A melhor forma (comprovada) de puxar o band-aid

Com Bolsa em alta, convido você ao portfólio equilibrado. Assim até abrimos mão de picos de ganhos, mas também evitamos dores agudas.

A melhor forma (comprovada) de puxar o band-aid

Há duas semanas, ainda em férias, reservei um trem de Londres para Bath, empolgada para conhecer as ruínas dos banhos romanos. Projetei belas paisagens na janela e até comprei uma The Economist para compor a cena. Corta para a realidade: eu espremida entre dois vagões com outros dez viajantes, agachada, tentando tornar a jornada mais agradável ao usar a alça da minha mochila para travar a porta do banheiro, que insistia em se abrir ao menor solavanco.

O maquinista tomou o microfone. Explicou que houve um problema com o primeiro trem da manhã e que, para que a pontualidade britânica não fosse transgredida ao longo de todo o dia, a empresa amontou passageiros de dois veículos em um só – o que achei uma péssima ideia, cá entre nós. Ele sugeriu que quem estivesse muito incomodado poderia passar à primeira classe. Para isso, entretanto, eu precisaria alcançar a porta e correr do primeiro ao último vagão, nos menos de três minutos que o trem ficava em cada estação.

Planejei cada movimento e consegui executar a operação – não sem algumas cotoveladas – na penúltima parada do trem, após claustrofóbica uma hora e quarenta minutos. E assim passei os últimos 10 minutos da viagem em uma poltrona que só faltava fazer massagem, com mesa exclusiva e belíssimas paisagens na janela.

Quer saber se eu trocaria uma hora e meia no Inferno mais dez minutos no Céu por todo o trajeto no purgatório? Com certeza! Não nego o prazer de conhecer a primeira classe de um trem inglês, mas pagaria algumas libras para passar todo o trajeto dignamente sentada na classe econômica, ainda que as cadeiras fossem duras e o espaço pequeno demais para minhas pernas.

Quando me sentei no paraíso em forma de poltrona, lembrei-me de Dan Ariely. Foi a partir de uma jornada incomparavelmente mais dramática que o estudioso de finanças comportamentais descobriu um traço estranho do nosso cérebro: ao que parece, preferimos uma dor média por duas horas do que um sofrimento intenso ao longo de uma hora.

Em um artigo que não recomendo para estômagos fracos – mas que indico se você é profissional da saúde – Ariely, nascido em Nova York e criado em Israel, conta como foi sua rotina no hospital na sequência da explosão de magnésio, usado para iluminar batalhas noturnas, que deixou 70% de seu corpo coberto por queimaduras de terceiro grau aos 18 anos.

Diariamente, Ariely passava pelo chamado “banho”, em que as enfermeiras retiravam as ataduras sobre carne viva. A velocidade com que elas faziam isso incomodava o pesquisador. O método causava uma curta, porém intensa, dor. O jovem ferido gostaria de fazer paradas para respirar e também defendia que o processo fosse mais lento, ainda que isso significasse sofrer por mais tempo.

De volta à ativa, Ariely dedicou alguns anos de pesquisas empíricas a testar sua hipótese (pobres de suas cobaias): seria possível, por exemplo, que dobrar a duração de uma jornada sofrida poderia ser percebido como menos doloroso do que dobrar a intensidade da dor? A conclusão dele foi que sim.

Por mais masoquista que isso possa lhe parecer, nós preferimos a dor prolongada à aguda (eu sabia, mãe, que aquela não era a melhor forma de puxar o band-aid).

Dos devaneios em Ariely, naveguei até o dia inesquecível do ano, enquanto o trem sacolejava: 18 de maio. Tentei afastar a lembrança da fatídica conversa entre Joesley e Temer em meio às férias, mas meu cérebro insistiu. Naquele dia, pude perceber que uma carteira altamente concentrada em títulos prefixados e ações sofreu absurdamente, mas também se recuperou rapidamente nos dias que se seguiram. Foi uma dor aguda, porém rápida, seguida de alívio.

Por outro lado, portfólios mais protegidos – com posições em dólar, por exemplo – e que misturavam diferentes riscos sofreram menos, mas também não tiveram retornos explosivos nos meses de recuperação que se seguiram.

Qual é o ponto? Os estudos de finanças comportamentais indicam que o sofrimento total de um episódio não iguala a soma de intensidades momentâneas. Ou seja, um prejuízo expressivo em um único dia dói mais do que pequenas perdas diárias ao longo de dez dias, ainda que, no acumulado, você tenha perdido o mesmo dinheiro.

E, ainda que o retorno acumulado seja um pouco maior na versão com altos picos e grandes vales, o problema de se submeter a ela é que as marcas deixadas são mais profundas. Elas podem fazer você desmontar posições quando não deveria fortalecer sua aversão a perdas, evitando até mesmo riscos medianos e deixando dinheiro na mesa no futuro.

É por isso que, em tempos de Bolsa em alta, convido você à moderação e ao portfólio equilibrado. Assim até podemos abrir mão de picos de ganhos, mas também evitamos dores agudas. Vão haver dias difíceis. Monte seu portfólio de tal forma que a dor seja moderada.

Por falar em cérebro e medos, o Bruce ensina você a lidar com eles ao fazer parte da Sociedade dos Investidores da Empiricus. Vale a pena dedicar uns minutos a leitura.

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No ambiente político, o tema é a vitória do Congresso, ao qual o STF, sob o voto de minerva da ministra Carmen Lúcia, determinou que cabe a palavra final sobre medidas cautelares contra parlamentares. E, assim, abriu o caminho para que Aécio Neves reassuma sua cadeira. A questão será votada na próxima terça-feira.

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