Swipe à Direita

No ano, foram 241 pregões, 110 negativos, 131 positivos na Bovespa. Se você tivesse ficado de fora dos sete dias de maior alta, todo o retorno teria ido pelo ralo. Não dá para escolher uns dias para ficar de fora da Bolsa.

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Swipe à Direita

Curando uma ressaca no meio da tarde, pego o celular para brincar no Tinder – em um dos “swipes” para a direita, uma lindinha abrindo uma cava no Parque Güell, óculos escuros e cabelos esvoaçados em Barcelona – Alice.

Quatro anos depois, estou aqui tentando escolher o tapete da sala de casa enquanto controlo a hiperventilação a cada orçamento que pipoca em minha caixa de entrada – “Imagine uma bola azul de energia invadindo seu corpo. Inspire… expire…”

Das primeiras conversas para cá, o caminho não foi uma curva linear para cima cheia de corações cor-de-rosa, abraços e declarações apaixonadas. Entre as grandes noites e dias de amor desenfreado, tivemos vários percalços e discussões.

Lembro bem do “incidente Highline”, uma explosão de fúria em cima de um dos parques mais legais de NY. Uma das reações mais inexplicáveis e inesperadas que já presenciei na vida – um cisne negro de 1,59m de altura em toda sua beleza, glória e fúria.

O ponto mais baixo, nossa mínima – Finados 2015. Um feriado morno, sem brigas ou discussões, mas também sem gargalhadas e suspiros. Chego em casa na terça-feira à noite, gavetas e armários vazios, um bilhete em cima da mesa.

Passadas algumas semanas, depois de anos de luta, mamãe entrega os pontos e Alice, parceira de sempre, fez questão de ir consolar a mim, meu pai e irmãs. Algumas conversas, pontos acertados e a obviedade das saudades que sentíamos um do outro fizeram o resto. Agradecimento à minha mãe que não podia ir sem me dar um último presente.

“Cause all the roads I run are coming back to you”

Entre as altas e baixas, não tenho dúvidas de que o saldo da história toda é mais do que positivo. Surfamos um bull market longo e expressivo e desconfio que ainda não estamos nem na metade do caminho.

Se a vida imita a arte e a arte imita a vida, o mercado imita a arte e a vida.

Desde a mínima de setembro de 2009, o S&P acumula alta de 296%. Essa alta toda também veio salpicada de momentos tensos – em 2015, o índice recuou quase 1%. Em maio de 2010, queda de 8,2%.

No ano, a Bovespa acumula alta de 21,8%. Foram 241 pregões, 110 negativos, 131 positivos. Se você tivesse ficado de fora dos sete dias de maior alta, pronto. Todo o retorno teria ido pelo ralo.

Da mesma forma que sua vida se move em grandes saltos aleatórios – desconfio que mais de 90% dos seus dias não tenham impacto significativo para o seu destino – a história de uma carteira se define em poucos movimentos extremos.

Alguns dias de grande flutuação contam a história de um ano inteiro.

Para complicar um pouco você não sabe, a priori, qual vai ser o grande dia. Não tem trilha sonora dramática nem uma tomada aérea em slow motion para te avisar do perigo iminente. Os fatos se desenrolam à sua frente sem aviso prévio. Você nunca sabe quando a baixinha que gosta de espumante vai aparecer na sua tela.

Se você realmente acredita nas ações, se gosta da tal da Bolsa, não dá para escolher uns dias para ficar de fora. Mesmo no meio do pior cenário possível, uma boa notícia pode surgir do nada – o TRF pode marcar “um” julgamento por aí ou uma solução mágica pode surgir de dentro de um caldeirão.

O que não dá para fazer é perder o bonde (ou o Rumo). Se ficar de fora durante alguns poucos dias de euforia, entrega o ano todo e vai ter que escrever cartinha para o cotista explicando porque todo mundo ganhou dinheiro menos você – às vezes vai até ter que jogar a toalha e comprar Bolsa, mesmo contra suas convicções.

“Ah, mas se você ficar de fora nos dias ruins, pode ganhar muito mais.”

Verdade.

Se alguém souber como prever se a Bolsa vai subir ou cair com antecedência me avise. A gente pode montar um negócio e ganhar muito dinheiro com isso – GÊNIO!

Se o mercado é imprevisível, como se posicionar?

Pensando nisso, uma notícia me vem à cabeça: “Um milhão e meio de servidores não terão o 13º salário em cinco Estados”.

O Brasil faliu. Ou fazemos as reformas, ou as reformas nos farão. Isso independe de crenças políticas e preferências partidárias – não é uma questão de perda/retirada de direitos. Simplesmente, a coisa toda não se sustenta mais.

Não é possível mais pensar o país sem endereçar privatizações, cortes de gastos e enxugamento da máquina pública – esses pontos terão de ser discutidos antes, durante e depois das eleições e, se as coisas derem só “meio certo”, 90 mil pontos é pouco para a Bolsa.

O caminho até lá vai ter altas, baixas, gritaria, tiro, porrada e bomba. Mas quem ficar de fora pode perder um dos maiores ralis de todos os tempos – imagine reformas estruturantes em meio a uma Selic de 7% (ou menos)?

É certeza que vai dar certo? Claro que não.

Por isso, tem sempre que comprar com um pouco de medo, para não pagar de irresponsável.

Proteção sempre – na carteira e nos encontros do Tinder.

Com a proximidade do Natal e clima de férias, poucas notícias movimentam o mercado – Lula, em declarações à imprensa no estilo morde e assopra, tenta passar uma imagem de “Lulinha Paz e Amor 2.0″ ao mesmo tempo que critica reformas e privatizações e abre mais combate contra Moro e o MP.

Lá fora, Trump conseguiu passar a reforma fiscal no Senado e é possível que as Bolas americanas reajam bem – é uma vitória importante do governo Trump e pode dar mais momentum para o Topete.

IPCA-15 veio absolutamente em linha com as expectativas e o Relatório de Inflação do BC também não trouxe grandes novidades (mais nas notinhas da Marília a seguir).

Futuro da Bolsa subindo 0,30% e dólar operando em alta de 0,20%.

 

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