Ainda somos os mesmos

Em nenhum momento tergiversamos sobre o que é nosso propósito: levar às pessoas físicas as melhores estratégias de investimento possíveis, antes restritas ao investidor profissional ou multimilionário.

Compartilhe:
Ainda somos os mesmos

“Tenho ouvido muitos discos
Conversado com pessoas
Caminhado meu caminho
Papo, som, dentro da noite
E não tenho um amigo sequer
Que ainda acredite nisso não
Tudo muda!
E com toda razão”
Belchior

Se Messi e Cristiano Ronaldo nunca ganharam uma Copa do Mundo, problema da Copa do Mundo, sabe?

Se a B3 dispõe de 600 mil CPFs cadastrados no segmento Bovespa e 120 mil cotistas de fundos imobiliários, enquanto há mais de 1 milhão de pessoas no país detentoras de criptomoedas, não é um problema da B3; é um problema das pessoas físicas. A Bolsa continuará, ao menos no horizonte tangível, deitada no berço esplêndido do monopólio; os investidores individuais é que precisam se matar na concorrência por uma melhor alocação de seus recursos.

Há exatamente um ano, a Empiricus se mudou para o Pátio Malzoni. Escrevi aqui: “Mudamos para continuarmos os mesmos”. Era uma declaração do reconhecimento da responsabilidade que carregávamos diante do simbolismo do novo escritório.

O exército do tenente Aldo Raine ainda não tinha ganhado a guerra, mas certamente conquistava uma batalha. De uma garagem na Sarita Cyrillo para o prédio do Google, com o Pactual (no contexto da metáfora, fica melhor do que BTG) de vizinho.

Poderia ser motivo de orgulho para alguns. Pra mim, até hoje, desperta certo constrangimento, como se quisesse passar uma imagem diferente do que sou realmente.

No texto escrito há um ano, assumia pessoalmente o tamanho da responsabilidade por estar à frente das estratégias de investimento de uma empresa com essa abrangência e o impacto que ela tem nas vidas das pessoas, obedecendo com todo rigor ao significado que isso tem.

Eu sempre soube que, a partir do momento em que fôssemos percebidos como minimamente grandes, como alguém realmente capaz de perturbar interesses estabelecidos, perderíamos alguns graus de liberdade. Alguns comportamentos teriam de ser calibrados. E eu mesmo prometi essa institucionalização. Jamais, porém, abriríamos mão da nossa essência.

Desde então, a Empiricus cresceu mais um pouquinho. Estamos bem perto de 200 mil assinantes, o que sempre foi uma marca desejada. Nossa holding emprega 300 pessoas e, diante das novidades no pipeline, em breve nos consolidaremos como um dos principais grupos de comunicação do país.

E, conforme previsto, à medida que avançamos, tivemos de enfrentar a resistência do mecanismo estabelecido. Os bancos continuaram falando mal da gente, a imprensa seguiu sendo a imprensa e as entidades privadas de regulação permaneceram tentando exercer seu poder de polícia de modo a obedecer ao interesse de seus patrões privados – como não poderia deixar de ser.

Em nenhum momento, porém, tergiversamos sobre o que é nosso propósito: levar às pessoas físicas as melhores estratégias de investimento possíveis, antes restritas ao investidor profissional ou multimilionário. Tudo sob a ausência de conflito de interesses.

Aumentamos e melhoramos a equipe de pesquisadores de finanças e investimentos, investimos em processos e tecnologia, ampliamos nossa interlocução com agentes de mercado (com aqueles que realmente interessam).

Seguimos fiéis à diligência de sempre, à filosofia de investimentos de sempre, o rigor ético de sempre, a linguagem enfática de sempre e os problemas de sempre também.

O que ninguém entendeu até hoje sobre a comunicação com o varejo?

Se você quer conversar com as pessoas físicas, precisa entender que, por incrível que pareça, está conversando com pessoas. Não adianta adotar uma linguagem institucional para falar com o varejo.

Aqui, precisamos separar o que é positivo do que é normativo. Não se trata de como as coisas deveriam ser (normativo), mas de como elas são (positivo). Querem tratar de investimentos da forma com que as coisas deveriam ser, como se os seres humanos não fossem guiados por medo e ganância.

Em vez de assumir que, desde o fim do Paleolítico, o homem é guiado por medo e ganância e mudar a comunicação de modo a contemplar essa característica essencialmente humana, explorando esses atributos em prol do próprio investidor, preferem tentar mudar o homem, retirar-lhe dois de seus sentimentos mais viscerais.

As pessoas não são o que elas deveriam ser. Elas são o que elas são. A imprensa, a B3, a CVM, a Apimec, a Anbima conversam com o homo economicus, que – vamos reconhecer – é imbatível para fazer cálculos de maximização intertemporal. Infelizmente, ele só existe nos livros-texto de economia.

Não é ele que está com seu portfólio todo na poupança ou nos fundos DI de taxa de 4% ao ano no banco (juro que ainda tem gente pagando 3% num fundo que compra, exclusivamente, ações de Vale e Petrobras! Isso é moderado e comedido, sério?). Também não é o homo economicus que carrega um naco enorme do seu patrimônio em bitcoins ou está, neste momento, cadastrado num curso de análise gráfica para fazer no próximo fim de semana e sair negociando ações feito louco.

Quem está com esse tipo de problema são pessoas reais. Gente que tem medo de não ter patrimônio suficiente para ter uma vida melhor no futuro. E gente que se atrai por ganhar dinheiro de verdade.

E é com essas pessoas que tenho conversado. Nessas interações, percebo a recorrência de certo tipo de comportamento, com erros comuns sendo repetidos de maneira meio padronizada. Divido cinco deles abaixo:

1. A tentativa de fazer o golaço

Olhe para as estatísticas: 1 milhão de compradores de bitcoins, 600 mil pessoas com ações, 120 mil pessoas com fundos imobiliários. Não precisa ser gênio para perceber que isso não está certo, né?

Se você quer comprar bitcoin, ok. Tenho zero problema com isso. Eu mesmo tenho seis. A questão é dimensionar adequadamente o tamanho da sua aposta – e sim, aposta é o termo preciso para descrever as criptomoedas, não investimento.

Nada contra apostas também. Só entenda: você pode, com probabilidade não desprezível, perder tudo que comprou ao apostar nisso. Com essa mentalidade, siga em frente.

O número grande de pessoas com moedas digitais é fruto dessa característica humana de querer ganhar muito e de forma rápida. Esse é uma boa estratégia para o fracasso financeiro.

Vários estudos comprovam que os verdadeiros ganhadores de longo prazo não são aqueles que ficam no quarto quartil dos retornos anuais. Quem ganha demais num ano provavelmente perde no outro. Os reais vencedores de longos períodos são aqueles que, com frequência, aparecem no terceiro quartil.

Só como referência: dos 563 fundos de ações dos EUA que estiveram no quartil superior em setembro de 2015, apenas 6,39% se mantiveram lá até setembro de 2017. Num período de cinco anos, isso cai para menos de 1%.

Malandro que é malandro demais se atrapalha. Não precisa negar a ganância que existe dentro de você – ela existe e ponto final. Pode até ser bom para fazê-lo melhor e mais rico a cada dia, mas precisa estar na medida certa. A ganância é caracterizada pela vontade de possuir tudo que se admira para si próprio. Entenda, portanto, que, para obter isso, você precisará muito mais do que retornos de curto prazo – isso vai matá-lo, em vez de enriquecê-lo. Troque a ansiedade por consistência e os juros compostos farão o milagre.

2. Pouca diversificação

Entre os erros mais comuns dos investidores pessoas físicas é o excesso de concentração. Isso acontece tanto entre classes de ativos como dentro de segmentos específicos.

O sujeito ouve falar de uma ação quente para comprar e aloca 30% de sua liquidez naquilo.

Se é para ter menos de cinco ações em carteira, prefira BOVA11.

Do ponto de vista mais geral, certifique-se, necessariamente, de que seu portfólio possui ao menos quatro classes de ativos: renda fixa, ações de empresas sólidas, imóveis/fundos imobiliários e moeda forte. Somente depois disso pense em small caps, criptomoedas e opções.

3. Muito imóvel e da forma errada

Tem aquele papo clichê de que brasileiro adora imóvel. Fruto da herança inflacionária e da sequência de crises. “Um ladrão pode te levar tudo, mas jamais poderá sair com a sua terra ou a sua casa na bolsa.”

Beleza, não precisamos lutar contra isso. Mas algumas pessoas mantêm, sei lá, 85% do seu patrimônio em imóveis e ficam absolutamente obcecadas quando a Bolsa cai 1%. Não faz nenhum sentido. Tudo que realmente interessa pra riqueza do sujeito pertence ao escopo imobiliário e ele está obstinado com a pequena marcação a mercado da renda variável. Um por cento sobre 15% dos recursos é praticamente nada.

Em reforço, muitas dessas mesmas pessoas que amam apaixonadamente os imóveis (nada contra, cada um com suas paixões) não investem em fundos imobiliários, que oferecem vantagens claras sobre os imóveis físicos, como gestão profissional, diversificação, mais liquidez e menos encheção de saco (nada pior do que estar lendo um livro e tocar o telefone avisando que estourou um cano no seu apartamento alugado na Vila Mariana).

4. Muito pós-fixado

“Tesouro Direto é uma boa?”

Ouço essa pergunta toda hora. Não sei nem por onde começar a responder. É como se perguntassem “comprar camiseta é uma boa?”

Tem coisa boa e coisa ruim no Tesouro Direto. Depende do momento da economia também e do próprio perfil de risco e horizonte temporal do investidor.

De maneira geral, vejo uma concentração excessiva em fundos DI e até na poupança ainda, por incrível que pareça. Sem falar na herança da mamata das LCIs e LCAs.

Agora, com o fim do paraíso do CDI, uma forma simples de o investidor ir tateando investimentos mais arriscados é comprar uma parte maior de seu portfólio em papéis indexados e prefixados. Com coisas por ai pagando 12% ao ano e de risco controlado, o sujeito pode e deve aproveitar.

5. Viés local

As pessoas um pouco mais sofisticadas entendem a importância da diversificação. Adoram repetir: “Não colocam todos os ovos na mesma cesta.” Eu acho ótimo, de verdade.

Mas daí você pergunta quanto ela tem aplicado em dólar ou em qualquer moeda forte e ela diz: “Ah, em dólar eu não tenho nada, não”.

Ora, se você entende a importância de ter uma alocação diversificada entre várias classes de ativos, não parece óbvio também que não pode ficar concentrado numa única moeda?

Eu sinceramente não acho que a função primeira da Empiricus seja acertar a maior alta da Bolsa neste ano ou em qualquer outra. Por mais que ninguém admita, isso é muito mais fruto da sorte do que da competência. Quem acerta o bumbum da mosca é o mosco.

Se pudermos aqui desviá-lo dos caminhos errados descritos acima, teremos cumprido um grande papel. Por isso, hoje conferimos 30 dias de acesso totalmente gratuito de uma assinatura muito especial aqui na Empiricus. Espero que você aproveite, sem nenhum ônus.

Mercados iniciam a segunda-feira sob aversão ao risco elevada, ainda preocupados com guerra comercial. Após ofensiva sobre a China, Donald Trump disparou uma sequência de tuítes vorazes contra a Europa, que promete revidar. Em paralelo dados da indústria chinesa apontaram desaceleração, trazendo certa pressão sobre as commodities.

Por aqui, destaque para negativa a mais um pedido de liberdade do presidente Lula na noite de sexta-feira, relatório Focus e IPC-S.

Ibovespa Futuro registra baixa de 0,7%, juros futuros avançam e dólar sobe contra o real, acompanhando mau humor externo.