Je suis Maurício Benis

No que a análise técnica difere da astrologia? E, ainda mais importante, no que a análise fundamentalista se distingue das duas anteriores.

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Je suis Maurício Benis

Tínhamos acabado de nos logar no call diário de Análise Técnica. Estávamos atrás de boas dicas de trade para o dia e, também, um pouco de entretenimento. Era na época em que banco grande pagava por essas coisas e oferecia aos clientes. O sujeito era divertido. Sotaque carioca, com voz rouca, estimulante e, ao mesmo tempo, pausada, numa intermitência resultante dos profundos tragos no baseado que preenchiam os espaços deixados por uma frase e outra.

Ríamos das tossidas sucessivas, seguidas de frases um pouco desconexas, possivelmente decorrentes do barato gerado pelo contato entre a fumaça e a mucosa nasal. Absorção alta.

Sim, é tudo verdade mesmo. O maconheiro de camisa havaiana era um grande grafista. Respeitado pra caramba. Naquela manhã de 15 de janeiro de 1999, estava especialmente enfático. Vínhamos de uma queda de 9,96% do Ibovespa na véspera, com perdas de importantes suportes pelo índice. A humildade e o comedimento, definitivamente, não eram o seu forte. Ao menos, não se levava tão a sério – suspeito que os efeitos da cannabis catalisassem o bom humor matinal. Começou assim:

“Galera, hoje é o seguinte. Tu vai pegar o dicionário e abrir na letra C. Abre aí. Tu abriu? Agora procura a palavra ‘comprar’. Achou? Então, tu vai rasgar essa página. Na moral, num tem compra nunca mais, entendeu? É queda, queda, queda, muleke. Madeira mermo.”

Naquele dia, o Ibovespa subiu 33,40%.

Não conto a história para ridicularizar o grafista. Ele continuou sua carreira por aí, se é que você me entende. Ambiguidades à parte, inventou uma desculpa qualquer por aquele erro e logo estava respeitado de novo. Ganhando dezenas de milhares de reais em palestras na Expomoney.

Não quero aqui também desdenhar da análise técnica, mesmo sendo ela ainda considerada uma espécie de voodoo science por boa parte do mercado, em que pesem os esforços do Andrew Lo para provar o contrário. Talvez seja um pouco imprudente levar as figuras tão a sério. Um desenho de um bebê abandonado poderia mesmo nos oferecer poder preditivo sobre o comportamento do preço dos ativos.

Se você for parar pra pensar, não é muito diferente da astrologia. Mas e daí? Todos acham isso ridículo, né? Mas cada um acredita no que quer. Quem mais aponta o dedo é o primeiro a incorrer nos mesmos erros. Julgar o outro é fácil.

Os fundamentalistas, claro, dotados de seu rigor científico, podem prever quanto uma empresa vai crescer na perpetuidade. Pra mim, saber quanto uma companhia vai faturar daqui a 15 anos é ainda mais esdrúxulo do que evitar comunicações importantes porque Mercúrio está retrógrado.

No que a análise técnica difere da astrologia? E, ainda mais importante, no que a análise fundamentalista se distingue das duas anteriores? Nós somos todos um grande escândalo.

O meu erro é sempre menor do que o do outro. A crença alheia é sempre mais bizarra do que a minha.

Se você der um Google em “spurious correlation” e clicar na primeira ocorrência, verá uma correlação altíssima entre o número de pessoas afogadas em uma piscina e a relação de filmes estrelados pelo Nicolas Cage. O mesmo padrão pode ser visto entre as importações norte-americanas de petróleo da Noruega e pessoas mortas em colisões em ferrovias. Se alguém vier a lhe dizer que uma variável oferece poder preditivo para outra, quem pode ser o juiz para arbitrar que falar isso não pode?

Reiterando, cada um acredita no que quer. De maneira curiosa, se você pegar a história das religiões, perceberá que, no fundo, é tudo um grande sincretismo. Como resume Harari no já clássico Sapiens, “o monoteísmo, tal como se desenvolveu ao longo da história, é um caleidoscópio de legados monoteístas, dualistas e politeístas sob um único conceito divino. O cristão típico acredita no Deus monoteísta, mas também no Diabo dualista, em santos politeístas e em fantasmas animistas. (…) O sincretismo talvez seja, de fato, a única grande religião mundial.”

No mercado financeiro, é igualzinho. Os fundamentalistas – aqui no sentido dos analistas que estudam os fundamentos de uma empresa cuja ação está listada em Bolsa – acreditam que, ao investigar com profundidade uma determinada companhia, podem identificar distorções entre preço (a cotação na tela) e seu real valor intrínseco (quanto aquilo deveria efetivamente valer). Crentes na convergência entre uma coisa e outra, compram sempre que o preço está abaixo do valor intrínseco, aproveitando-se da assimetria de informação por eles descoberta.

Já os grafistas pensam diferente. Toda a informação relevante está disponível no preço. Não há assimetria alguma. Logo, você não precisa estudar mais nada. Está tudo no gráfico e, portanto, você pode mandar os fundamentos às favas.

Perceba o seguinte: só há duas possibilidades aqui. Ou você acredita em assimetria de informação, ou você acredita que toda informação está no preço. Os dois grupos são complementares. Não há um terceiro grupo, nem há como pertencer aos dois mundos ao mesmo tempo. Mas sempre tem o espertinho que usa a análise fundamentalista para descobrir qual ação comprar e recorre à análise técnica para cravar o timing ideal. Puro sincretismo. E daí?

Eu sou astrólogo e conheço a história do princípio ao fim, responderia Raul Seixas. Abusando dos seus ensinamentos, hoje dois problemas se misturam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

Rodolfo deposita hoje meu décimo terceiro. Depois de consultar meu mapa astral, vou decidir o que fazer. Já tenho algumas ideias. Se eu for precisar da grana, aí não tem muito jeito. Vai para um fundo DI escolhido pela Luciana Seabra. Ou talvez para um bocado de LFT, conforme sugere a Marília.

Se eu não for precisar de nada, tratando-se daquele dinheiro da pinga, que sobrou sei lá como, então eu separo por uma porção de apostas ultra-arriscadas, aquelas coisas prestes a quebrar ou então uma carteirinha de criptomoedas. Todos, obviamente, vão dizer das minhas baixas chances aqui, que aquelas empresas quebradas vão mesmo quebrar e que as criptomoedas ainda não servem para nada. O pior: estão todos certos, mesmo. Mas se uma delas se multiplicar por 10x, pagará a conta de todas as outras. Daqui a um ano, teremos algum gênio explicando no Valor o porquê da óbvia multiplicação daquele diamante bruto nos últimos 12 meses.

E se esse fosse todo meu dinheiro, eu deixaria 90% na primeira opção e brincaria na segunda com o restante. Clássico Barbell Strategy: muito de pouco risco, pouco de muito risco. Metade de mim acredita nisso, e a outra metade, também. A terceira metade acredita no amor, mas isso é conversa para outro dia.

Mercados brasileiros estendem otimismo da tarde de ontem para a manhã desta quarta-feira. Bom humor decorre fundamentalmente da percepção de que o ex-presidente Lula pode estar fora da disputa eleitoral de 2018, após o TRF-4 marcar seu julgamento para o mês de janeiro. Com isso, a via estaria pavimentada para a vitória de um candidato reformista no pleito do ano que vem.

Agenda local trouxe decepção com vendas ao varejo, em queda de 0,9% em outubro, além, claro, da continuidade das discussões sobre a reforma da Previdência, diante de esforço final do governo Temer para ainda tentar pautar a questão neste ano. Fluxo cambial mensal completa as referências do dia.

Nos EUA, destaque para reunião do Fed, inflação ao consumidor e estoques de petróleo. Temos ainda inflação ao consumidor na Alemanha e produção industrial na Zona do Euro.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,5%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.