Jim Cramer deveria ser suspenso pela Apimec; ou Volta, Didi!

Alguns fatores explicam a baixa inclusão financeira no Brasil, como um histórico de juros altos, a microestrutura e a baixa educação financeira. Tentar mudar esse cenário, é estar sujeito a suspensão.

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Jim Cramer deveria ser suspenso pela Apimec; ou Volta, Didi!

O presidente da CVM quer aumentar a inclusão financeira no Brasil. Para um país com mais cadastrados em corretoras para comprar bitcoins do que CPFs com posições em ações, parece fazer sentido.

A B3 acha muito baixa a liquidez das small caps brasileiras. Aliás, acha baixo até mesmo o número de small caps brasileiras listadas. Tem razão também.

Há vários fatores capazes de explicar o pouco desenvolvimento do mercado de ações no Brasil. Diante do histórico de juros tão altos e de um track record que não é propriamente brilhante, principalmente quando confrontado com o CDI, seria natural esperar mesmo uma baixa penetração da renda variável.

Os elementos macro obviamente oferecem bom poder explicativo. Também a microestrutura e a baixa educação financeira certamente cumprem seu papel aí.

Pra mim, porém, falta mesmo é um Jim Cramer brasileiro. Alguém para entrar com um quadro no Fantástico, quem sabe no Jornal Nacional, mesmo que seja de cinco minutos, com as mangas das camisas levantadas para cima do cotovelo, cavanhaque e desinibição para gritar: “buy, buy, buy!”, enquanto aperta buzinas e cola uma carta de baralho na testa, sem vergonha alguma de mostrar ao investidor comum de que ele está diante de uma oportunidade capaz de render-lhe Mad Money – esse é o nome do programa que Cramer apresenta na CNBC, uma alusão a alguma coisa tipo “grana louca”.

Se você vai para a televisão e mostra que investir em ações é algo natural, que pode-se falar do tema com naturalidade, igualzinho se faz com as mesas redondas de futebol, aquilo vai entrando por osmose na cabeça das pessoas. Para não nos sentirmos ameaçados por determinada coisa, ela precisa pertencer à nossa zona de conforto, estar no nosso dia a dia sem causar estranhamento. Precisa estar perto. Só assim as pessoas poderão se questionar e perceber que a narrativa criada para si mesmo sobre o caráter maquiavélico da Bolsa estava errada.

Fico pensando como Jim Cramer reagiria às ameaças de rebaixamento do rating brasileiro por Fitch e Moody’s. Adaptado ao ambiente tupiniquim, talvez algo como: “as opiniões das agências de classificação de risco estão valendo menos do que Campeonato Paraíbano” – com todo respeito à Paraíba, que eu acho linda; boas e belas lembranças de João Pessoa, de quando meu amigo Ricão morava lá.

Ah, mas que pena… No Brasil, não pode. Aqui, Jim Cramer estaria fora do ar. Líder de audiência, genial, aclamado pelo público, ajudando milhares de pessoas a investir, punido pelo regulador.

A Apimec, a associação que, exercendo seu poder de polícia, diz o que os analistas podem ou não falar e fazer, já o teria suspenso há muito, muito tempo. Cramer não fala com comedimento, nem alerta para todos os riscos do investimento. Um analista que fala com meia dúzia de clientes julgando outro cuja interlocução se dá junto a milhões de pessoas, líder de audiência na TV. Faz todo sentido!

Jim Cramer apenas fala o que pensa, do jeito que pensa, ciente de que, numa linguagem institucional, seu espectador já teria apertado o botão do controle remoto e mudado de canal antes mesmo de ele dar “boa noite”. Falar de investimentos é, também, entretenimento e persuasão. Não, não. Não é só porque está na televisão. Toda a teoria econômica, aqui falando dentro da academia, foi construída sob sólidas regras de retórica, coisa que Persio Arida e Deirdre McCloskey. Tudo bem, a descoberta faz pouco tempo e talvez ainda não tenha dado tempo de entrar em contato os artigos, escritos na década de 80.

Falar que a Apimec, co-optada – como várias outras dessas associações – pelos interesses dos bancos exerce a função de autorregulação do research independente é como afirmar que o Uber está sendo “autorregulado” pela associação de taxistas.

Hoje termina o período de suspensão determinado pelo “autorregulador” (entre aspas, claro) de meu CNPI. O texto desta sexta-feira é uma singela homenagem à Apimec, que tem feito um trabalho impecável para aumentar a inclusão financeira no Brasil e fomentar a liquidez das ações.

Nesta sexta-feira, ainda estou impedido de falar de valores mobiliários especificamente. Evito esse escopo estrito. Deixe-me falar sem comedimento sobre outras duas coisas que estão afligindo minha alma quando penso sobre 2018.

Não faço a menor ideia do que vai acontecer. Pode ser conselho, pode ser lição. Pode ser antes, pode ser então. Só não sei porque eu e você não pode não, diria o Arnaldo Antunes. O futuro pode ser qualquer coisa. Mas algo me parece claro: há preços errados, fora do lugar, e alguém tem que ceder.

Dois exemplos:

i – o mercado precifica ao mesmo tempo que a inflação pra agosto de 2018 vai estar em 3,4%, e que o BC começa em agosto a subir o juro, dando início a seis reuniões seguidas de alta de 50 pontos na Selic. A falta de coerência interna está berrando. Alguém vai precisar se ajustar – e me parece que é a curva de juro.
ii – também não há como reconciliar o cupom cambial (juro em dólar no Brasil) aos preços atuais, no chão, com a discrepância da curva de juro local.
São tempos estranhos. Poucas vezes os preços relativos estiveram de forma tão inescrupulosa fora do lugar. Mas fala baixo, tá? Assim pra ninguém ouvir, bem comedido.

Mercados iniciam a sexta-feira com tendência predominantemente negativa. No exterior, voltaram dúvidas sobre a capacidade de Donald Trump aprovar seu pacote fiscal. Por aqui, está difícil colar a ideia de que governo conseguirá votar a reforma da Previdência em fevereiro.

Faltam drivers mais relevantes e, portanto, as variações são mais comedidas. Agenda é relativamente fraca, contando apenas com pesquisa mensal de serviços e leilão de linhas de transmissão no Brasil. Nos EUA, temos produção industrial e atividade na região de Nova York.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,3%, dólar está perto da estabilidade contra o real e juros futuros procuram definir tendência.

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