Loucura, loucura

Pode até parecer contraintuitivo, mas, no bull market, as maiores multiplicações vêm justamente das companhias problemáticas. Aos poucos, com a eficiência de mercado também chegando às small caps, elas vão retirando a pressão excedente sobre as large caps e subindo com mais vigor.

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Loucura, loucura

“A loucura é relativa. Quem pode definir o que é verdadeiramente são ou insano? Mesmo agora, correndo pelo Central Park, usando roupas roídas de traças e uma máscara de cirurgião, gritando slogans revolucionários e rindo histericamente, ainda me pergunto se o que fiz foi realmente tão irracional. Porque, querido leitor, nem sempre fui este que passou a ser popularmente conhecido ‘o louco de Nova York’, parando a cada lata de lixo para encher minhas bolsas de compras de pedaços de barbante e tampinhas de garrafa. Não, senhor – já fui um médico altamente bem-sucedido, vivendo no quarteirão mais chique do East Side, circulando pela cidade numa Mercedes marrom, elengantérrimo nos tweeds de Ralph Lauren. De fato, é difícil acreditar que eu, dr. Ossip Parkls, outrora um rosto familiar nas estreias de teatro no Sardi’s e no Lincoln Center, homem de infinita sofisticação e imbatível serviço no tênis, seja visto agora patinando pela Broadway, vestido com um camisolão e usando uma máscara do Pluto.”

Esse é o primeiro parágrafo do conto “Que loucura!”, de Woody Allen. Ah, que pena. Mais uma vez acusado de assédio pela filha Dylan Farrow e diante do medíocre “Roda Gigante”, seu mais novo filme, ele está em baixa agora. “Bonds, like men, are in a bear market”, resumiu Bill Gross.

Deixe-me recorrer a argumento de autoridade um pouco mais moderno e na fronteira da tecnologia e do empreendedorismo para trazer o mesmo raciocínio em sua essência:

“Agora chegamos ao ponto em que é preciso se perguntar se o sucesso dele condena a todos nós, que viemos trabalhando em coisas que somam muito mais. Na medida em que o mundo ainda duvida de Elon, acho que esta é uma reflexão sobre a insanidade do mundo, e não sobre a suposta insanidade de Elon.”

Isso é Peter Thiel, fundador do PayPal, falando de Elon Musk.

O texto de hoje é politicamente incorreto. Certamente, não é o primeiro. Provável também que não seja o último. Você dificilmente encontrará a proposição a seguir em livros-textos tradicionais, em cursos de MBA ou no “Valor Econômico”.

Desculpe, mas não me pauto por isso. A discordância em relação a fatos e argumentos de consenso não é forçada. Simplesmente me acontece, como se o esforço de me enquadrar num esquema civilizado e organizado fosse subitamente interrompido por um rompante espontâneo de um pensamento próprio. Não necessariamente original. Definitivamente, não é o caso. Trata-se apenas da combinação de observação empírica com práticas de reais investidores, gente que ganha dinheiro com ações, em vez de montar modelos sem nenhuma exposição àquilo (sell side) ou de dar aulas em faculdades caras, famosas e ruins.

O que minha mãe está lendo por aí?

“Com a queda de juros da economia brasileira, o investidor vai precisar diversificar suas aplicações para a renda variável. Diante do prognóstico de recuperação dos lucros corporativos, manutenção de um ambiente global favorável para mercados emergentes e provável eleição de um candidato reformista, as ações brasileiras podem ter um bom desempenho à frente. Os analistas sugerem selecionar ações de empresas boas, líderes de mercado, pouco endividadas, com alto retorno sobre o capital, margens elevadas, alta barreira à entrada, previsibilidade de resultados, bons dividendos, etc. e tal.”

Pois eu acho que você deve fazer justamente o contrário do proposto na última frase acima. Quer dizer, não exatamente o contrário. Você até pode – e deve – ter uma exposição às blue chips de alta qualidade. Mas entendo que as maiores valorizações à frente estarão nas empresas ruins. Passada a primeira pernada em que os gringos estão comprando tudo o que enxergam pela frente, o que obriga uma concentração nos nomes mais líquidos, a valorização esperada para as small caps e empresas com problemas é, na média, muito maior, sob a hipótese de que estamos mesmo num bull market secular (e eu acho que estamos).

Pode até parecer contraintuitivo, mas, no bull market, as maiores multiplicações vêm justamente das companhias problemáticas.

Primeiro por uma simples questão algébrica. Se Itaú se multiplicar por 10x, ele vira 200% do PIB brasileiro (hipérbole; não fiz a conta). Por construção, as small caps possuem muito mais convexidade do que as large caps. No limite, pense como um pool de startups é bastante convexo – basta uma mini-Google em meio a 100 hamburguerias gourmets (elas já começaram a quebrar?) para você ficar rico.

Depois, não se trata de muita novidade. No fundo, é uma aplicação prática do ultra clássico modelo de três fatores de Fama-French – para os técnicos, é simplesmente um caso particular de um APT (Arbitrage Pricing Theory), em que as variáveis explicativas são o risco de mercado, um fator para capturar o tamanho da companhia e outro relativo a um critério de value investing, normalmente ligado ao preço sobre valor patrimonial; por sua vez, o APT representa uma generalização do CAPM. Fama/French encontraram o resultado de que, no longo prazo, as small caps tendem a oferecer retorno superior às blue chips.

Em complemento, poderíamos tomar emprestado o argumento de Rudi Dornbusch para explicar o overshooting do mercado de câmbio e aplicá-lo ao caso das blue chips contra as small caps. Pense que os dois mercados possuem velocidades diferentes de ajustamento. Como há maior número de investidores, mais informação, mais cobertura de analistas, etc sobre as large caps, somente elas se ajustam ao choque num primeiro momento; só elas se movem para cima. As small caps, inicialmente, continuam paradas. Portanto, é como se, no instante original, as large caps se movessem por elas e também pelas small caps, indo, assim, além do “razoável”.

Aos poucos, com a eficiência de mercado também chegando às small caps, elas vão retirando a pressão excedente sobre as large caps e subindo com mais vigor.

Do ponto de vista prático, porém, gosto mesmo é da abordagem de George Soros, pra mim o maior investidor de todos os tempos.

Quando identifica um ciclo de alta, Soros compra a melhor e a pior ação de determinado setor. Para a melhor, é inexorável aproveitar-se da melhoria de seu segmento de atuação. Como líder e mais rentável, ela acaba sendo uma metonímia da sua indústria – Ambev, por exemplo, quase representa o setor de cervejas no Brasil imageticamente. Mas quem mais vai subir é a pior ação daquele setor, simplesmente porque todos achavam que aquela empresa ia quebrar. Portanto, não valia nada em Bolsa. Agora, todos acham que ela não vai mais quebrar. Então, o que valia zero (hipérbole, de novo) passa a valer alguma coisa. Quando você passa de 0,2 para 1, multiplicou por 5x.

Corolário: tenha sim a maior parte da sua carteira em empresas boas, para poder seguir o discurso politicamente correto e não incorrer em riscos desnecessários. Não vai pegar bem no almoço de família dizer que você está: especulando com ações de Usiminas, surfando o ativismo de importantes investidores cariocas com o ativismo na Bolsa argentina ou montando uma posição em Coteminas.

Mas se essas coisas depois se multiplicarem por algum fator, aí você poderá contar. Só depois. A loucura vai ser transformada em genialidade. É sempre assim.

Separe um tequinho do dinheiro que você ganhou em janeiro e monte uma carteira comprando a pior ação de cada setor listado em Bolsa. Depois que tivermos eleito um candidato reformista para presidente (não vou citar nomes aqui), tudo ficará óbvio. Loucura, loucura!

Depois do frenesi na semana passada, mercados fazem uma pausa na euforia e realizam parte dos lucros. Exterior um pouco mais pesado, em dia de alta dos yields dos Treasuries e do dólar, catalisa pressão vendedora na margem. Agenda econômica da semana é bem pesada, com temor de alguma sinalização mais dura por parte do Fed em sua reunião. Esperam-se também pesquisas eleitorais, as primeiras depois da condenação do ex-presidente Lula em segunda instância.

Agenda local hoje traz relatório Focus, IPC-Fipe, balança comercial e déficit do governo central em 2017. Fibria inaugura safra de resultados trimestrais. Nos EUA, destaque para o PCE, uma das mais importantes referências de inflação.

Ibovespa Futuro cai 0,75%, juros futuros sobem e dólar avança sobre o real.