Um salto de fé

Uns dizem que a Bolsa brasileira está cara enquanto outros falam o contrário. Mas, falando a real, eu penso que a resposta para três questões define o prognóstico para o comportamento das ações no Brasil.

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Um salto de fé

“Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se.”
Soren Kierkegaard

Uns dizem que a Bolsa brasileira está cara. Já seria a hora de diminuir as posições e realizar lucros diante da escalada recente. Olhando individualmente, nada estaria mais óbvio em termos de preços e isso exigiria mais conservadorismo.

Outros falam o contrário. A Bolsa brasileira estaria bastante barata, se contemplássemos as perspectivas de crescimento à frente e o baixo custo de oportunidade do capital diante de uma taxa Selic na casa de 6% por alguma coisa em torno de 18 meses. Esses, claro, defendem um aumento de exposição à renda variável.

Há uma tentativa formal de se capturar nível de preços atual e crescimento dos lucros corporativos, sintetizada no chamado PEG ratio, que combina a relação Preço sobre Lucro (em inglês, Price/Earnings) com a taxa de crescimento (G, de growth). É só você pegar o Preço sobre Lucro e dividir pelo crescimento, chegando assim ao tal PEG ratio.

Hoje, a Bolsa brasileira negocia a cerca de 13,5 vezes seus lucros projetados para os próximos 12 meses. Isso está acima de sua média histórica, em torno de 11,5 vezes, mas ainda é inferior à média da América Latina e dos Brics.

Em paralelo, o crescimento projetado dos lucros por aqui é da ordem de 16%, inferior apenas àquele estimado para o México, de 17%, entre os países dessa amostra.

Isso nos confere um PEG ratio de 0,863, que não parece indicar exatamente uma Bolsa local propriamente cara.

A tabela a seguir resume os dados. Na ordem das colunas, EPS growth (crescimento dos lucros), PE 12 M FWD (Preço sobre lucro projetado para os próximos 12 meses), DY (Dividend Yield) e PEG.

Mas, falando a real, sabe o que eu penso de tudo isso?

Os números são irrelevantes. Sempre tive para mim que valuation (se a Bolsa está cara ou barata) é um driver menor para o preço dos ativos do que sugere a interpretação de consenso. Os aspectos qualitativos importam muito mais do que esse ou aquele múltiplo.

Penso que a resposta para três questões define o prognóstico para o comportamento das ações no Brasil. São elas:

i. Quem será o presidente eleito em outubro?
ii. A inflação global, em especial nos EUA, vai aparecer com mais força em algum momento de 2018 a ponto de forçar um aperto monetário mais intenso e sacrificar a liquidez internacional abundante?
iii. Aparecerá algum cisne negro capaz de interromper o bull market, depois de anos e anos de baixa volatilidade, estímulo à alavancagem e incentivo à tomada de risco?

Se você tem respostas construtivas para as respostas acima, então a hora é de comprar Bolsa. Ela está bastante barata se formos eleger um presidente reformista e amigável com o mercado, se os juros continuarem baixos lá fora e se formos manter o cenário de crescimento global sincronizado, inflação comprimida e alta liquidez.

Não se trata de uma questão financeira, portanto, de dominar técnicas de apreçamento dos ativos. Estará em vantagem aquele que souber endereçar mais adequadamente as dúvidas acima e/ou montar estratégias de retornos assimétricos para cada uma das ramificações possíveis sugeridas pela tríade de perguntas supracitada.

Esse é o momento em que os analistas abandonam seus livros do MBA e suas técnicas de valuation para dar um salto de fé. “A leap of faith”, conforme propõe Soren Kierkegaard.

Na proposta original do filósofo, sugere-se abandonar o estado ético para migrar em direção ao estado religioso da existência. Esse redirecionamento em prol do estado religioso seria um salto no escuro (“leap of faith”), pois não traria garantia alguma ao indivíduo do ponto de vista racional estrito. Aqueles que atingirem o estado religioso sofrerão com a perseguição, a incompreensão e o apartamento da sociedade. Em contrapartida, estarão em contato direto com o Absoluto (comprometimento com Deus).

Nas atuais cotações de Bolsa, devemos dar um salto das planilhas para a realidade qualitativa. Defender o investimento em ações mesmo depois de tamanha alta e com papéis que individualmente não parecem baratos trará a repreensão e a desconfiança alheia. Esse leap of faith, porém, em que abandonamos as questões mundanas mais imediatas e tentamos enxergar lá na frente, pode render lucros para toda a eternidade. Eu acredito.

“Acima de tudo, não perca seu desejo de prosseguir.” Isso também é Kierkegaard.

Mercados iniciam a terça-feira atentos para comportamento da inflação ao consumidor norte-americano. CPI acaba de ser divulgado nos EUA, apontando variação de 0,2%, em linha com as projeções. Indicador foi bem recebido e afastou mais um pouco a hipótese de surpresa com uma eventual agressividade excessiva do Fed em subir o juro básico por lá.

Há certa expectativa por dados da indústria e do varejo na China, a ser anunciados à noite.

Por aqui, vendas ao varejo cresceram 0,9% em janeiro, acima das projeções de 0,5.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,47%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros mais longos recuam com maior tranquilidade externa.

P.S.: Se você gostaria de dar um salto de fé e buscar lucros que valem para toda a eternidade, sugiro fortemente conhecer As Melhores Ações da Bolsa – temos uma relação quase religiosa com elas.