Assim, desta maneira, nego, Chicago não aguenta.

Quem inventou essa coisa de separar a forma de investir entre homens e mulheres foi um negócio chamado Ciência.

Assim, desta maneira, nego, Chicago não aguenta.

richard.thaler@chicagobooth.edu

Somente quando um email vale mais do que mil palavras, você começa um texto dessa forma meio louca. A coisa é autoexplicativa – ou, ao menos, deveria ser – para quem conhece a “Ciência Econômica” e como ela se estrutura no ambiente acadêmico. Já explico.

Eu tinha outros planos para escrever nesta sexta-feira de Sol. A exacerbação da patrulha, tanto dos machistas quanto das feminazis, me forçou a alterar a rota. Volto na segunda-feira com as bobagens de sempre. Peço desculpas antecipadas àqueles que já haviam entendido a coisa e não precisariam deparar-se com explicações do que deveria ser óbvio. Talvez o texto de hoje seja mais chato do que o habitual. Eu já os acho chatos normalmente. Hoje, então, está caprichosamente chato.

No dia em que decidimos lançar o Sexo Antifrágil , ponderamos sobre as críticas que viriam. Sabíamos desde o começo dos chiados das abordagens superficiais, daqueles que preferem criticar primeiro e conhecer depois. “Não há diferenças entre os sexos.” “Até a Empiricus entrou nesta?” “Que coisa mais sexista e machista.” “Caímos na ditadura das feministas.” “Quem inventou que homem e mulher investe diferente?”

Se você é acusado de machista e feminista ao mesmo tempo, sinal inequívoco de que está certo.

Eu sinceramente não imaginei que precisaria me envolver e ter de explicar. Mas quando até mesmo pessoas que eu considero inteligentes resistem a entender o ponto, talvez por preguiça de debruçar-se sobre a coisa e desafiar suas próprias convicções preliminares (aliás, esse é um dos vieses mais estudados pelas Finanças Comportamentais), a intervenção parece necessária.

Quem inventou essa coisa de separar a forma de investir entre homens e mulheres foi um negócio chamado Ciência. Há uma infinidade de estudos em Finanças Comportamentais mostrando como as motivações, as estratégias, o volume de trading, a forma como encaram o buy and hold apresentam claras diferenças.  

Não são um, dois, três estudos. São vários. Paul Slovic (um parceiro antigo de Daniel Kahneman e Amos Tversky) e Teddy Odean talvez sejam os maiores expoentes do campo. Richard Thaler, evidentemente, também compõe esse elite squad – sim, ele mesmo do email lá em cima.

Historicamente, a University of Chicago sempre foi o bastião da ortodoxia econômica, representada pelo que tradicionalmente se consolida na chamada teoria neoclássica. Não à toa, lá    é o berço das expectativas racionais com John Muth e da hipótese de mercados eficientes com Eugene Fama.  

Quando você vê Richard Thaler, talvez hoje o maior ícone vivo do Behavioral Economics e candidatíssimo a Prêmio Nobel de Economia, chegar a Chicago, isso tem um simbolismo gigante. Até mesmo a ortodoxia econômica, tão apegada ao homo economicus, passa a ser seduzida pelos vieses cognitivos. Ah, para conquistar os corações dos doutores da Faria Lima de forma definitiva: Thaler é uma das maiores influências sobre Dan Ariely, autor de Previsivelmente Irracional, apontado por Luis Stuhlberger como um de seus livros favoritos.

E se você ainda acha que essa é uma discussão diletante restrita ao ambiente acadêmico, sugiro passar os olhos no ellevest.com. Talvez você ache baboseira, coisa de Marte ou de Vênus, mas Mohamed El-Erian, chief economic adviser da Allianz e CEO da Pimco, além de um dos bigodes mais charmosos do mundo, acha incrível, tendo inclusive se tornado acionista.

Não é elucubração, papo sexista, misógino, feminista, machista. Nada disso. É ciência, amparada na mais fina fronteira do conhecimento. Não é só que a mulher negocia (no sentido de girar a carteira) menos ativos e goza de menor disposição a risco. Ela também se interessa e se engaja apenas por determinados tipos de estratégia de investimento, incluindo aí a forma com que lhe são apresentadas. Ou seja, requer uma abordagem distinta.

Claro que tudo isso é pensado na média, devidamente ponderada por desvios-padrão e outros momentos da distribuição de probabilidades. Não adianta falar: “ah, mas eu conheço uma amiga que é super arrojada e trada opções.”  

Não é assim que se faz ciência, evidentemente. Nós ainda nos interessamos pelo rigor epistemológico, ainda que ele tenha caído em desuso diante de preconceitos individuais e posições ideológicas concebidas a priori. Conheça primeiro, critique depois.

A proposta do Sexo Antifrágil é trazer essa fronteira do conhecimento até você e quebrar paradigmas. Podemos recorrer à ideologia que quisermos. Há, no entanto, um fato objetivo: as mulheres brasileiras investem menos do que os homens, principalmente em ativos de risco. Será que não podemos mudar isso? Eu acho que vale a pena tentar. Essa é a nossa pequena contribuição, feita com amor, carinho e dedicação, além, claro, de uma dose de Nassim Taleb e sua antifragilidade, porque aqui ninguém é de ferro.

Sem qualquer preconceito, eu sou um conservador, no sentido liberal e inglês da coisa. Não acho que a razão possa produzir modelos razoáveis sobre o mundo. Talvez esse ceticismo com os modelos racionais, típico de Sextus Empiricus, um dos pais da escola cética, me aproxime das Finanças Comportamentais.

Respeito todo mundo, mas gosto mesmo é de mulher.

Mercados iniciam a sexta-feira em compasso de espera. Há uma série de indicadores econômicos relevantes nos EUA que podem definir o humor do restante do dia. Vendas ao varejo, inflação ao consumidor e produção industrial norte-americana atraem as atenções, além de relatório Baker Hughes, driver típico para o petróleo.

Por aqui, volatilidade pode ganhar força com aproximação do vencimento de opções sobre ações na segunda-feira. Cena política oferece uma trégua com vitória de Temer na CCJ sobre denúncia de Janot e aprovação da LDO, que abre as portas para o recesso parlamentar.

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Na agenda, IBC-Br, que funciona como prévia do PIB, caiu 0,51 por cento, bem abaixo das projeções. Na véspera, FMI havia revisado para baixo estimativa de crescimento para economia brasileira de 1,7 para 1,3 por cento.

Ibovespa Futuro abre perto do zero a zero, dólar recua ligeiramente contra o real na esteira do comportamento da moeda norte-americana no exterior. Juros futuros cedem sob pressão do IBC-Br.

Depois de falarmos repetidas vezes sobre antifragilidade e muitos ainda não conseguirem fazer sua transposição imediata para seus investimentos, decidimos lançar um curso de opções, que representam de maneira canônica o que isso significa. Potencial de lucros infinito, com prejuízo limitado – desde que feito da forma certa, claro.

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