Em busca da terceira margem do rio

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Em busca da terceira margem do rio

“Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava.

Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento;

e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia,

era só para se despertar de novo, de repente, com a memória,

no passo de outros sobressaltos.”

Trecho de A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa

 

Cuidado. Há um grande inimigo à espreita. Não é daqueles que você pode tocar concretamente ou enxergar no meio do caminho. É tão intenso, porém, que pode-se sentir seu cheiro, notar-lhe em conversas informais, papos de bar ou reuniões de negócios. Cinco minutos – ou apenas um heliponto – já bastam.

O bull market traz consigo um grande problema: a arrogância. A humildade é marcada a mercado, com relação inversamente proporcional à trajetória da cota.

Eu não sei se você investe diretamente em ativos financeiros ou se o faz por meio de fundos de investimento. Talvez sejam as duas coisas ao mesmo tempo – é difícil cabermos em definições; as pessoas verdadeiramente especiais transbordam qualquer possibilidade de caracterização explícita. Elas são uma reunião de atributos e forças tácitos, que só permitem alguma coisa como: “uau”. Como definir uma pessoa por meio de uma palavra?

Não importa muito. Investir direta ou indiretamente, tanto faz. Com grandes lucros no ano, surge a tendência aos super-heróis, certos de serem dotados de algum super-poder, que os permite enxergar o futuro, se acharem geniais, acima do bem e do mal e, claro, humilhar/maltratar as pessoas por aí.

O excesso de confiança em si é a semente para a posterior destruição. O sujeito não vê mais riscos. Ele está convicto de que suas posições serão vencedoras, sem qualquer espaço para sustos ou sobressaltos no meio do caminho. Se acertei tanto no passado, certamente será assim no futuro. A convergência do cenário material para as minhas projeções não se deveu a uma combinação de forças aleatórias que, por influência do acaso, apenas resultou coincidentemente naquilo que eu esperava. Olhando para trás, “só poderia ter sido assim, certo?”

Infelizmente, a história não narra o que poderia ter sido. Apenas o que foi. Essa sensação de que, no passado, pode-se prever o futuro forma uma sensação de onipotência, infalibilidade e invencibilidade. Cria-se a falsa sensação de que podemos nos alavancar, concentrar excessivamente – afinal, sabemos exatamente o que vai acontecer à frente, não é?

O mercado financeiro não pertence aos heróis. Ninguém consegue matar no peito toda a aleatoriedade e a incerteza a que estamos submetidos. O sucesso pertence aos sobreviventes. Eu penso no George Soros, que sobreviveu ao holocausto. Ele diz a todo momento que seu maior mérito não é errar menos do que os outros – é admitir o erro e corrigir rápido.

Pra mim, é o maior investidor de todos os tempos. Eu penso na figura do maior gestor brasileiro. Penso em vários outros grandes ganhadores de dinheiro. Todos eles geniais, mas, acima de tudo, sobreviventes. Eles duvidam de si mesmos – esse é o maior mérito. Saber das próprias limitações. Você precisa ter um pouco de medo, uma desconfiança sobre si que vai empurrá-lo para o adequado gerenciamento de riscos, uma paranoia que não vai te deixar dormir a noite se houver alguma posição fora do lugar.

O arquétipo não pode ser o do herói. O herói é frágil, sozinho, quer matar todo mundo. O herói morre de overdose, excesso de concentração ou alavancagem.

Se você precisa de um arquétipo para servir-lhe de referência imagética, fique com o sábio. Abra a figura do mestre Yoda em seu computador e a deixe salva no desktop. Falo sério mesmo. Aquilo diz muita coisa.

Repare nas duas orelhas grandes e largas, sempre prontas para ouvir – mais do que para falar (perceba a boca pequena). O casaco aberto e o peito pronto para abraçar e acolher novas ideias, sem a teimosia típica daqueles que ouvem apenas a si mesmos. Contemple as unhas grossas e longas, numa importante referência à passagem do tempo, à velhice e à experiência de quem já passou por muita coisa (valorize os verdadeiros praticantes, aqueles que ganham dinheiro há muito tempo, já viram de tudo e sabem os atalhos). Perceba seu cajado, sempre mantendo uma conexão de seu corpo com a terra – é uma espécie de Anteu, o gigante filho de Poseidon e Gaia, que era extremante forte e imbatível, somente, porém, quando em contato com o chão.

Mantenha sempre os pés no chão. Desista dos heróis, inclusive se ele está fantasiado de você mesmo.

Você conseguiria imaginar o mestre Yoda excessivamente concentrado, alavancado, voando de helicóptero pra cima e pra baixo, com 125% do PL em ações, vendido em opções, termado ou qualquer coisa parecida?

No Brasil, quem se alavancou ou concentrou demais ao longo do tempo quebrou ou, no mínimo, flertou com isso, escapou por pouco. Pode ser empresário ou investidor. A conta chega, cedo ou tarde.

Eu acho que investir é mais arte do que ciência, uma necessidade de equilibrar forças ambivalentes, como na vida mesmo em que Apolo e Dionísio tentam se destruir reciprocamente e cabe a nós internamente lidar com isso, fazendo-os conviver em harmonia ou, ao menos, de maneira suportável.

Não dá pra ficar apegado à margem direita achando que tudo vai dar certo. Também fica impossível se nos enraizarmos do outro lado, prevendo só catástrofe. Nem tão confiante, nem tão medroso. O caminho certo é o do meio, portanto? Acho que não. Precisamos mesmo é encontrar a terceira margem do rio.

O rio não tem terceira margem, claro. Ela só existe na nossa cabeça. Para uma mente talebiana, o caminho do meio é ruim. A virtude está justamente nos extremos. Em vez de termos um monte de posições de risco médio achando que, a partir de correlações negativas, chegaremos a um risco consolidado baixo para o portfólio, vamos nos dividir em dois pólos: muita segurança de um lado, e muito risco do outro.

Juntando as duas margens antagônicas, chegamos a uma terceira. É a única forma de nos proteger de nós mesmos, e de gestores acima do bem e do mal.

Recuperando-se do dia mais tenso ontem, mercados brasileiros iniciam a terça-feira mostrando ganhos. Dólar subiu com força na véspera diante da incerteza com o futuro da política monetária nos EUA e com a possibilidade de Donald Trump conseguir impor sua agenda fiscal mais expansionista após avanços no Congresso.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Hoje o clima fica mais leve. Petróleo sobe no exterior e traz prognóstico positivo para emergentes. Cena política é destaque na esfera doméstica, com expectativa por vitória de Michel Temer em torno da segunda denúncia contra si. Fica a dúvida quanto ao placar da votação, que pode servir de sinalizador para a possibilidade de aprovação das reformas fiscais no futuro.

Copom inicia reunião de dois dias, com ampla expectativa de corte de 75 pontos na Selic. Fibria começa temporada de resultados trimestrais, que pode servir de catalisador importante para as ações, a exemplo do ocorrido há três meses.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,35%, dólar cai 0,17% contra o real e juros futuros cedem.

Conteúdo recomendado