Brilho eterno de uma mente sem lembranças

No dia em que mais se fala de economizar, quero falar de construir, de rentabilidade, de aumentar o patrimônio.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Não vou falar muito da Black Friday. Acho cafona. Nunca acreditei que nosso vazio existencial pudesse ser preenchido pelo consumismo. E quando a conversa vira “consumir com desconto”, o desinteresse aumenta.

Só ouço clichês sobre a sexta-feira em que as varejistas saem do vermelho. Tenho bode de gente que repete frases feitas pagando de inteligentão. Jantares descolados regados a Chateau Margaux e papos cabeça? Dispenso. Melhor: dispenso o papo, corto as cabeças, fico com o vinho só pra mim.

O consumo – no sentido da compra, não da leitura – dos relatórios da Empiricus, com desconto ou não, nunca me interessou muito. Falo de verdade. O que mexe com a minha alma é a relação que construi e construo a cada dia com os leitores. O fato de podermos observar real mudança de comportamento, sem suposições teóricas ou discurso politicamente correto, cutuca as vísceras. Nossa raison d’être. O resto é… bom, o resto.

Leia mais: 10 dicas para não cair em armadilhas no Black Friday

Quebrei três vezes ao longo da vida. Duas delas como família, ainda quando era adolescente. A outra por conta própria, que foi a mais inexpressiva financeiramente, mas talvez a mais impactante para minhas emoções.

Ainda lembro daquele lazarento, o Bigode. Ele ficava dentro de um circo na praia das Pitangueiras no Guarujá. Coordenava uma roleta de times de futebol, em que você colocava o quanto gostaria de apostar no escudo da equipe de sua preferência. Ele girava a roleta e, se parasse no seu preferido, ganhava-se o valor da aposta. Como a roleta tinha alguns pontos coringas (sem escudo nenhum), as chances da banca eram obviamente maiores. No longo prazo, convergimos para a lei dos grandes números. Definitivamente, não era uma fase boa do Coringão. E aquele Bigode, ah, eu desconfio que era o Belchior disfarçado.

Perdi toda a grana do feriado na droga daquela roleta – por que pode roleta e não pode cassino? Sei lá, fato é que meu 12 de outubro acabara ali. Não era muito dinheiro, mas era o que eu tinha, sabe?

Foram algumas notas com desenho de peixe embora, junto com a esperança de poder encontrar a Flávia no camarote do Havelinos. Só sobrevivi incentivado pelo afogamento das mágoas numa garrafa que por sorte encontrei nos armários do apartamento alugado. Sonhamos com Margaux, encontramos a Chapinha. E o pior: estava maravilhosa.

É horrível quebrar. Queria apagar aquilo da minha memória, ao melhor estilo Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Não consigo, uma pena.

Senti na pele essa sensação terrível algumas vezes e talvez por isso empenhe uma perseguição implacável pela preservação do patrimônio dos clientes. A primeira coisa para ser bem sucedido financeiramente é sobreviver. Esse é o lema maior aqui. Nunca se esqueça: só há uma definição possível de racionalidade e ela se liga à sobrevivência.

Acho que dai deriva a obstinação por proteções, pela não alavancagem, pela diversificação, por permitir-me incorrer no erro tipo II (nunca no erro tipo I). E também por me punir emocionalmente em cada vez que faço nossos assinantes perderem dinheiro – sim, nós erramos para caramba também; nessa semana mesmo, fiquei péssimo vendo as WIZS3 caindo 14%. A coisa me pega lá dentrão.

No geral, porém, tenho a alma acalentada pela satisfação dos assinantes. Não ligo para a opinião da imprensa ou da Apimec sobre a Empiricus – sendo bem sincero, até gostaria que as coisas fossem diferentes, que se dispusessem a olhar para a situação e a disrupção com profundidade, sem preconceitos, considerando os dois lados da história. Mas paciência. Aprendi a lidar e, depois de muita porrada, a apanhar sem reclamar. O estoicismo é como a coragem ou a originalidade, não vem de nascença. Você vai construindo, muitas vezes sem perceber.

Quem pode falar mal de um restaurante é quem comeu ali. Quem pode criticar um livro é quem leu. Quem pode julgar a Empiricus são seus assinantes. Felizmente, esses parecem estar satisfeitos e, mais importante, com um patrimônio maior neste ano.

Não é todo mundo, claro. Nem é sempre. Cometemos um monte de erros e há uma avenida imensa para melhorar. Imitando Ray Dalio, e obviamente não estou me comparando, mas apenas pegando a frase de efeito, sou um cometedor profissional de erros em série.

Há muito a melhorar na nossa tecnologia, com a adoção definitiva da inteligência artificial, do big data e da quarta revolução industrial. Se queremos fazer uma nova disrupção, havemos de embarcar de maneira mais categórica no mundo das fintechs – precisamos desse novo passo. (Agora, felizmente já posso dizer que temos um App e há um novo sendo feito, esse sim do jeito que vocês merecem).

Temos de evoluir também em processos internos e na governança aqui dentro – estamos trabalhando nisso. Há ajustes a se fazer no marketing e, até dentro da área de research, reconhecidamente boa mesmo pelos maiores detratores (pragmaticamente, não é isso que mais deveria importar?), precisamos evoluir.

Todas essas coisas me incomodam, profundamente. Mas chego aqui às 7h da manhã feliz por uma razão: fazemos nossos leitores melhores, mais ricos e satisfeitos.

No dia em que mais se fala de economizar, quero falar de construir, de rentabilidade, de aumentar o patrimônio. Mais especificamente, quero falar da Carteira Empiricus, relatório que ajudo a escrever (embora os méritos do Ruy e do João sejam muito maiores) e que se pretende um guia completo para o investidor (“All Weather Portfolio”, para copiar o Ray Dalio de novo). Essa Carteira rende um pouco mais de 19% neste ano, acima de 200% do CDI.

Como chegamos nesse resultado, muito superior até mesmo às nossas próprias pretensões em janeiro? Por meio de uma aposta mais pesada em Bolsa e em juro longo, calibrada com uma série de proteções que nos permitiu atravessar com certa resiliência e tranquilidade mesmo os momentos mais duros.

Mantivemo-nos fiéis ao método de tail hedging e à perseguição implacável por assimetrias em todos os momentos do ano. Foi isso que nos permitiu passar tranquilos pelo evento Joesley e mais recentemente pela turbulência de outubro/novembro. No JBS-Gate, vimos puts (opções de venda) fora do dinheiro de BBAS subindo 800%. No escândalo da carne fraca, multiplicamos algumas vezes com proteções sobre BRF. E agora voltamos a fazer um bom dinheiro com puts de BB.

Assim continuamos neste momento, com uma aposta pesada em ações, muito superior à média dos alocadores.

Há uma afirmação recorrente de que a Bolsa brasileira perde da renda fixa no passado. Funcionaria assim: “se você pegar o Ibovespa contra o IMA-B nos últimos 10 anos, vai ver esse último ganhando de levada. Então, a melhora aposta no Brasil é a renda fixa, não as ações.”

Não poderia discordar mais. Desconfio que o fato de ter feito Sol ontem não indica que necessariamente vai fazer Sol de novo hoje. O princípio da indução não vale para os investimentos. Não é porque foi assim no ciclo anterior que também será assim à frente.

Os mercados – e o capitalismo como um todo – andam em grandes ciclos. O famoso boom and bust de George Soros. A Bolsa pode ter perdido da NTN-B nos últimos 10 anos. Mas se pegarmos janelas de 2003 a 2007, ou em momentos longos da década de 90, a coisa se inverte. Em qual momento do ciclo estamos agora? Essa é a pergunta certa. E não custa dizer que o juro agora está em 7% e deve continuar baixo por mais tempo – mesmo que a maior importância não seja o juro de curto prazo, mesmo os prazos mais longos devem ser inferiores à média dos últimos 10 anos.

Mas é ainda mais curioso que o argumento não oferece coerência interna. Se a janela dos últimos 10 anos servisse de guia para balizar nossos investimentos atuais (reitero: ela não serve), o melhor ativo no Brasil para se ter seria imóveis, não renda fixa. O Ifix supera o IMA-B desde sua criação em termos líquidos.

Arremato o argumento central: o mundo das companhias disruptivas, da 4a revolução industrial e da inteligência artificial representa a vitória dos empreendedores. Portanto, precisa significar necessariamente uma vitória das empresas e de suas ações listadas em Bolsa.

O mercado, com seus ciclos de expansão e destruição, é uma eterna mudança, não um retrato estático do passado que pode ser transposto para o futuro. É a vitória de Heráclito sobre Parmênides. Da mesma forma que você não pode entrar no mesmo rio duas vezes (sempre será uma água nova), não se pode encontrar as mesmas condições para os investimentos de 10 anos atrás.

Sexta-feira começa com alguma morosidade, diante de mercados fechando mais cedo nos EUA ainda sob emenda do feriado de Ação de Graças. Agenda é fraca lá fora, contando apenas com PMI/Markit norte-americano.

Aqui, gera certo desconforto a falta de apoio à Previdência. Jornais colocam dúvida sobre capacidade de aprovação no início de dezembro e jogam um pouco de água no chopp. Vinha se formando um maior otimismo nos últimos dias.

Commodities se valorizam no exterior, com petróleo empurrado por perspectiva de menor oferta e minério de ferro estendendo ganhos na China. Ibovespa Futuro pega carona na valorização das matérias-primas e abre em ligeira alta de 0,1%, embora mostre fraqueza.

Agenda local oferece dados de crédito, IPC-Fipe (+0,32%), arrecadação federal e definição de bandeira tarifária.

Dólar e juros futuros apresentam alta.

Conteúdo recomendado