Capitalismo 4.0: apenas o fim do começo

O capitalismo 4.0 seria mais pragmático, mais engajado, mais cuidadoso com problemas locais, mais baseado em dados, menos apoiado no didatismo e mais apegado à tentativa e erro, à observação empírica, com o teste, os dados e a inteligência artificial cumprindo um papel determinante.

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Capitalismo 4.0: apenas o fim do começo

Alguns estudos parecem já nascer relevantes. Surgem carregados de um brilhantismo intelectual que lhes faz desafiar a lógica daquilo que ficou conhecido como Lindy Effect, que, em linhas gerais, sugere o aumento da expectativa de vida de uma determinada coisa a partir de um certo tempo.

Se um livro está sendo relevante há 100 anos, por exemplo, há uma expectativa de vida maior para ele, comparativamente a um livro apenas uma semana na liderança dos mais vendidos. Contrariando a lei natural da vida, os trabalhos intelectuais tendem a durar mais se resistem à passagem inicial do tempo.

Recentemente, Howard Marks, da Oaktree, soltou um desses documentos, capazes de automaticamente despertar debate por toda a comunidade financeira. Eu dividi aqui algumas de suas preocupações. Era uma tese pessimista, em que ele basicamente alertava para complacência com riscos e valuations excessivamente esticados, em vários locais do mundo, em várias classes de ativos, sem distinção. Segundo ele, esse era um padrão típico de períodos de “exuberância irracional”, que parece totalmente racional quando está em curso.

Poucos percebem a bolha quando ela está em formação e encontram os mais variados e pertinentes argumentos para justificar como “desta vez é diferente”. O resultado final obedeceria ao mesmo padrão de sempre, com a bolha estourando e deixando mazelas importantes aos que desconsideraram a evidência de que a história se repete de tempos em tempos. O corolário prático proposto por Marks apontava a necessidade de reduzir o risco dos portfólios, ao menos na margem, pois não haveria mais a margem de segurança necessária para permanecer tão comprado.

Hoje gostaria de apresentar um contraponto. A tese otimista de Anatole Kaletsky, igualmente brilhante, divulgada em relatório mensal de outubro da Gavekal Research. O argumento central de Kaletsky é de que o longo ciclo positivo para os mercados continua, sendo qualquer espaço para tergiversar apenas um mero soluço, sem afetar a tendência de alta estrutural. Viveríamos apenas o estágio inicial de um bull market secular.

Para fundamentar a tese, o autor resgata elementos essenciais do que vem chamando de Capitalismo 4.0, nome dado a livro de 2010, em que aponta como, após a crise de 2007/08 o modelo de crescimento e desenvolvimento econômico norte-americano, à época atacado e desacreditado, sairia na verdade fortalecido.

Na trajetória histórica, o Capitalismo 1.0 seria representado pelo período de emergência do laissez-faire, do liberalismo econômico clássico, entre 1776 e 1930. Com a eclosão da crise de 1929, surgiu o Capitalismo 2.0, marcado pelo New Deal keynesiano e pela maior intervenção estatal.

Esse período duraria até a década de 70, quando encontraria a reação Reagan-Tatcher em prol da retomada de medidas mais liberais e de maior crença na capacidade dos mercados endereçar, sem influência externa, os problemas de alocação dos recursos escassos. Esse capitalismo 3.0 teria criado as bases de sua própria autodestruição, culminando na globalização financeira e na falta de regulação que viria a desembocar na crise e 2008.

Agora, encontraríamos um novo tipo de capitalismo, diferente da completa desregulação de Tatcher e Reagan e também do excesso de intervenção do keynesianismo clássico. O capitalismo 4.0 seria mais pragmático, mais engajado, mais cuidadoso com problemas locais, mais baseado em dados, menos apoiado no didatismo, em teorias prontas e mais apegado à tentativa e erro, aos praticantes, à observação empírica, com o teste, os dados e a inteligência artificial cumprindo um papel determinante.

Não mais montaríamos teorias a partir do comportamento do consumidor – apenas observaríamos suas próprias preferências e lhe apresentaríamos os produtos conforme ele mesmo se mostra disposto a aceitar. Daí viriam fenômenos típicos como Amazon, Netflix, re-marketing no Google, audiências similares no Facebook, etc.

Do ponto de vista mais pragmático, Kaletsky argumenta que cada uma das preocupações recentes tem sido desativada pela emergência de evidências empíricas. Depois de ser empurrado por medidas anticíclicas, o crescimento do emprego nos EUA engendra uma expansão auto-sustentada (são sete anos de boa evolução do emprego, com o PIB privado norte-americano crescendo cerca de 3% desde 2010, sob decepções vindas apenas do corte do gasto público); o programa de afrouxamento quantitativo feito na Europa, inclusive maior do que o impetrado nos EUA e no Japão, salvou a região de um grande colapso e hoje a recuperação da atividade industrial na Zona do Euro supera qualquer previsão, com o índice de surpresas Citibank Economic Surprise Index próximo à sua máxima desde 2012; as taxas de juro em nível global se mantêm bastante baixas para padrões históricas, sem que haja pressões inflacionárias em vista; o petróleo parece encontrar um topo (e não um piso) perto de US$ 50/barril, liberando cerca de US$ 2 trilhões para o consumo em esfera global; a China passa por uma desaceleração e não por um colapso, com sua indústria crescendo ao impressionante ritmo de 15% ao ano neste momento.

Tudo isso num ambiente em que o dólar se mantém muito valorizado perante as demais moedas (cálculos do BIS, relativamente aos índices de preços ao consumidor) e as ações fora dos EUA aparecem, em dólar, em níveis muito aquém de seus recordes históricos, inclusive em níveis inferiores ao observado em 2009, sendo a América Latina a região de maior defasagem.

Existe uma preocupação inicial com os níveis de dívida e de crescimento do crédito, principalmente na China, mas a mensagem geral ainda é claramente positiva.

A parte ruim de você ler teses de pessoas muito mais inteligentes é que você acaba concordando com várias delas, sendo que, em muitas situações, uma representa a antítese da outra.

Sem uma surpresa no caminho, as coisas devem mesmo caminhar exatamente como sugere Anatole Kaletsky. Até que aconteça uma ruptura que faça tudo ir pelos ares, exatamente como sugere Howark Marks.

Como transitar diante de tal panorama?

Os estudos podem ser novos, mas, pragmaticamente, a prescrição é rigorosamente a mesma dos últimos meses: vamos nos manter comprados, com alocação em ativos de risco acima da média, acumulando seguros contra explosões sempre que pudermos. Se tiver um lucro aqui ou ali acima do esperado, destine uma parte disso para a compra de proteção.

Se a volatilidade estiver muito baixa e os seguros forem-lhe apresentados muito baratos, encha o carrinho. Para surfar todas as benesses de um veículo 4.0, você precisa estar bem assegurado.Carteira Empiricus está posicionada exatamente dessa forma.

O clima positivo continua ao menos internamente na manhã desta terça-feira. Exterior é tomado por certa apatia, com feriado na China retirando a referência das commodities. Os drivers são mais locais, ao menos por enquanto.

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