Ode à minha família

Conto nos dedos os que estiveram ao lado na hora ruim. A Empiricus se alinha à noção de “skin in the game” desde sua concepção. Vivo isso, diariamente. E se proponho a perseguição obstinada de assimetrias convidativas em seus investimentos, é simplesmente por replicar a trajetória cotidiana, por não encontrar outra forma de “bater o mercado”. Por isso, hoje escrevo àqueles capazes de entender os benefícios do Barbell Strategy.

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Ode à minha família

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente;
quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente,
vomitar-te-ei da minha boca.”

Apocalipse 3:15-16

Nas raríssimas vezes ao longo da minha vida em que tive algum mérito, muitos estavam ao meu lado, dispostos ao aplauso de pé. Mesmo quando a conquista decorreu apenas da sorte, e essa tem-me sido uma companheira fiel, lá estavam todos prontos para comemorar comigo.

Nas várias situações, porém, em que mereci a vaia, por um erro vil indesculpável ou pela mera atuação de uma força aleatória de última hora, foram poucos aqueles que continuaram a suportar-me. Muitos daqueles que antes aplaudiam de pé foram os primeiros a apontar a minha vergonha, o meu desvio, o meu desajuste ou a minha incompetência.

Conto nos dedos os que se dispuseram a estar ao lado na hora ruim, justamente quando mais deles precisava. Desses, jamais esqueço e por eles lutarei também o bom combate, se e quando de mim eventualmente necessitarem. Os poucos capazes de estender-lhe a mão quando se está à beira do precipício… esses, sim, são os grandes.

Choro pelo amor e apoio incondicionais de minha mãe por todos esses 33 anos, mesmo nos momentos em que fui indigno de recebê-los – foram vários, quando estive, de maneira inescrupulosa, grotesco, mesquinho, submisso e arrogante.

Também jamais poderei retribuir o que meus irmãos André, Filipy, Gustavo e Regis fizeram por mim. Profissionalmente, por mais que me esforce, nunca conseguirei apoiar o Rodolfo da mesma maneira que ele sempre me apoiou – se não fosse por ele, digo com toda a sinceridade do mundo, não teria sido jamais publicado um Relatório Empiricus. E, se hoje eu posso fazer o João Pedro estudar na mesma escola que eu frequentei a vida toda, devo isso ao Rodolfo.

Não poderia avançar para as próximas linhas também sem explicitar o e-mail que recebi do Pedro Cerize na hora em que todos se voltavam contra mim – eram apenas cinco linhas, mas que transmitiam tudo que minha cabeça precisava naquela circunstância.

Nassim Taleb está envolto a polêmicas sobre a publicação de seu mais novo livro: “Skin in the Game: Hidden Asymmetries in Daily Life” (algo como: “Sua Pele em Jogo: Assimetrias Escondidas na Vida Cotidiana”). O “Guardian” escreveu uma resenha bastante ruim sobra a obra, classificando-a como um “flawed book” (um livro defeituoso). Taleb respondeu com sua típica polidez: “Fucking idiot” (poupo a tradução).

Eu não precisaria marcar minha posição na disputa intelectual entre Nassim Taleb e jornalistas. Os três leitores desta newsletter provavelmente já a conhecem. Mas faço questão do registro formal.

A Empiricus se alinha à noção de “skin in the game” desde sua concepção. Se as recomendações feitas pelos analistas no Brasil antes beneficiavam ou feriam o bolso somente de quem as recebia, criamos a Empresa justamente para que seus efeitos fossem sentido também por quem as proferia.

Nós, sócios, ganhamos ou perdemos dinheiro quando nossos assinantes renovam ou cancelam seus planos individuais, o que obviamente obedece ao lucro ou ao prejuízo que os assinantes têm conosco ao longo da trajetória. Os analistas não-sócios, por sua vez, recebem seus bônus de acordo com o acerto de suas recomendações. Capitães deveriam afundar com os navios.

Talvez o skin in the game, de fato, não resolva todos os problemas. Não é condição suficiente para isso, mas é necessária. Isso que talvez tenha escapado à jornalista do Guardian – aos jornalistas, sempre escapará o essencial, pois, por construção, sua pele jamais estará em jogo. O sujeito escreve uma crítica destruidora de determinado livro, acaba marcando o destino daquela obra e, sendo justo ou injusto, lá estará amanhã de novo com a garantia de seu emprego. Who watches the Watchman? Quem critica o crítico?

Feita a defesa do título do livro (Skin in the Game), me volto sobre o subtítulo (Hidden Asymmetries in Daily Life). Eu vivo isso, diariamente. E se proponho a perseguição obstinada de assimetrias convidativas em seus investimentos, é simplesmente por replicar a trajetória cotidiana, por não encontrar outra forma de “bater o mercado”.

Tudo poderia ser resumido na frase de Taleb: aposte centavos para comprar dólares, nunca aposte dólares para ganhar centavos.

Deixe-me falar mais diretamente o que penso (e aqui seria acusado de louco por aqueles incapazes de entender a epistemologia do argumento): prefira comprar bitcoins a comprar crédito privado.

Explico com um exemplo do dia a dia. Nesse fim de semana, fui impactado na internet por um anúncio de LCI/LCA energizadas. Querem me convencer de que 95,5% do CDI vai dar asas para seu investimento. Esse é só um exemplo particular do caso geral.

Eu não gosto de crédito no Brasil. Estou certo de que há exceções e de que a Marília consegue garimpar oportunidades de baixo risco e alto retorno. Mas, no geral, o incremento de risco, no meu entendimento, não é compensado pelo retorno potencial adicional.

Conta de padeiro:

Se você aplica 100 mil reais numa LFT e consegue 100% do CDI, assumindo que a Selic vai a 6,5% e aí fica por um ano, ganha 6,5 mil ao final de 12 meses. Paga 20% de imposto e fica com 5,2 mil de rendimento líquido.

Já se comprar a tal LCI/LCA por 95,5%, vai correr risco de crédito privado para ter cerca de mil reais a mais daqui a 12 meses.

Com a queda das taxas de juro, vão querer lhe empurrar todo tipo de aplicação exótica de renda fixa, principalmente aquelas de baixa volatilidade e marcadas na curva. Isso será confundido com baixo risco e as poucas migalhas que lhe renderão a mais servirão de atraente.

Não se deixe levar pelo canto da sereia. Não é isso que vai fazer a diferença.

No caso do crédito privado, você está arriscando o principal (dólares) para ganhar um pouquinho a mais (centavos) no final do processo.

Em vez de correr “risco médio” num monte de aplicações de crédito privado, é preferível separar seus investimentos em dois grandes polos. De um lado, muito dinheiro em pouquíssimo risco (LFT, Treasuries, poupança, etc.). De outro, pouco dinheiro em muitíssimo risco, da maneira mais diversificada possível.

Escolho um portfólio com 95% em LFT e 5% distribuídos em microcaps (Max pode ajudá-lo a identificar as melhores aqui), opções de Petrobras, bitcoins (reserva agora mesmo seu livro gratuito), startups de biotecnologia, ICOs de maconha e tudo mais; frente a uma carteira com 20% de crédito privado, em que um único default vai afastar-lhe do CDI por cinco anos.

Imagino que você seja como eu e Dolores O’Riordan, que antes de morrer prematuramente aos 46 anos, escreveu na linda Ode to my family: “porque nós fomos educados para ver a vida do melhor jeito e aguentar o que pudermos.”

Mas há limites para serem impostos àqueles que propõem alocações mornas em torno da média.

Por isso, hoje escrevo àqueles capazes de entender os benefícios do Barbell Strategy, os poucos aptos a desafiar o fato estilizado em prol da otimização das carteiras, da eficiência de portfólio, das correlações históricas e do pouco risco associado a mercados de crédito e à pouca volatilidade em geral. Esses são hoje a minha família.

Em um dia de continuidade do rali dos ativos de risco no exterior, mercados brasileiros abrem demonstrando bom humor, refletindo certa tranquilidade com rendimento dos Treasuries, alta das commodities e queda das expectativas de inflação internamente.

Minério de ferro subiu ao menor nível em 10 meses com possibilidade de China estender o controle da oferta de aço para após o inverno. Talvez mais importante seja expectativa por discursos mais brandos sobre a política monetária global nesta semana – Bullard, do Fed, e Mario Draghi, do BCE, fazem pronunciamentos nesta segunda-feira.

Agenda doméstica destaca relatório Focus, com recuo importante nas projeções para IPCA de 2018, dados da dívida pública e referências do setor externo. Lá fora, temos atividade na região de Chicago, vendas de casas novas nos EUA e indicador do Fed de Dallas.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,57%, dólar caiu contra o real e juros futuros recuam.