E quando você vacilar?

Do meu lado, acho os COEs, em geral, um produto muito atraente para as pessoas físicas. Claro que não são todos. Mas a ideia tem tudo a ver com o que nos propomos a fazer aqui: controlar o downside (as perdas) e se expor a um grande upside (os lucros).

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E quando você vacilar?

“Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco

(…)

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila.”
Quando o amor vacila

Na sexta-feira passada, venceu o famigerado “COE Empiricus de Petrobras e Vale”, recomendado no Palavra do Estrategista um ano atrás. Caso não tenha acompanhado a discussão à época, foi ele que me rendeu mais uma matéria elogiosa (?) pela imprensa especializada (?).

A imagem abaixo ajuda a refrescar a memória:

Destaco mais um trecho:

“Um grupo de advogados de um grande escritório especializado em mercado de capitais aponta que a Empiricus pode ter violado artigos tanto da instrução CVM 483 quanto da 400.(…) A interpretação dos advogados é que o conteúdo apresentado vai além daquele que seria típico de análise de valores mobiliários. ‘Identificamos informações típicas de oferta: datas de início e encerramento do período de reserva, aplicação mínima, orientação para abertura de contas e indicação de links para acesso às páginas de distribuição das corretoras.”

Passados 12 meses, como ficou quem investiu nesse COE?

A recomendação rendeu um lucro de 17%, contra 8,9% do CDI. Ou seja, 190,4% do benchmark sem risco de perda nominal.

Agora, posso afirmar com o benefício da retrospectiva. Todos os envolvidos no episódio ganharam dinheiro. O banco estruturador, as corretoras que atuaram na distribuição e, muito mais importante, claro, os assinantes que seguiram a sugestão de investir no COE. Eu ganhei uma matéria negativa no jornal.

Fico me perguntando onde estaria esse “grupo de advogados de um grande escritório especializado em mercado de capitais”, esse mesmo que fala à imprensa sem se identificar e, claro, também sem ganhar nada por isso, após vasculhar eventuais (e infundadas) irregularidades no processo. Como tratar de uma oferta sem falar dos dados da operação? Seria como tratar de um IPO sem mencionar o período de reservas da respectiva ação. Isso, sim, seria irresponsável e inadequado.

Noutro dia, a Luciana Seabra e eu almoçamos com dois experientes repórteres da Bloomberg, cujos nomes mantenho em sigilo simplesmente por não saber se eles mesmo se sentiriam confortáveis em aparecer por aqui. Eles me deram uma aula de jornalismo ao dizer algo mais ou menos assim: “Se for para criticar alguém, tudo precisa estar em ‘on’. A fonte precisa estar explícita. Como saber os interesses por trás de quem está criticando e se esconde por meio do anonimato?”.

Seria bom se todos fossem assim. Nem falo tanto pela Empiricus. A matéria em si não mudou nada para a gente em termos práticos. Talvez até tenha servido de combustível para que obedecêssemos com ainda mais afinco nossa vocação, exatamente como acontece a cada vez que se amplia a fila de inimigos. Mais forte a cada porrada.

A parte ruim desse rebuliço foi que o mercado de capitais brasileiro saiu perdendo. Depois dessa “triangulação inusitada”, a CVM colocou em audiência pública a nova 483. Entre os pontos discutidos, está a participação ou não dos analistas no debate sobre estruturação de produtos. O tal “grupo de advogados de um grande escritório” pode conseguir que os analistas não possam mais dar boas ideias de investimento aos clientes que envolvem a montagem de novos produtos, exatamente como foi o caso em questão.

Trata-se de um despropósito. Quem mais vai ter boas ideias de estruturas de investimento são justamente aqueles com alta capacidade analítica, aqueles que vasculham oportunidades 24 horas por dia. Eles sabem as necessidades de seus clientes. Se estiverem alijados da possibilidade de contribuir com o debate sobre a montagem de produtos, quem sai perdendo é o investidor, que não terá acesso a essas boas ideias.

Do meu lado, acho os COEs, em geral, produtos muito atraentes para as pessoas físicas. Claro que não são todos. E é claro também que bancos estruturadores e corretoras muitas vezes esfolam o investidor com taxas abusivas. Mas a ideia tem tudo a ver com o que nos propomos a fazer aqui: controlar o downside (as perdas) e se expor a um grande upside (os lucros).

Estamos umbilicalmente ligados à antifragilidade de Nassim Taleb aqui. E quando falo “umbilicalmente” remeto à etimologia da coisa mesmo, sem qualquer caráter hiperbólico. A Empiricus nasceu como uma homenagem a Sextus Empiricus, um dos precursores da escola cética, e à Empirica, de Taleb.

Uma das definições de antifragilidade se liga justamente à ideia subjacente aos COEs: perdas pequenas e limitadas no caso de materialização do cenário negativo, ganhos altos no caso positivo.

É por isso que eu, no geral, amo estruturas com perfil de retorno semelhante ao COE, que protege o investidor de perdas nominais e o expõe a um maior upside. Eu o amo não apenas pelos ganhos que oferece. Mas eu o amo “até pelo que ele poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse o banho nas águas do equívoco” – e aqui, num momento de angústia, sou capaz de ouvir a voz emocionada da Maria Bethânia dizendo essas palavras em “Quando o amor vacila”.

Essa poesia transforma a aflição na calma e na paz que eu mereço. Voltando ao mesmo poema, “eu sei que atrás deste universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada.”

Então, estou aqui hoje respondendo a todos aqueles que me pediram um novo COE para investir com o dinheiro que ganharam no anterior.

Há uma boa e uma má notícia.

Começo pela ruim. Diante do vácuo regulatório existente hoje, eu nem sequer sou capaz de saber se posso recomendar um novo COE cuja estrutura da ideia venha de mim.

A boa é que não dependemos de ninguém para montar uma estrutura de retorno de capital protegido, semelhante àquela apresentada pelo “COE Empiricus de Petrobras e Vale” – sim, eu investiria nele novamente se nos fosse dada a oportunidade. Ao menos isso eu posso falar, não?

Então, fica assim:

i. Compre ações de Petrobras (PETR4) e, ao mesmo tempo, a mesma quantidade de puts (opções de venda) sobre as respectivas ações com strike entre 0 e 5% fora do dinheiro.
ii. Compre ações de Vale (VALE3) e, ao mesmo tempo, a mesma quantidade de puts (opções de venda) sobre as respectivas ações com strike entre 0 e 5% fora do dinheiro.

Assim, você terá uma estrutural de capital protegido, antifrágil, semelhante àquela do COE. Se você não tem familiaridade com opções, aqui está um material totalmente gratuito para ajudá-lo nesse processo. Simples, fácil e prático.

Como estou otimista com Petrobras e Vale neste momento, faz sentido uma exposição ativa nesses papéis. O mais interessante, porém, é que, a partir da estrutura aqui sugerida, você não vai ter um grande prejuízo se elas vacilarem nos próximos 12 meses.

Mercados iniciam a semana ainda um tanto desconfortáveis com o aumento de tarifas anunciado por Donald Trump. Crescimento de grupos anti-establishment em eleição parlamentar na Itália impede também maior disposição a risco. Petróleo sobe com paralisação de campo na Líbia.

Por aqui, desdobramento da Operação Carne Fraca pode pesar sobre ações de BRF, com ex-presidente da companhia sendo preso pela PF. Momento já era delicado para a companhia e pode exercer pressão adicional no curto prazo, ao mesmo tempo em que pode também acelerar mudanças no Conselho e no management.

Na agenda, relatório Focus revisou para baixo estimativas para IPCA 2019, o que se soma a comentários de Ilan Goldfajn destacando inflação abaixo das expectativas para empurrar para baixo juros futuros. Cada vez mais parece haver espaço para uma taxa Selic ainda menor e sem aumentos no horizonte tangível.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,3%, dólar sobe contra o real e juros futuros recuam.