Tudo bem se o dia tiver 24 horas

Brasil cresce bem em 2018; cenário externo, ao menos na foto, se mantém muito favorável; lucros corporativos devem subir com muito vigor; e meu cenário-base implica eleição de um presidente reformista.

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Tudo bem se o dia tiver 24 horas

À mesa com um dos maiores alocadores do Brasil – e arrisco dizer, o melhor -, fui perguntado de minha visão pragmática para os investimentos em 2018.

Eu me sinto envergonhado nessas horas. Mais do que isso, me percebo incapaz de oferecer uma resposta minimamente à altura dos interlocutores, que sabe lá Deus por que estavam dividindo aquela mesa comigo.

Por trás da cortina do personagem escritor, há um menino, além de muito sortudo, tímido, inseguro e amedrontado. Uma irrefreável insegurança e a certeza de não pertencimento a esse mundo de superinvestidores intelectualmente brilhantes e bem relacionados, apenas aparentemente superadas pela ciência do personagem de que, acima de seus fantasmas pessoais mais íntimos, ele está ali, por escolha do acaso, representando uma instituição e seus assinantes. Só isso. Noblesse oblige.

“Antes de responder, coloque os dois pés no chão, bem plantados. Isso vai conectá-lo com suas raízes e tudo que você simboliza, de seus antepassados até a legião de pessoas que se ligam à sua empresa. Você não está sozinho, respire profundamente, conte até quatro. É o tempo do oxigênio penetrar. Só depois pronuncie a primeira palavra”, foi uma das receitas de bolo mais importantes que aprendi neste ano, após um pequeno acidente com minha cabeça.

Misturados todos os ingredientes, incluindo ali de maneira não deliberada parte de minhas próprias aflições pessoais, disse:

“Estou otimista, mas tímido.”
“Como assim?”
“Identifico boas razões para continuidade da valorização dos ativos de risco brasileiros.”
“Ok. Você vai mesmo só no Carpaccio?”
“Não. O peixe já está chegando.”
“Ah, eu tava achando demais mesmo. Pra mim, essa aqui é a melhor massa de São Paulo.”
“Nem sei o que é isso…”
“É **** (não consegui entender o que era, mas, claro, fingi total compreensão). Levíssima e saborosa.”
“Vou provar da próxima vez. Valeu a dica.”
“Mas continue. Então, você está muito alocado em ativos de risco, é isso?”
“Na verdade, não. É aquela velha história do Barbell Strategy.”
“Ah, eu li mesmo algo parecido outro dia, em que você dizia não gostar de crédito.”
“É, então…acho que o Brasil cresce bem em 2018, o cenário externo, ao menos na foto, se mantém muito favorável, os lucros corporativos devem subir com muito vigor e meu cenário-base implica eleição de um presidente reformista.”
“Mas e o risco Lula, você não tem medo?”
“Tenho. Pode ser um fator preocupante mesmo. Mas o que o Lula quer? Pensa friamente. Ele não tem um projeto pro Brasil, nem pro PT. Ele quer fugir da cadeia para a presidência da República. Então, se ele realmente fizer uma guinada à esquerda, iremos rapidinho pra recessão, explosão do dólar e da inflação. O povo vai pra rua, volta a pressão pela Lava Jato e ele será impeached em dois tempos. Logo, se o Lula começar a subir nas pesquisas e Bolsa desabar/dólar disparar, será uma baita oportunidade de compra.”

Pausa no diálogo. As duas últimas falas não aconteceram de fato. Pertencem apenas à minha imaginação. Corrigindo, pertencem à minha capacidade de copiar ideias alheias – desculpa, eu faço isso com frequência. Roubei o racional da apresentação de ontem do Luis Stuhlberger na Sohn Conference – essa é uma daquelas coisas que você fica triste de não ter concluído por conta própria e se vê obrigado a colar do outro. Evidentemente, a fala original veio carregada de eufemismo e linguagem institucional, sendo aqui apresentada na versão Fat Tony, a personagem de Nassim Taleb dotada de inteligência de rua e sotaque do Brooklyn. Todas as outras partes da conversa são reais, retomadas abaixo.

“Você não tem nenhum medo, então?”
“Nossa senhora, medo é meu nome do meio. Olho para esse cenário externo, neste late cycle todo, e quase faço nas calças.”
“Lá fora, essa é sua principal preocupação?”
“Sim. Essa já é a terceira mais longa recuperação da história da economia norte-americana. Se ela chegar até julho, será a maior ever. E todas as métricas de valuation nos EUA estão esticadas. P/E de Shiller na máxima histórica, relação valor de mercado sobre PIB. Tudo isso sem nenhum sinal de stress, como se o mundo fosse cor de rosa, vol tá na mínima. Temos poucos papéis nas mãos dos market makers, o que significa que, se nego der uma panicada e resolver sair vendendo, não vai encontrar contraparte.” – (Ooops, Jakurski, que obviamente não está entre as três pessoas que leem isso aqui, peguei um pedaço seu também, confesso, desculpa).
“Como alguém gritando fogo num teatro com a porta pequena…”
“Exatamente. De repente, pode dar um soluço lá fora, sei lá, de 20%. E arrastar tudo, porque tudo está pela hora da morte mesmo. Caro pacas…”
“Como você tá reconciliando tudo isso na sua cabeça?
“É o Barbell. Destinar uma pequena parte do portfólio para correr muito risco em Brasil. Se a coisa continuar bem, você vai surfar. Ao mesmo tempo, separar uma boa parte do portfólio para deixar em caixa e em moeda forte. O ano de 2018 vai lhe oferecer a chance de entrar com tudo, seja pela volatilidade das eleições ou por algum soluço lá fora. Pouco de muito risco, muito de zero risco. Assim você surfa e, ao mesmo tempo, se proteger, esperando uma melhor oportunidade de entrar com tudo e ir na jugular.”
“Um pouco frustrante, mas até faz sentido.”
“O investidor quer resolver tudo agora, saber qual a maior oportunidade da vida hoje, neste exato momento. Muitas vezes, porém, tudo bem se o dia tiver 24 horas.”

Devolvendo os ganhos da véspera, mercados brasileiros iniciam a quinta-feira em baixa, pressionados pela frustração com o caminhar da reforma da Previdência. Sinais de que Governo têm menos votos do que anteriormente ventilada dispara maior aversão a risco nesta manhã. Dólar se valoriza contra o real depois de quatro quedas seguidas, acompanhando também movimento no exterior.

Juros futuros sobem em sua ponta longa, depois de decisão do Copom e em meio a dúvidas sobre trajetória fiscal diante de reticência com Previdência. Mais sobre a decisão do colegiado do Banco Central na nota da Marília abaixo.

Selic caiu para 7% e atinge a menor mínima histórica

Ibovespa Futuro registra baixa de 1%, basicamente entregando a alta de ontem, quando fora empurrado por otimismo com as reformas.

Agenda do dia traz IGP-DI e repercussão da decisão do Copom, além, claro, da continuidade das negociações pela Previdência. Nos EUA, temos pedidos de auxílio-desemprego e crédito ao consumidor.

Boa notícia hoje mesmo só para quem comprou umas criptomoedas. Bitcoin agora está ao ritmo de mais mil dólares por dia, já na casa de 15 mil dólares. Se é hora de comprar ou não, se é bolha ou não, como se posicionar em moedas digitais, está tudo aqui no Empiricus Cripto Alert.

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