Nós pedimos desculpas; vocês perdem dinheiro

O comportamento dos últimos dois grandes sell-offs na Bolsa brasileira corrobora a tese de um bull market estrutural. Sob a mera constatação de que “se cai, volta”, para que vender se vocês perdem dinheiro?

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Nós pedimos desculpas; vocês perdem dinheiro

Lá em casa nunca teve muita conversinha. Uma vez brigamos feio voltando do Canindé. A Lusa tinha empatado em zero a zero com a Ferroviária e isso não era bom. Tomado pela arrogância e rebeldia sem causa típica da pré-adolescência, devolvi o mau humor paterno com uma série de respostas malcriadas. Entre elas, lembro de ter perdido a linha com: “Também não quero a merda deste seu dinheiro”. Fomos à pizzaria à noite e eu fiquei sem comer. “Se você não quer o meu dinheiro e não tem grana para pagar a conta, você não come.” Colocado assim, parece um pouco mais duro do que foi de fato – mamãe acabou pedindo para viagem os pedaços que sobraram, me entregando em casa ainda quentinhos; em sigilo, claro.

Era também com esse mesmo espírito que papai me recebia quando me queixava do Deutsche Bank, conhecido mundialmente por empregar os caubóis do mercado, como reflexo da cordialidade típica de suas mesas de operação. O traje ali parecia exigir esporas e chicotes.

Isso na época ainda do Daniel Gleizer, que, em si, era um doce comigo, além de um economista brilhante e erudito. Problema mesmo era o middle management, que dava uma porrada atrás da outra nos estagiários como forma de esconder a própria insegurança. Aquilo me pegava na alma. Chegava em casa chorando, ao que o Ramiro respondia: “Mercado é assim mesmo, forma caráter. O que não mata, fortalece. Não é você que gosta do tal do Nietzsche?”.

Os obstáculos no meio do caminho formam caráter. Disso nunca esqueço. Hoje acho verdade maior. Penso nisso ao ver a recuperação dos ativos de risco depois do tombo da segunda-feira.

Dois pontos são suficientes para compor uma reta. Infelizmente, não caracterizam uma amostra científica. O argumento a seguir, portanto, é mais intuitivo do que propriamente científico. Ainda assim tem alguma validade.

Pensemos um pouco com a cabeça de trader. O que define uma tendência? Picos e fundos ascendentes. Essa é a definição clássica. Repare que não fala em “picos ascendentes”. Requer também os fundos, numa relação aditiva. Precisamos das duas coisas. Testes ao modelo são necessários. Cada vez que temos uma adversidade, um obstáculo, uma correção do mercado e voltamos rápido para cima, consolidamos a trajetória ascendente.

No evento Joesley, uma galera stopou geral, temendo o fim do mundo. Em poucos dias, o apocalipse não parecia mais tão trágico. As Bolsas voltaram a subir, com os gringos raspando tudo que viam pela frente. Ao final, tivemos um ano formidável para os ativos brasileiros, mesmo sem a reforma da Previdência, apontada ex-ante como condição sine qua non para o bull market.

Agora, volta a se repetir fenômeno parecido, ainda mais claramente. Diante da primeira correção, recuperamos tudo e mais um pouco já no dia seguinte, em especial nos nomes mais líquidos e óbvios, porta de entrada dos estrangeiros, indicando sólido apetite por Brasil.

Temos evidências de que se cai, volta. Rápido e intenso. Isso vai consolidando a tendência de alta, dando confiança de que há fluxo comprador reprimido, apenas esperando a oportunidade de entrar quando da correção pontual.

Quando a próxima correção vier, o incentivo ao stop será menor, pois possivelmente resgataremos a ideia de que apenas vamos entregar para o gringo mais barato. Então, a coisa voa 10% na sua cabeça, com você de fora e, então, não pega nunca mais.

Talvez seja fruto do viés de disponibilidade, em que recuperamos em nossa cabeça os eventos recentes semelhantes e traçamos conclusões a partir daquilo. Se minha memória cospe que das últimas duas vezes foi assim, estarei inclinado a proceder antevendo desdobramento semelhante.

Talvez seja resultado da ideia de “remotamente atingido”, descrito por Malcolm Gladwell em “Davi e Golias”. Se acontece alguma coisa negativa perto ou com você sem que aquilo lhe cause prejuízos materiais, você sai mais confiante e estimulado. Tem a sensação de que consegue ultrapassar adversidades. Coragem se desenvolve com a trajetória, não é algo que nasce com você. Apaixonei-me pelo livro do Adam Grant, que mostra como a originalidade também é assim. Criatividade e inovação também resultam de treino.

Ou quem sabe seja mais simples, a mera constatação de que “se cai, volta”. Então, para que vender?

O comportamento dos últimos dois grandes sell-offs na Bolsa brasileira corrobora a tese de um bull market estrutural, com correções cada vez menores e recuperações mais rápidas, construindo picos e fundos ascendentes.

Como antecipou Ray Dalio ontem, caso não haja grandes surpresas no curto prazo, o movimento da segunda-feira, embora parecesse o fim do mundo naquele momento, será quase invisível em gráficos de longo prazo.

Somente um grupo não conseguirá superar as mazelas da segunda-feira: aqueles que venderam volatilidade. Investidores que compraram XIV, ETNs atrelados ao VIX, cujo valor cai com o aumento da volatilidade, perderam nada menos que 90% num único dia. Os estragos aqui foram gerais.

Como uma tentativa de minimizar os danos com seus clientes, a Nomura Holdings informou que recompraria um de seus produtos de investimentos ligados inversamente ao VIX. No comunicado, afirma: “Nos desculpamos do fundo dos nossos corações por causar uma grande inconveniência aos nossos investidores”.

A indústria bancária pede desculpas. O investidor fica com o prejuízo. Típico dos fariseus do templo.

Tomemos como lição, de uma vez por todas: nunca, nunca e nunca venda volatilidade/convexidade. Pode parecer atrativo e alinhado ao desejo humano de ficar acumulando pequenos ganhos ao longo de muito tempo. De fato, é provável que você passe anos lucrando com aquilo, exatamente como fizeram aqueles que shortearam volatilidade nos últimos tempos. Tidos como gênios, agora entregaram tudo em um único pregão. É sempre assim. O canto da sereia acaba pagando mau no final.

Ainda demonstrando volatilidade, exterior volta a abrir um pouco mais tenso hoje, com futuros de Wall Street no vermelho – nada que se compare à segunda, claro. Dólar sobe contra principais moedas emergentes.

Agenda doméstica destaca reunião do Copom, que deve reduzir taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 6,75%. Interesse mesmo no comunicado do colegiado do BC, sob expectativa para sinalizações sobre a reunião de março. Na política, ministro Fux basicamente descartou possibilidade de registro da candidatura do ex-presidente Lula.

Pressionado pelo exterior, Ibovespa Futuro cai 0,7% na abertura desta quarta-feira, enquanto dólar sobe 0,4% e juros futuros recuam, aguardando resultado do Copom.

PS.: Encerraremos em poucas horas a adesão para O Investidor Essencial de 2018. Acertamos os detalhes finais e posso falar de coração que estamos orgulhosos do que fizemos. Obrigado mais uma vez.