Você podia fazer não importa o quê, que eu sentia uma razão nisso

Claro que a tentação de achar que estamos no controle empurra-nos à noção de que podemos entender as coisas. A sensação de que vivemos sem entender nada é dilacerante. Por mais que nos esforcemos, nós não sabemos, não entendemos e não estamos no controle. Ponto final.

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Você podia fazer não importa o quê, que eu sentia uma razão nisso

“A única mulher que eu compreendo direito
e acho que conheço é você,
mas é amor e aceitação,
antes que compreensão mesmo.”
Vinícius de Moraes – Todo Amor

Quando comecei nesta brincadeira de analisar ações, e lá se vão 20 anos (“what a drag is getting old”, já dizia Mick Jagger), me considerava discípulo de Warren Buffett. Li vários e vários livros do megainvestidor, dos seus sócios, de seu professor e de seus aprendizes. Era uma questão minha e não sei nem se o próprio velhinho concordaria com a autoavaliação.

De lá para cá, muita coisa mudou. Perdi os cabelos e a inocência. Parei de acreditar em super-heróis e em pessoas com habilidades especiais. Claro que admiro profundamente a abordagem buffettiana e tudo que ela representa, nem há como ser diferente, só não faço mais parte do fã clube. Os heróis de verdade morreram de overdose.

Sabe por quê?

Basicamente, por duas ideias, que acabam se desdobrando em outras, efeitos colaterais razoavelmente nocivos.

A primeira sintetizada na frase “nunca invista num negócio que você não entende.” E a segunda ligada à noção de que o bom analista fundamentalista é aquele que identifica, com precisão e recorrência, distorções entre preço e valor. Em outras palavras, ele tem uma habilidade especial: consegue ver melhor do que o mercado o subapreçamento de uma determinada ação.

Com todo o respeito, mas a abordagem se apoia em uma perspectiva bastante arrogante sobre si mesmo – é curioso como mais de 80% das pessoas se acha acima da média, o que, obviamente, configura um paradoxo.

Não acho que sejamos capazes de entender negócio ou coisa alguma. Não conseguimos compreender o mundo, a morte, a vida, o amor.

Eu não sei direito nem sobre a Empiricus. Aliás, como é curioso como nossos filhos acabam ganhando uma dinâmica própria, por vezes desconectada da concepção original. Lembro do CEO do Twitter pedindo desculpas publicamente ao ver sua empresa, criada para ser um instrumento de democratização e proliferação da informação, sendo transformada num verdadeiro campo de batalha, um ringue em que se espalham “fake news” sem o menor comprometimento.

Se não somos capazes de estimar nada sobre nossa própria companhia, como poderemos entender de uma outra? Para mim, o pulo do gato está em viver num mundo que não entendemos, porque ele é ininteligível mesmo, na essência. Se só formos fazer aquilo que entendemos, simplesmente não sairemos da cama.

Claro que a tentação de achar que estamos no controle empurra-nos à noção de que podemos entender as coisas. A sensação de que vivemos sem entender nada é dilacerante. O cérebro humano vive à procura da certeza, mesmo que ela seja irreal. Por mais que nos esforcemos, nós não sabemos, não entendemos e não estamos no controle. Ponto final.

Dessa discordância central emergem outras laterais, também com desdobramentos importantes para a alocação de capital.

Há duas frases clássicas, que, em linhas gerais, tratam da mesma coisa:

“A diversificação é a arma daqueles que não sabem o que estão fazendo.”

E…

“O risco vem de não saber o que você está fazendo.”

O grande problema aqui é que normalmente nós não sabemos mesmo. O mito de estarmos no controle. A razão é uma grande emoção, é o desejo de controle. Sei que já escrevi essa frase aqui várias vezes, mas eu a adoro mesmo, fazer o quê?

Há duas versões distintas sobre a diversificação. Não há certo ou errado. Existem apenas visões diferentes sobre a realidade. Eu, pessoalmente, me alinho a uma delas, mas se trata apenas do meu jeito de ser e estar no mundo.

Penso num produtor rural. Tenho simpatia por essa figura, por Tonico e Tinoco e pela Tristeza do Jeca, sendo eu mesmo detentor de meia dúzia de alqueires no interior de Minas.

Nestes versos tão singelos, apresento a figura de um produtor de couve. O sujeito faz só isso há 20 anos. Acredita saber tudo sobre a verdura, das necessidades climáticas para sua melhor conservação às propriedades da química orgânica, com sua alta concentração de ferro.

Soube de um meteorologista forasteiro que passava por aquelas bandas que em pouco tempo se aproxima uma mudança importante na temperatura e da pluviosidade, o que poderia simplesmente destruir toda sua plantação de couve. Se for confirmado, não haverá o que fazer. Terá perdido toda a lavoura.

Para a próxima safra, ele tem duas opções:

1 – Permanecer em seu círculo de competências e insistir na plantação exclusiva de couve. Afinal, é disso que ele manja. Não domina outras técnicas e seria altamente imprudente arriscar-se numa outra atividade. Em contrapartida, sabe da possibilidade de mais uma vez ser surpreendido por uma tempestade tropical ou por uma praga invencível que possa a acabar mais uma vez com cada pé de couve.

2 – Diversificar a atividade e passar a também plantar quiabo, reduzindo seu nível de dependência da couve e blindando-se de eventuais surpresas que possam a afetar essa verdura em específico. Não mais tem todas as verduras na mesma cesta. Ao menos tempo, correrá o risco de engajar-se numa nova atividade, com pouco domínio e conhecimento.

Se você acha que realmente é um plantador diferenciado de couve, ok, talvez você possa mesmo se concentrar nisso. Nada contra. Eu, no entanto, acho que somos menos competentes do que achamos mesmo dentro de nosso círculo de competências.

Mesmo o mais profundo conhecedor do mercado de couve, o mais diligente e preparado, estará sujeito a surpresas negativas em sua lavoura. Logo, a alta concentração nisso pode custar-lhe um ano inteiro. Então, eu, Felipe, preferiria plantar também quiabo, que, com molho de urucum, angu (não confundir com polenta) e frango caipira, forma uma alimentação balanceada maravilhosa.

Isso nos conduz obviamente à última discordância com as proposições de Warren Buffett. Em sua regra número 1, ele diz: “Nunca perder dinheiro”. E a regra número 2 completa: “Nunca esquecer a regra número 1”.

Certo ou errado, penso que se nunca perdeu dinheiro em seus investimentos você não está tentando o suficiente. O processo de aplicação de recursos financeiros, assim como qualquer outro na vida, obedece à lógica de tentativa e erro. Estamos num ambiente de incerteza e sujeito a forças aleatórias. Mesmo aqueles de maior rentabilidade, vão errar, terão posições perdedoras. Isso faz parte do percurso. Somente os super-heróis não erram, sabem de tudo.

Há uma forma muito simples de você não perder dinheiro nunca: aplique 100% de seu capital na poupança. Esse é o pior erro que você pode cometer.

Estendendo o clima mais negativo da véspera, mercados brasileiros iniciam a sexta-feira no vermelho. Variações são mais modestas, ainda sob influência de desconforto com medidas de Donald Trump, que vêm pesando sobre emergentes ao sugerir uma eventual guerra comercial.

Internamente, governo fica pressionado com intervenção no RJ após a lamentável morte de Marielle Franco e seu motorista. Aumenta instabilidade política com os desdobramentos e as manifestações recentes.

Agenda doméstica trouxe IPC-S basicamente em linha com projeções e pesquisa mensal de serviços. Na esfera corporativa, destaque para fechamento de acordo entre Fibria e Suzano – ressuscitamos um dos pilares da nova matriz econômica e criamos mais um campeão nacional. Parabéns aos envolvidos! Vamos repetir o procedimento à espera de um resultado diferente. Sexta-feira é dia da maldade e de mais uma vergonha nacional.

Ibovespa Futuro abre em ligeira queda de 0,10%, dólar sobe contra o real e juros futuros apresentam ligeira alta.