Qual a próxima bolha a estourar?

Há um claro descompasso entre o momento brasileiro e aquele vivido nas economias centrais, notadamente nos EUA.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Qual a próxima bolha a estourar?

A velhice faz-nos mais rugas no espírito do que na cara. Na era do botox, a frase de Montaigne fica ainda mais verdadeira. O rosto nunca foi grande coisa mesmo. Para a alma, ainda tínhamos alguma esperança. Com o passar do tempo, o espírito vai perdendo a capacidade de se empolgar ou mesmo indignar com as situações que nos são apresentadas.

 

Não consigo empolgar cegamente com um cenário de céu de brigadeiro pintado para mercados emergentes e para o Brasil em particular. Ao mesmo tempo, mesmo sabendo que os pessimistas têm uma áurea de austeros e profundos, também sinto um certo desprezo por aqueles que pretendem fingir-se inteligentes e, sem saber, começam a apontar bolhas por todos os lados.

Muitos sequer entendem o que é blockchain, mas são rápidos no gatilho para apontar a exuberância irracional das criptomoedas (ainda, claro, que não sejam rigorosamente a mesma coisa nem necessariamente guardem correlação estrita).

Outros estão convictos de que a bolha da vez está nos ETFs.

Já os mais simpáticos às ações acham mesmo é o que o problema está no mercado de crédito, com spreads muito baixos. Os financiamentos automotivo e estudantil nos EUA, então, estariam definitivamente condenados.

E, claro, temos ainda o P/E de Shiller negociando em nível atingindo apenas duas outras vezes na história, ambas seguidas de grandes correções.

Diante desses elementos, onde estaria a verdadeira bolha? O que penso sobre isso? Qual deles é real motivo de preocupação?

Ao conversar por ai, inclusive com pessoas muito mais inteligentes do que eu, vejo alguns preocupados com a eleição em 2018. Outros se desesperam, acertadamente, com a trajetória fiscal explosiva das contas públicas brasileiras.

Talvez pela benção da ignorância, eu não me avexo com essas duas coisas, não. Entendo que a eleição pode, sim, gerar volatilidade, sustos, soluços e sobressaltos. Mas parece haver uma escolha, possivelmente até tácita, em prol da agenda mais liberal. Além disso, é um caminho inexorável, porque o Estado simplesmente não tem mais condição de fazer nada, o que obviamente se liga ao segundo ponto. O buraco fiscal é mesmo um problemaço, aparentemente insolúvel. Mas acerta daqui, aprova dali, vai, volta, retoma o crescimento. Aos poucos, aos 45 minutos do segundo tempo e com a complacência macunaímica de sempre, a gente vai acertando. No horizonte tangível, não seremos, claro, o Chile, mas ofereceremos ao mercado um plano de vôo crível, que faça a dívida pública convergir no começo para o meio da década de 2020.

O que me preocupa mesmo é lá fora – e aqui “lá fora” é empregado como referência a um cenário global. Primeiro porque, ao tentar conciliar o contexto lá fora com o observado internamente, sou remetido mentalmente àquilo que historicamente se chamou de “crise de realização dinâmica” para a economia brasileira. Há um claro descompasso entre o momento brasileiro e aquele vivido nas economias centrais, notadamente nos EUA. Enquanto observamos um “early cycle” (estágio inicial do ciclo e importante inflexão da atividade) por aqui, vemos um “late cycle” (mais perto do fim de ciclo) nas economias desenvolvidas – foram anos e anos de injeção de muita liquidez no sistema, estímulos ao crescimento e empurrão deliberado à tomada de riscos, visando o efeito riqueza a partir da reflação dos ativos financeiros.

Ainda mais importante é o fato de que, se houver uma bolha, ela não existe em apenas um lugar. Não é uma exuberância irracional com ETFs, corporate bonds, crédito automotivo, FAANG, bitcoins, setor imobiliário. É com tudo! Vivemos uma generalizada complacência na avaliação dos cenários adversos.

A relação Preço sobre Lucro de 10 anos da Bolsa norte-americana supera 30x. Os preços de moradias sobem vertiginosamente pelo mundo todo; apenas para dar alguns exemplo, o Real Residential Price Index do Canará passou de 36,3 pontos em 2010 para 413,9 pontos em 2016, o Stockholm County Price Index saoltou de 731 pontos para 1.050 pontos no mesmo intervalo, o S&P Case Shiller CA-San Francisco Home Price Index saiu de 139 para 234 e o Sydney Residential Property Price Index saiu de 98,9 para 167,6 pontos.

No mercado de criptomoedas, a coisa é quase anedótica, ultrapassando a marca de 1 mil moedas digitais já registradas (segundo o Marketwatch, estamos precisamente em 1.072), sendo que a capitalização total do bitcoin monta a 65 bilhões de dólares, contra apenas 1,4 bilhão em 2013.

Entre as ações norte-americanas, a crença de uma tecnologia disruptiva e definitiva se espalha, com boa parte dos ganhos do S&P 500 no ano se devendo exclusivamente ao grupo Facebook, Apple, Amazon, Netfilix e Google, cuja alta consolidada monta a mais de 30% em 2017. Em paralelo, a Tesla já é hoje a quarta maior montadora do mundo em valor de mercado, num estratosférico valuation de 763 mil dólares por veículo vendido em 2016 – nesse múltiplo, a segunda montadora mais valorizada é a Toyota, na longínqua relação de 16 mil dólares por veículo vendido.

Poderíamos estender a lista ad nauseam. A potencial bolha está em toda a parte. Ela foi construída por anos e anos de expansão dos balanços dos bancos centrais, que colocaram dinheiro no sistema aos gritos de “tomem mais risco”.

À brutal liquidez global, se somou uma recuperação das economias desenvolvidas, com PMIs e lucros corporativos sucessivamente crescendo acima das estimativas. Mesmo a China, que pareciam conviver em 2016 com problemas estruturais insolúveis, conseguir arrumar a casa – talvez seja apenas uma maquiagem momentânea, mas, por ora, as coisas melhoraram por lá.

Ainda mais surpreendente, é que tudo isso acontece sem que a inflação venha. Há tentativas variadas de se explicar o fenômeno, mas a verdade é que ninguém ainda sabe direito as razões para essa inflação tão baixa e por tanto tempo. Perda de poder dos sindicatos, tecnologia, mudanças demográficas, desalavancagem das famílias/empresas, entrada da China e da Índia com mais força no comércio global… essas são algumas tentativas de fundamentação. No fundo, porém, ninguém sabe.

O fato é que talvez o cenário mundial nunca tenha reunido essas condições ou, se o fez, foi em situações muito particulares e de curta duração. A foto atual dá, sim, os elementos para os valuations correntes. O ponto é: até quando ele vai durar?

A questão se é bolha ou não é bolha, se vai explodir ou não, nem é tanto uma avaliação quantitativa. O ponto nevrálgico, pra mim, é que se você acredita que a tríade bom crescimento, baixa inflação e elevada liquidez vai continuar por um tempo, o céu é o limite. Já se você identifica os termos correntes como apenas uma foto da realidade momentânea, então está tudo caro mesmo e prestes a explodir.

Olhando as informações disponíveis, parece mesmo ter havido uma quebra estrutural e que as condições estão postas para a continuidade do momento positivo. Desta vez, seria diferente. É o que os dados e a dinâmica parecem sugerir.

Há só um problema nesse raciocínio: em todas as situações da história em que acreditamos que desta vez era diferente, acabamos errados. No final do dia, as pessoas e o mundo acabam se mostrando iguaizinhos eles sempre foram.

Mercados brasileiros abrem a quarta-feira ponderando forças antagônicas. Juros futuros sobem ainda reverberando comentários de Janet Yellen na véspera – dólar avança no mundo e empurra yields para cima.

Dia não tem agenda tão cheia na esfera macro, mas oferece leilão de usinas hidrelétricas operadas pela Cemig e 14a rodada de leilão de petróleo sob regime de concessão, com expectativa de arrecadação de 500 milhões de reais.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Na Bolsa, há um pouco mais de otimismo, com mercado aguardando plano de Donald Trump para redução de impostos e lucros empresariais subindo com força na China. Na esfera corporativa, destaque para IPO da Camil, com preço abaixo do piso da faixa indicativa, e para possibilidade de aumento de dividendos do Itaú. Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3%.

Completando a agenda, IPC-Fipe mostrou ligeira deflação em prévia mensal e Banco Central solta fluxo cambial semanal. Nos EUA, temos pedidos de bens duráveis e falas de dirigentes do Fed.

Conteúdo recomendado