Precisamos falar sobre a Amazon – e um pouco sobre Sanepar

A Amazon não é uma empresa. É uma forma de ver o mundo.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Precisamos falar sobre a Amazon – e um pouco sobre Sanepar

Tem razão. Precisamos falar sobre a Amazon. Se essa newsletter chama Day One em homenagem a Jeff Bezos e a sua obstinação por manter o espírito de start up 20 anos depois, não há como ignorar a entrada da empresa no marketplace de eletrônicos no Brasil.

Bom, já deve ser óbvio: sou encantado pela Amazon e por Bezos em particular. Sou um sujeito de pessoas, não de coisas, processos, modelos e business plans. Eu realmente me apaixono por gente especial, aqueles homens e mulheres que ficam na cauda da distribuição, como um evento raro. Bezos é certamente um deles. Superdotado, obstinado, obsessivo, visionário, avassalador.

Acho que esse arquétipo precisa estar claro quando se procura analisar o que pode representar os impactos da expansão da Amazon para além dos livros no Brasil. Pra mim, ele é o maior empresário vivo e coloco os adjetivos acima não simplesmente para tentar descrever uma figura em particular – embora isso já fosse interessante em si; mas também porque suas características pessoais moldaram a Amazon.

A obstinação pelo cliente, uma experiência do usuário sem precedentes, a prática de preços baixos, o ímpeto para destruir concorrentes se necessário (por vezes até de forma considerada inescrupulosa) e a teimosia quanto à vocação para ser a mais plural e a melhor loja do mundo não caracterizam apenas a cabeça de Jeff Bezos. Elas formam uma instituição, que atende pelo nome Amazon.

Em Bezos, há paixão, aqui empregada no sentido etimológico de pathos, com a ambivalência que a palavra carregava. Paixão, pra mim, é o que nos afeta, motiva a alma, faz-nos viver intensamente uma coisa. Isso é lindo. Traz consigo também uma certa obsessão, uma espécie de vício que nos faz ir além da condição humana estrita, ditada pelo emprego da racionalidade econômica.

Com todo respeito, executivos recém-saídos do MBA, sem qualquer vocação (no sentido de serem chamados a uma missão), não têm a menor condição de concorrer com um sujeito desse.

É com a ambivalência típica desta newsletter que interpreto a chegada da Amazon em eletrônicos no Brasil, uma mistura de admiração e perplexidade, talvez até um pouco de medo, sobre a transformação que isso pode ensejar no varejo brasileiro – e falo para além do escopo estrito do e-commerce; ao longo do tempo, se ele avançar para supermercados, por exemplo, pode mudar por completo o hábito de compras, assim como está já fazendo nos EUA a partir de seu mais recente movimento.

Ele vai catalogando suas compras, usando AI, big data e o escambau e depois lhe envia uma cesta sugerida de novas aquisições, pois o detergente comprado há duas semanas há deve ter acabado, talvez até mesmo o shampoo, que pode ser efetivada a partir do mero click em seu telefone celular, após o aparecimento de um push em sua tela. Tudo entregue em casa no mesmo dia, sem frente para os membros do Prime.

Uma vez, conversei com um membro do conselho de Lojas Americanas. Era um papo sobre o outro assunto, mas aproveitei a deixa: “o que você pode me falar de LAME e B2W?”

Ele respondeu imediata e assertivamente sobre Lojas Americanas. Algo mais ou menos assim:

“Este é um negócio que a gente sabe fazer muito bem, e há muito tempo. É sólido, com boa capacidade de previsão no âmbito da loja, redondo. Operação na mão. O resultado acaba sendo muito sensível à abertura de lojas, que têm um ROIC e um payback muito bom. Como agora temos um plano de expansão bem ambicioso para abertura de lojas, e o macro parece permitir isso, deve andar muito bem.”

Ele tinha parado ai. Esqueceu-se ou quis esquecer de B2W. Na dúvida, fingindo de morto, emendei:

“E B2W?”

Após uma pausa de quatro segundos para uma respirada profunda (conte até quatro, me ensinou a Olga Curado):

“Tem melhorado muito com a mudança para o 3P. Deve parar de queimar caixa e isso deixa mais animado. Mas ainda é um negócio que precisa se provar.”

Isso era antes da Amazon. Agora, imagina ter de se provar diante do Bezos…Eu não consigo me provar nem para mim mesmo…

Em que pese a melhora recente, vamos ser sinceros. As empresas brasileiras não sabem fazer e-commerce ou aprenderam há muito pouco tempo. Mesmo Magazine Luiza, que é ótimo, ok… mas azeitou sua operação faz o quê? 24 meses, no máximo?

Na internet, você pesquisa preço em dez segundos. Esse, junto ao UX, é o grande diferencial. Ter de se provar diante de um cara mais capitalizado, com melhor experiência do usuário, mais inteligência artificial, mais dados, gigantesco e maior cobertura de produtos não deve ser uma das coisas mais fáceis do mundo.

Isso é um negócio de winner takes all (o vencedor leva tudo) e aquele capaz de oferecer o preço mais baixo está em clara vantagem.

Em defesa dos atuais players, talvez alguns vão dizer que a logística é um problema. “Nego morre no Brasil pela dificuldade de distribuição. Quero ver entregar no Nordeste.”

De fato, o canal de distribuição é um problema aqui, sendo um dos grandes diferenciais competitivos e uma importante barreira à entrada. Mas não parece ser um grande entrave à Amazon. Se precisar, ele compra uma empresa de logística. E se não for suficiente? Ela compra outra. A briga é desproporcional, contra um sujeito maior e melhor do que você.

Outros vão rebater dizendo que a queda das ações do setor é exagerado. Como arriscou uma matéria da imprensa “especializada”: “Todo mundo está sujeito a essa oscilação, mas vai ser um movimento exagerado, porque o resultado não vai se depreciar na mesma velocidade com que o mercado vai depreciar o valor das empresas.”

O argumento é falacioso. Por definição, uma ação não cai na mesma velocidade com que se deterioram os resultados de uma empresa. O preço da ação hoje é um reflexo das estimativas de fluxo de caixa de hoje até o infinito, trazidas a valor presente por uma taxa de desconto apropriada. Ou seja, o resultado pode não de deteriorar em nada hoje e, mesmo assim, o valor intrínseco da companhia cair por conta da expectativa de uma piora dos resultados no futuro.

Imagine uma empresa que tem uma concessão de 30 anos. Se o governo, subitamente, resolve rasgar o contrato e derrubar a concessão para 15 anos, o resultado de hoje da companhia se mantém rigorosamente o mesmo, mas o preço da ação obviamente vai cair. Isso é bastante trivial, aliás. O mercado antecipa os movimentos, não espera o resultado se depreciar ou melhorar para incorporá-lo paulatinamente ao preço das ações.

Com raras exceções, e-commerce no Brasil ao longo da história perdeu dinheiro. Talvez a expansão da Amazon aqui não seja tão rápida e vigorosa quanto no México, onde a adoção de um modelo híbrido 1P/3P e as facilidades por conta da Nafta permitiram um impacto quase imediato na estrutura local. Mas certamente pode mudar o jogo no médio e longo prazo. Se antes tínhamos ressalvas com o segmento no Brasil, elas aumentaram agora. A Amazon não é uma empresa. É uma forma de ver o mundo.

Antes de partir para as frivolidades do dia, destino algumas linhas a Sanepar. Primeira coisa que preciso deixar claro: tenho ações da empresa na física. Isso enviesa a análise, por mais que eu não queira. A parcialidade ocorre para o bem e para o mal. O fato de eu ser acionista traz a indicação positiva de que realmente acredito naquilo. Skin in the game. Por outro lado, faz com que eu tenha interesses particulares no desenrolar dos fatos, por mais que seus efeitos sejam quase imateriais diante do patrimônio consolidado.

Segunda coisa importante: o Estado do Paraná tem sistematicamente roubado (desculpe, mas não há outro verbo) os acionistas minoritários, seja em Copel ou em Sanepar, ao longo do tempo, sem que nada prático seja feito.

Diante do fato e do escândalo que isso representa, gostaria de publicamente aqui me engajar na construtiva cruzada que a XP Gestão, liderada na renda variável pelo competente João Braga, tem impetrado para impor uma agenda positiva de governança corporativa com a empresa.

Resumidamente, para quem não acompanha de perto o case, o controlador pretende fazer uma oferta de ações, mas para isso precisa que os minoritários convertam suas ações preferenciais para units. Os termos propostos ferem frontalmente o interesse dos minoritários, inclusive com alguns temas que haviam sido previamente acordados.

Da forma como proposto, a adesão à conversão para units será mínima, de tal sorte que o controlador não conseguirá fazer a oferta, precisando melhorar a governança da empresa.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Em um tempo em que o ativismo parece fora de moda, o esforço da XP Gestão merece elogios. Fica aqui o registro e o apelo de que, ainda que seja a primeira e única vez, haja algum alinhamento do controlador com o minoritário.

Mercados iniciam a terça-feira demonstrando alguma cautela. Coreia do Norte volta a preocupar depois de afirmar que uma guerra nuclear pode irromper a qualquer momento. Em paralelo, cresce a expectativa por uma política monetária potencialmente mais restritiva nos EUA, após John Taylor, considerado um falcão (disposto a mais elevações do juro), ser entrevistado por Donald Trump e gerar uma boa impressão.

Para reforçar, Congresso do PC chinês começa nesta noite e, depois de gerar otimismo na véspera, causa certa apreensão, afetando moedas e commodities nesta terça.

Agenda econômica é relativamente fraca. Internamente, reserva apenas pesquisa mensal de serviços do IBGE. Nos EUA, temos produção industrial e confiança das construtoras.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,1%, dólar sobe ligeiramente contra o real.

Conteúdo recomendado