A verdadeira ocupação de Wall Street?

Julian Assange, fundador do Wikileaks, fez um twitt bonito: “Bitcoin is the real Occupy Wall Street.” Difícil negar a representatividade das criptomoedas em 2017. Talvez seja o início de uma grande revolução; talvez apenas mais uma bolha prestes a estourar.

Compartilhe:
A verdadeira ocupação de Wall Street?

Não queria transformar isso aqui num tratado de embates regulatórios. Primeiro porque é chato pra caramba. E depois porque não acho que isso ajude o investidor a aplicar melhor seu dinheiro – em última instância, esse é sempre meu objetivo por aqui.

No entanto, como recentemente tratei do assunto e ele teve desdobramentos, sinto quase obrigação de atualizar o tema. Trago a discussão simplesmente porque, de alguma forma, ela pode acabar afetando nossa relação diária – desculpe, mas está ai um negócio caro pra mim. Aquilo que mora, de fato, no meu coração – e são poucas coisas – não é arrancado com facilidade, não. Falo rápido, para então voltar ao que seria efetivamente o cerne do texto de hoje.

Ontem, a CVM publicou edital de audiência pública com objetivo de alterar a Instrução n 497, que trata da atividade de agentes autônomos. Em linhas gerais, a proposta é mudar o papel das entidades credenciadoras (atualmente representada pela Ancord) nas atividades de supervisão, fiscalização e sanção dos agentes autônomos de investimento.

O texto do edital faz referência explícita à ação civil pública, de que recentemente tratei aqui, em que se questiona o papel das entidades credenciadoras na fiscalização e punição por infrações ao código de conduta profissional, culminando na eliminação da função de fiscalização e punição atualmente atribuída à Ancord.

Resumidamente, o argumento da ação civil pública era de que, ao exercer o papel de fiscalização e punição dos agentes autônomos, a Ancord tomava para si o poder de polícia, algo necessariamente restrito a um ente público. Acertadamente, o edital da CVM procura corrigir a distorção e retirar de associações particulares aquilo que, de maneira obrigatória, precisa pertencer ao Estado de modo a evitar a confecção de milícias privadas.

Deixo aqui registrados meus cumprimentos à CVM e também o questionamento: a decisão em questão deve ser restrita ao escopo Ancord/agentes autônomos ou precisaria ser estendida para o âmbito Apimec/analistas de investimento, posto que estamos diante de uma situação de claro paralelismo?

Superada a parte chata, falo do que realmente gostaria agora.

Julian Assange, fundador do Wikileaks, fez um tweet bonito: “Bitcoin is the real Occupy Wall Street.” Foi uma referência ao movimento de 2011, marcado por protestos contrários à grande disparidade de renda entre os participantes do sistema financeiro dos EUA e a camada mais pobre da população – tendo o pagador de impostos norte-americano sido chamado para remendar as mazelas da crise do subprime, nada mais natural.

Não fez muito efeito, pra ser sincero. A reação orgânica e real seria, ao menos de acordo com a ironia de Assange, a criação de uma moeda alheia ao domínio do Federal Reserve, de qualquer outro banqueiro central ou mesmo representante do sistema financeiro. As pessoas resolvendo entre si seus problemas, sem depender de Wall Street.

Difícil negar a representatividade das criptomoedas em 2017. Pode ser para o bem ou para o mal. Eu sinceramente não sei. Talvez seja o início de uma grande revolução; talvez apenas mais uma bolha prestes a estourar. Sendo sincero, não me importo tanto com isso. Sempre trabalhamos com as duas possibilidades e, pragmaticamente, deu para ganhar dinheiro com o negócio e é isso que interessa – se você comprou há alguns meses, já pode vender metade da posição com lucros de mais de 100% e “brincar” com o resto. “Understanding is a poor substitute for convexity” (o entendimento é um substituto ruim para a convexidade, e este é o nosso objetivo).

O que me incomoda nesta história é a turma representante máxima das criptomoedas no Brasil (a nata das moedas digitais) pagando de libertária, contra o sistema, em prol do investidor e crítica ao “lucro dos bancos”. Com o tanto de taxa que se cobra para operar bitcoin no Brasil e com um serviço de baixíssima qualidade, é muito fácil pagar de contra o sistema.

Se você operou bitcoin em uma das duas maiores plataformas do Brasil, incorreu em mais taxa do que pagaria em qualquer outro serviço bancário. Em bom português, foi assaltado e nem percebeu, simplesmente porque a valorização do negócio foi tão grande que os custos de transação acabaram negligenciados – o que não quer dizer que não sejam um absurdo.

No mercado bitcoin, cobra-se 0,3% para ordem executada e 0,7% para executora. Na Foxbit, isso cai para 0,25% e 0,5%, respectivamente. No Mercado Bitcoin, você paga 2,90 reais + 1,99% para depósito e saque em reais. A Foxbit não cobra para depósito em reais, mas exige 9,50 reais + 1,39% para saque (não tem a taxa fixa se for banco conveniado).

Mas não é somente muito caro. Quando você pensa em bitcoin e blockchain, deveria imaginar a fronteira tecnológica. Ocorre, porém, o contrário. As plataformas não são amigáveis no celular e a instabilidade do site é enorme.

Em paralelo, o atendimento é ruim e lento, com o cliente demorando dias para ser atendido. Em tempos de congestionamento, um saque pode demorar até uma semana para ser identificado pela equipe. Abertura de conta tem problema semelhante.

Dizem que a XP prepara uma corretora de criptomoedas. Eu não sei. Ao menos, pediu registro de marca. Dada a comprovada capacidade do management, pode ser uma esperança. O Brasil é o país em que investe-se mais em bitcoins do que em ações. É também o lugar onde banco cobra menos taxa do que corretora de criptomoeda. Acho que não sou daqui.

Mercados iniciam a terça-feira com alguma dose de cautela. Decisão do STF suspendendo adiamento do reajuste de servidores e aumento da alíquota previdenciária acende sinal amarelo sobre medidas de ajuste fiscal. Queda de metais no exterior após alta da produção na China também impede desempenho mais positivo.

No exterior, bolsas tentam se manter em alta ainda empurradas por otimismo com pacote fiscal norte-americano, mas clima favorável é mais contido hoje. Agenda é fraca internamente e nos EUA saem apenas dados de moradias.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,5%, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam.