A ameaça coreana preocupa?

Novas ameaças da Coreia do Norte aos EUA deixam clima um pouco mais sombrio no exterior. Como proteger seus investimentos de um possível conflito?

A ameaça coreana preocupa?

As coisas geralmente não acontecem na velocidade com que gostaríamos. A verdade, porém, ainda é filha do tempo. Eu mesmo seria hipócrita se dissesse que não me incomodo com o tempo com que algumas situações demoram para se revelar e transitar do mundo das ideias para a realidade objetiva. Cedo ou tarde, entretanto, lá está a verdade se revelando inexorável mais uma vez.

Fazer pesquisa independente é legal. Exige, contudo, estar preparado para acumular inimigos. Se você leva aquilo como sua vocação – e, pra mim, não há outra escolha -, é sua obrigação falar apenas e tudo que você pensa. Obviamente, algumas das suas opiniões vão se voltar contra o mensageiro. Se alguém incomoda o sistema, ele reage de imediato.

No começo, você se constrange, fica preocupado. Aos poucos, conforme aquilo vai se tornando corriqueiro, as costas se alargam e aprende-se a apanhar. Os convites para se entrar na fila de inimigos passam ser emitidos a custo zero. Eu meço um bom research pelo número de inimigos que ele tem. Se você faz pesquisa independente e não tem muitos antagonistas, provavelmente não está fazendo seu trabalho direito ou é irrelevante.

Lembro daquela frase do Phil Knight de que cada sujeito, e imagino valer para cada empresa também, carrega um alvo em suas costas. À medida que o sujeito cresce e se desenvolve, o alvo vai aumentando também. Não é a constatação de um homem, é uma lei da natureza.

Tenho a sensação de que a dificuldade com conviver com crítica seja um pouco pior no Brasil. Não sei se é a falta de costume com research independente ou uma herança católico que nos constrange a dizer para o outro alguma coisa negativa sem que isso se torne pessoal.

Mas aqui é assim: se você fala mal de um produto bancário claramente ruim, em vez de o banco melhorar aquilo, ele cria grupo de trabalho contra você (é verdade mesmo!); se critica uma operação societária, a área de relações com investidores da companhia para de lhe atender; se questiona um fundo de uma instituição financeira, ela lhe expulsa do private banking.

Dou de ombros.

Mentira. Preferiria que não fosse assim. Ainda me incomodo com a instabilidade emocional do sistema.

Seja como for, ainda não consigo furtar-me ao chamamento. Lá vamos nós adicionar mais um nome à lista. Acima de constrangimentos pessoais estão meus leitores. E é pelo investidor – por mais ninguém – que seguimos acumulando controvérsias.

Há alguns meses, escrevi sobre a potencial manipulação envolvendo as ações de Eletropaulo. Demorou um pouco para as coisas serem elucidadas, mas aqui estamos nós.

O fundo GWI foi stopado em seu termo com ações da empresa na última quinta-feira. O modelo CORE do novo manual da Bolsa criou um novo parâmetro para chamadas de margem, ligado a liquidez – anteriormente, o critério era apenas o percentual do free float. A partir dele, o fundo foi obrigado a vender cerca de 1 milhão de ações e, pelo que se diz por ai, ainda tem lote pra vender.

Ok, ok, pregamos no deserto durante um tempo – procurem pelo texto em referência ao Paralelo 38o, que separa as Coreias, em referência direta ao gestor do fundo GWI. Ninguém deu ouvidos à época. Eis o que aconteceu com as cotas dos fundos da gestora em 21 de setembro: GWI Classic FI Ações caiu 29,38% GWI High Value FI Ações perdeu 40,38%, GWI Leverage Ações cedeu 33,13%. Por ai vai…

As pessoas não aprendem. Não é a primeira vez que a gestora passa por situação semelhante. Ele quebrou na crise de 2008, sofreu com Marfrig, Profarma, Lojas Americanas, Saraiva e agora Eletropaulo. Pode pedir música no Fantástico, quase em dobro. Sempre com a mesma estratégia: concentração extrema numa única ação, que é usada como garantia para fazer o máximo que dá em termo (alavancagem). Dai se puxa o papel enquanto consegue, com direito a compras ao final do dia para marcar pra cima. Isso é feito sistematicamente. E o pior: boa parte do mercado sabe.

Não escrevo essas coisas como objetivo estrito de apontar o recuo das cotas do tal fundo. Não se trata de um alerta para o caso particular de o investidor se manter de fora dos fundos da tal gestora – embora possa ser também. Mas não acho que, se fosse apenas um caso específico, merecia essa relevância toda.

Tenho na cabeça um exercício indutivo, em que podemos passar do particular para o geral. O caso ilustra armadilhas importantes contra as quais precisamos estar alertas.

Primeiramente, precisamos estar cientes de que as ações de Eletropaulo, ao menos momentaneamente, estão sujeitas a fluxo especulativo, totalmente descoladas de seus fundamentos. Não dá para pensar em comprar esse negócio agora. No entanto, pode abrir uma grande oportunidade à frente, depois de liquidado o lote. Foi assim no passado com Lojas Americanas e mais recentemente com Profarma. No desespero diante da chamada de margem, ele é obrigado a desovar no mercado. Destrói-se a ação, que vai negociar na bacia das almas.

Além disso, talvez o ponto principal sejam os problemas ligados a alavancagem, concentração, termo, venda a descoberto ou qualquer coisa parecida. Essas são, verdadeiramente, palavras proibidas na Empiricus – talvez achem a falta de espaço para diálogo sobre esses elementos uma postura pouco democrática da minha parte aqui dentro; mas fato é que essência, filosofia e valores não se negociam, sem espaço para tergiversar.

A tentação é grande para concentrar e alavancar, principalmente no bull market, quando parece haver ganhos fáceis na mesa, mas o jogo sempre, ou quase sempre, acaba mal.

Por fim, mas não menos importante, por favor, conheça seu gestor. Antes de decidir investir um real num fundo, mesmo que ele venha de uma sequência recente muito positiva, faça uma pesquisa mínima sobre a trajetória profissional do sujeito que vai tocar seu dinheiro. Para o caso em particular, 30 segundos no Google livrariam os cotistas de um prejuízo de 30% num único dia – média invejável de 1% por segundo! Se você gosta de fundos de investimento, ao menos passa os olhos no brilhante trabalho realizado pela Luciana Seabra para recomendar os melhores disponíveis.

Não quero dizer com isso, obviamente, que gestores não podem errar. Eu mesmo já errei, erro e vou errar outras milhares de vezes. Sou um defensor da tentativa e erro, aliás. E acho que só ganha dinheiro de verdade quem topa perder. Estou falando aqui de uma postura ética e de um método. Aí está o problema. Errar faz parte, mas nenhuma estratégia que envolva risco de falência, por mais vantajosos que sejam os ganhos potenciais, pode ser admitida. Alavancagem e concentração são proibidas.

Mercados iniciam semana demonstrando alguma cautela. Desempenho acima do esperado da extrema direita alemã em votação para o parlamento traz alguma aversão a risco, a despeito da vitória de Angela Merkel. Novas ameaças da Coreia do Norte aos EUA também deixam clima um pouco mais sombrio no exterior.

Por aqui, declarações do ministro Meirelles no final de semana sugerindo crescimento mais vigoroso do PIB animam, mas encontram a força antagônica da preocupação de Rodrigo Maia sobre impossibilidade de votar Previdência no futuro próximo.

Agenda é razoavelmente fraca hoje, contendo apenas relatório Focus, com nova revisão para baixo nas estimativas de inflação, IPC-S e relatório da dívida pública. Cena política traz votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. Nos EUA, temos atividade na região de Chicago.

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Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,2%, enquanto dólar sobe contra o real acompanhando comportamento da divisa no exterior. Juros futuros oscilam perto da estabilidade, ponderando maior aversão a risco e novo relatório Focus.

Com mercado demonstrando algum sinal de cansaço, ao menos no curto prazo. Max Bohm relaciona algumas oportunidades bem quentes, com espaço para se ganhar dinheiro independentemente da tendência sistêmica.

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