Channel, mas sempre quis conhecer a África. Mando para a caixa de spam as conversas com a pegada National Geographic — claro que, antes, coloco minha máscara do Pluto e finjo total interesse no interlocutor —, embora tenha desenhado na cabeça todo o roteiro da viagem ao Serengeti.

Quero muito acompanhar a Grande Migração, “o maior espetáculo da Terra”, quando os gnus movimentam-se pela savana africana na direção sul durante as chuvas e na direção norte na estação seca. Cerca de 1,5 milhão de gnus deslocam-se entre a Tanzânia e o Quênia, numa reunião de dar inveja à parada gay de São Paulo. Como são base da cadeia alimentar, acabam atraindo grandes predadores, como leões, leopardos e chitas, além dos crocodilos dos rios Grumeti e Mara — todos eles interessados nas criancinhas gnus ou no pessoal de idade mais avançada, sempre uma presa mais fácil; com a reforma da Previdência do governo Temer, os idosos gnus precisam trabalhar até morrer e também fazem a Grande Migração, sem descanso. E, obviamente, como raspas e restos interessam a todo mundo, sempre contamos com a participação especial daquela turminha da pesada, as hienas — como tenho raiva das hienas!

Embora o fenômeno possa ser acompanhado durante todo o ano, é mais admirável justamente nos meses de julho e agosto, quando se atravessam os rios, sempre um momento mais dramático — toda hora ficam uns gnus pelo meio do caminho, com aquele bando de aligátores depravados dando umas dentadas mortíferas no pessoal; é a morte de alguns que permite a tranquilidade da travessia dos demais, quando os malvados crocodilos estão ocupados com suas presas já capturadas.

Com a chegada do mês de julho, após o pior trimestre desde 2015, entendo que seja adequada uma migração nos portfólios. É sempre duro propor uma coisa como essa após meses de perdas para as ações de forma generalizada. Para comprar ações de mais qualidade, tal como proponho aqui hoje, é provavelmente necessário ao investidor vender outras no prejuízo. E isso sempre lhe custa caro.

O investidor nunca quer realizar um prejuízo. Há um custo emocional grande em fazê-lo. Desde os estudos de Teddy Odean, sabemos que o investidor segura por mais tempo do que deveria posições perdedoras e vende muito rapidamente as posições ganhadoras. O desdobramento lógico dessa prática é terrível a longo prazo: ele terminar com uma carteira inteiramente composta por micos.

Não deveria ser assim, claro. A ninguém deveria importar o preço de compra. Se você comprou uma ação, ela ainda é o melhor investimento a se manter em carteira? Ou seria preferível trocar por outra, capaz de render mais? O prejuízo já aconteceu, você já está perdendo, independentemente de vender ou não a ação. Note que talvez nem seja um problema da sua compra, em si. Simplesmente pintou uma outra oportunidade melhor, mais castigada injustamente pela crise e mais óbvia agora.

Ainda assim, todos se mantêm apegados ao preço de entrada e resistem a adequar o portfólio para uma composição melhor, simplesmente porque “estão perdendo em determinada posição”.

Apelo ao argumento de autoridade para tentar provar o ponto de hoje. Recorro às palavras de George Soros: “Eu nunca fui melhor do que os demais para evitar erros. Sempre cometi o mesmo número de equívocos que os demais. Se tenho um mérito, é de perceber rápido o erro e não me apegar às minhas posições. Se detecto um equívoco ou uma melhor oportunidade, simplesmente encerro minha exposição naquele instante”.

Hoje, o nível de preço dos ativos e o momento de mercado ensejam uma possibilidade interessante: comprar o que é bom, a preços baratos. Isso não costuma acontecer com frequência e, quando ocorre, merece ser aproveitado.

O momento não me parece das small caps, das empresas problemáticas, dos turnarounds, dos casos menos óbvios, por mais interessantes que possam ser e, no fundo, são. Ninguém quer saber disso agora, porque há muito valor nas large caps de qualidade, porta de entrada natural para os gringos e para os fundos de pensão brasileiros, que, cedo ou tarde, vão precisar também fazer a sua grande migração em direção à renda variável.

Por mais doloroso que possa parecer, a decisão mais racional agora é assumir certos prejuízos em empresas mais problemáticas e abaixo do radar e fugir para a qualidade. Depois que Itaú voltar a 50 reais, podemos começar a pensar em vasculhar pepitas de ouro escondidas por aí.

Antes dos comentários mais frívolos do dia, três considerações rápidas que parecem apontar para um cenário de curto prazo interessante para a Bolsa:

• A relação Preço sobre Lucro projetado do Ibovespa para os próximos 12 meses está hoje em 9,6 vezes, bem perto de dois desvios-padrão abaixo da média histórica. Ao longo dos últimos dez anos, apenas em três situações viemos abaixo de dois desvios, sendo uma delas agora, quando viemos abaixo de 70 mil pontos. Por mais que possamos criticar vieses nas projeções para os lucros futuros, não podemos menosprezar a dinâmica de reversão à média dos múltiplos.

• Pelo comportamento do fluxo, parece entrar comprador mais forte na faixa de 70 mil pontos. Isso vai criando uma sensação de que não adianta cair muito porque entra gente tomando. Com a sensação de downside controlado (na ausência de fatos novos, claro), o investidor pode começar a voltar para a Bolsa com mais tranquilidade.

• Leilão de linhas de transmissão de energia no fim da semana passada trouxe novas evidências do que já vínhamos apontando aqui: há um descasamento entre os deals privados e os preços das empresas públicas. Existe até uma oportunidade de arbitragem aqui. Enquanto nos leilões a TIR está abaixo de 5%, as das transmissoras em Bolsa aparecem acima de 10%.

Mercados iniciam terça-feira em clima mais positivo, depois de volatilidade na véspera. China acalmou investidores ao firmar compromisso com manutenção de sua moeda próxima aos patamares atuais. Em paralelo, Donald Trump sinalizou confiança na obtenção de acordos comerciais “justos” — seja lá o que isso queira dizer, mas foi um tom mais conciliador.

Commodities e moedas emergentes reagem com alta vigorosa às notícias. Liquidez pode ser reduzida por conta da proximidade do feriado de Independência dos EUA.

Agenda doméstica tem IPC-Fipe, dados da Fenabrave e balança comercial. Nos EUA, saem encomendas à indústria e índice de condições empresariais.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,5%, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.