A mentira que o Banco Central vai contar em 3,2,1…

Em janeiro, o Banco Central vai precisar escrever uma cartinha justificando o descumprimento da meta de inflação de 2017

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A mentira que o Banco Central vai contar em 3,2,1…

“I don’t believe in magic
I don’t believe in I-ching
I don’t believe in Bible
I don’t believe in tarot
I don’t believe in Hitler
I don’t believe in Jesus
I don’t believe in Kennedy
I don’t believe in Buddha
I don’t believe in Mantra
I don’t believe in Gita
I don’t believe in Yoga
I don’t believe in kings
I don’t believe in Elvis
I don’t believe in Zimmerman
I don’t believe in Beatles
I just believe in me
Yoko and me
And that’s reality

The dream is over
What can I say?”
John Lennon – God

Ilan Goldfajn é um excepcional economista. Dispõe de invejáveis formação acadêmica e trajetória profissional. Para muitos, somos privilegiados em tê-lo como representante da máxima autoridade monetária brasileira.

Ilan é um economista ortodoxo, alheio às invencionices da gestão anterior, o que, considerado o padrão brasileiro, já o coloca entre o quarto quartil da distribuição de presidentes do Banco Central. Também não me parece que partilhe da mesma subserviência de Alexandre Tombini. Poderíamos estar pior, sem dúvida. Ufa, ao menos um começo.

Ilan veste ternos bem cortados, circula muito bem pela Faria Lima e pelo Leblon e foi economista-chefe do Itaú. Ilan é “um dos nossos”, entende? Um daqueles símbolos do mercado financeiro alçados à gestão da política econômica.

Tem suas vantagens, confesso. Mas daí decorrem também dois problemas. O primeiro: como todo grande economista ortodoxo, Ilan Goldfajn é um fragilista. Acredita em maximizações, na capacidade da realidade ser representada fidedignamente por modelos estatísticos e por complexas equações diferenciais (ergodicidade). Eu, que não passo de um deprimido rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, perdi há tempos a capacidade de acreditar. O mundo e sua complexidade nunca poderão caber numa planilha de Excel.

O segundo: sendo “um dos nossos”, Ilan não pode ser criticado. Sua áurea técnica, diligente e austera protege seu trabalho de qualquer escrutínio público mais profundo. Se a própria Faria Lima comemorou a nomeação, apontar seus erros agora implicaria uma autocrítica que, sinceramente, poucos conseguiriam fazer. Somos todos incompetentes e desavisados sobre nós mesmos (Unskilled and unaware of it).

Se eu encontrasse ao menos um minuto de convívio suportável comigo mesmo, talvez pudesse hoje abrir mão da radical transparência que tipicamente permeia essas linhas. Infelizmente, eu não posso e por isso esbarro na incapacidade de tergiversar sobre o compromisso firmado com a própria alma.

Depois dos dados oficiais da semana passada, agora está um tanto claro. Em janeiro, o Banco Central vai precisar escrever uma cartinha justificando o descumprimento da meta de inflação de 2017. De forma mais direta, buscar argumentos retóricos para explicar seu erro ao entregar uma inflação oficial abaixo de 3% neste ano.

Temos a desculpa pronta: o preço dos alimentos! Você já pode pegar por aí declarações esparsas construindo o argumento. Como são exógenos e, portanto, fora do controle do Banco Central, os alimentos seriam os responsáveis pela inflação abaixo da meta.

É inegável que os alimentos caíram bem neste ano. Mas quando você exclui os alimentos da conta, ainda chega a uma inflação muito baixa para 2017 – a inflação de preços livres ex-alimentos, por exemplo, está rondando em torno de 3% em 12 meses.

Lembre-se que a meta de inflação era de 4,5%, com uma banda de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, feita justamente para acomodar choques exógenos tais como esse dos alimentos.

Do outro lado, a inflação de administrados marca algo como 8% nos últimos 12 meses. Ou seja, sem ela, o índice cheio teria subido ainda menos do que os 2,8% vistos em novembro. A inflação cheia de preços livres (incluindo agora alimentos) foi pouco acima de 1%.

Se os alimentos puxaram a inflação para baixo, os administrados puxaram para cima. Essa combinação ilustra claramente o erro de calibragem nos juros pelo Banco Central, que prepara o terreno para nos convencer que sua barbeiragem se deveu a um choque exógeno. Em bom português, o BC demorou para cortar a Selic e o fez de forma muito comedida.

Precisa estar claro para todo mundo: a inflação de preços livres ex-alimentos está no piso da banda, sendo portanto uma mentira que a inflação só foi baixa por conta do choque da safra.

Talvez um bom resumo da política monetária brasileira em 2017: a melhor das intenções, com a pior das consequências.

A pior notícia ainda não é essa. O mesmo modelo que errou fragorosamente a condução da Selic em 2017 está sendo usado para 2018! Estamos diante de uma das definições clássicas de loucura: repetimos um mesmo procedimento esperando um resultado diferente.

Leia mais: Taxa Selic: tudo o que você precisa saber

Mercados brasileiros iniciam a semana demonstrando um pouco mais de otimismo, amparados por avanços nas negociações em torno da reforma da Previdência, em revisão para baixo nas estimativas de inflação do boletim Focus e num exterior predominantemente favorável.

Governo fala em início das discussões da Previdência no Congresso já na quinta-feira – presidente Michel Temer disse na Argentina que “a reforma vai bem”, Geraldo Alckmin fez uma defesa enfática do tema e Carlos Marun, nomeado ministro, pode reverter uma dezena de votos. Avançamos, mas ainda não sabemos se é suficiente.

Agenda doméstica traz relatório Focus e prévia do IGP-M, que apurou inflação de 0,73%, marginalmente acima das projeções. Nos EUA, sai relatório Jolts da tendência do emprego.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,9%, juros futuros recuam e dólar cai contra o real.

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