Sofrimento + reflexão = progresso

Podemos, sim, ser otimistas com a Bolsa brasileira e com posições em juro real longo por aqui. Ao mesmo tempo, precisamos ter medo do cenário externo.

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Sofrimento + reflexão = progresso

Há algum tempo, estou otimista com os mercados brasileiros. Continuo assim. Ao menos por enquanto, vem dando certo. Não importa muito. Na real, a única coisa importante na frase é o “ao menos por enquanto”. Num mundo dominado por cisnes negros, você precisa apenas de um único momento de guarda baixa, um breve relaxamento, para entregar tudo e muito mais.

O corolário óbvio é: você nunca pode baixar a guarda. Aqui chego onde queria. O fato de estar otimista não significa que não tenha medo. Ao contrário, eu tenho – e muito. Não falo desse sentimento como algo negativo, paralisante. Medo é a consciência de que algo pode dar errado, a noção de que flertamos sempre com a possibilidade de uma reversão súbita, um estado de alerta que nos mantém sob vigília constante e nos protege do perigo.

Medo é diferente de desespero. Etimologicamente, “des” (sem) “espero” (capacidade de esperar). Para uma pessoa desesperada, só existe aquele momento específico, só há o presente. Seu resultado é a completa paralisia, um ato de pânico diante da incapacidade de realizar alguma coisa. Meu reino por um cavalo! Numa situação assim, somos vividos por uma sensação de descontrole, perdemos a razão, quase por definição – segundo Nietzsche, a razão é uma grande emoção, é o desejo de controle (des + controle; sem razão, sem controle).

O medo é outra coisa. Você percebe o perigo, mas ainda está no controle. Lembro de Bobby Axelrod: “É o gosto que eu sinto. Medo no fundo da minha garganta. Sabe, a maioria das pessoas tenta ficar longe do medo, tenta tirá-lo de suas vidas assim que podem. Eu? Eu o cultivo. Tento reconhecê-lo e usá-lo. Foi assim que eu sobrevivi quando estava crescendo e ainda vivo assim, escutando com atenção o meu medo”.

Na minha visão – e é só a minha visão, que provavelmente não serve pra nada -, se você quer medir um gestor/investidor realmente excepcional, não apenas muito bom, investigue sua capacidade de sentir medo. Se ele, em maior ou menor grau, não tem no medo um de seus guias, provavelmente ele vai quebrar em algum momento. Pode demorar, mas a incapacidade de enxergar situações de perigo iminente vai cobrar a sua conta.

Ontem voltei a sentir um pouco mais de medo. Não tem nada a ver com a queda da Bolsa ou a disparada dos juros futuros. Não me pauto por resultados, tampouco faço o passado transbordar para o futuro. Históricos em Bolsa não dizem nada, sobretudo os curtos. Li a preocupação de Ray Dalio com o mercado de bonds (de dívida). Segundo ele, há uma quantidade significativa de riscos nesse mercado, que cresce à medida que os EUA caminham na direção de maior déficit orçamentário e o Federal Reserve diminui seu balanço. “Os apertos monetários são progressivamente mais preocupantes porque, conforme você vai nessa direção, eles ficam cada vez mais difíceis de serem perfeitos e sincronizados.”

Ray Dalio é o maior gestor do mundo. Ele aparece por aqui vez ou outra – metaforicamente, claro. Já tratei de sua política de radical transparência e da obstinação pelos “intelectual navy seals”, conceitos que, inclusive, tenho tentado incorporar na Empiricus; obviamente, não sou o Ray Dalio, nem a Empiricus é a Bridgewater, portanto cada um terá a radical transparência e os intelectual navy seals que merece. Pelo menos, a gente tenta, toma uma dose de Iludol e se distrai com essa ilusão de que está fazendo alguma coisa precisamente adequada.

Ray Dalio é uma lição. Ao menos, deveria ser. Sua autodescrição é de um “professional mistake maker”, algo como um “cometedor profissional de erros”. No início dos anos 80, depois de oito anos no negócio, ele já era bem rico. Então, fez uma previsão catastrófica sobre o balanço de pagamento de vários países no mundo. Sua conclusão era de que os saldos negativos não poderiam ser financiados. Ele estava certo de que os mercados colapsariam com aquilo e montou uma grande aposta na queda.

A análise macro era, de fato, correta, mas os mercados acabaram subindo naquele ano. Ray Dalio quebrou, literalmente. O sujeito não reclamou, não ficou chorando por ai, não pôs a culpa em ninguém.

Em retrospectiva, ele afirma ser o episódio a melhor coisa que já lhe aconteceu na vida, pois lhe deu a humidade necessária para se tornar mais bem sucedido. Em vez de pensar que estava sempre certo, a partir dali ele se viu obrigado a mudar a forma de raciocinar: “como eu sei que estou certo?” Formou-se um novo paradigma.

Dali pra frente, Dalio ficou obstinado pela ideia de que a dor mais a reflexão levam ao progresso. Depois de um ferimento ou de um sofrimento, a dor passa e, então, aquilo requer reflexão para perceber o que foi feito errado e poderia ser feito diferente no futuro. Os erros não seriam apenas atitudes inadequadas. Viraram uma espécie de quebra-cabeça a ser resolvido. “O que eu faria diferente no futuro?” – esse passou a ser um exercício objetivo.

Com isso, o gestor montou um de seus mais essenciais princípios: cometa mais erros. O sucesso vai mantê-lo fazendo as mesmas coisas de sempre. A evolução só pode vir dos erros.

Temos de ter medo. E temos de errar. Temos que ter medo de errar?

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Eu sei do que tenho medo hoje. Lá vai:

  • Estou particularmente preocupado com o estágio do ciclo da economia e dos mercados globais. Essa já é a terceira maior recuperação da história da economia norte-americana, com 99 meses de expansão – de junho de 2009 até setembro de 2017 (se formos até novembro, já são 101); ficando atrás somente apenas dos 120 meses de março de 1991 a março de 2001 e dos 106 meses de fevereiro de 1961 a dezembro de 1969. Resumindo, se o Brasil vive um early cycle, tanto na atividade econômica quanto nos mercados, o cenário é diametralmente oposto lá fora. Muita calmaria por muito tempo não costuma dar boa coisa. É a famosa estabilidade gerando instabilidade de Hyman Minsky – subitamente, a coisa explode. Você pode chamar de cisne negro, evento de cauda, momento Minsky ou qualquer outro nome a seu gosto. O apelido não importa, basta ter medo dele.
  • O comportamento recente de Wall Street flerta com a possibilidade de uma súbita correção importante. São típicos do fim do bull market um comportamento final hiperbólico/exponencial, acelerando os ganhos num melt up que antecede um melt down, e também uma redução dos draw downs. Se nos ciclos anteriores tivemos grandes correções mesmo dentro de uma gigante tendência de alta, agora parece ser diferente. Acabou a vol, tudo caminha numa única direção, quase linearmente. O afrouxamento quantitativo dos Bancos Centrais não eliminou o risco, ele apenas empurrou a sujeira para baixo do tapete; aumentou o risco de cauda e reduziu o risco em torno da média.
  • Os valuations das bolsas globais passam longe de ser uma barganha. O chamado “Buffett Indicator”, com a relação valor de mercado do S&P 500 sobre o PIB, beira 130%, a segunda maior relação da história. Temos conclusões parecidas a partir do P/E de Shiller.
  • A China, nossa.. é um festival de desequilíbrios. Uma hora aquilo vai explodir, provavelmente resultando em grande desvalorização da moeda. Não dá pra conviver com este nível de dívida, crédito, perda de reservas e pressão no balanço de pagamentos. Uma hora a coisa vai pelos ares. Duro é saber quando..

Podemos, sim, ser otimistas com Bolsa brasileira e com posições em juro real longo por aqui. Ao mesmo tempo, precisamos ter medo do cenário externo. Se aparecer oportunidades de hedge (proteção) barato na sua frente para uma eventual correção forte lá fora, encha o carrinho.

Mercados dão continuidade ao clima de mais aversão a risco visto ontem. Alertas nos jornais de que base aliada resiste à reforma da Previdência e de que governo não dispõe dos votos necessárias para a aprovação geram algum desconforto. Liminar suspendendo leilão do pré-sal, e mais uma vez mostrando a enorme segurança jurídica brasileira, impõe cautela adicional.

Lá fora, avanço no plano de fiscal de Donald Trump e dúvidas sobre o futuro comando do Fed fortalecem o dólar. Metais em baixa após dúvidas sobre intenção do governo chinês de cortar produção pesam um pouco sobre emergentes.

Agenda internacional traz PIB dos EUA, relatório Baker Hughes sobre setor petróleo e sentimento do consumidor norte-americano. Por aqui, somente nota de crédito.

Ibovespa Futuro abre em leve baixa de 0,15, juros futuros voltam a subir mesmo depois da disparada da véspera e dólar avança levemente contra o real.

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