Tupi or not tupi: devemos assumir nossa vocação de commodities?

De forma mais objetiva, apresento duas ideias para compor o racional de termos alguma exposição a commodities sem incorrer em riscos excessivos.

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Tupi or not tupi: devemos assumir nossa vocação de commodities?

Eu tenho medo. E acho que você deveria ter medo também. O medo é a manifestação de seu instinto de sobrevivência – a esta altura, talvez você já saiba que a única definição de racionalidade aceita por essas bandas se liga ao esforço para se manter vivo.

É o medo que vai permitir ao investidor calibrar adequadamente suas posições, proteger-se, diversificar, evitar riscos desnecessários. Ao longo da história no Brasil, os alavancados ficaram pelo caminho. O pior de tudo: talvez sua saúde financeira subtraia um teco de sua saúde mental. Um pouco de paranoia acaba sendo necessário, sabe? Num mercado ciclotímico, de tempos em tempos as coisas vão mesmo dar errado, muito errado.

Eu tenho medo do incognoscível, do desconhecido, da efemeridade da vida. Tenho medo de que alguma coisa ruim aconteça ao João Pedro e à minha mãe. Tenho medo de galinha também – já me disseram que é porque sou filho de Oxossi, vai saber… Tenho medo de que, subitamente, algum cisne negro nos ocorra e voltemos ao período das vacas magras – com certas coisas, a gente se acostuma muito rápido. Passei a ter medo de avião desde que me tornei pai. Tenho medo de que entreguemos todo nosso track record diante de uma breve abaixada de guarda – mesmo os lutadores mais fortes cansam seus braços e ombros após combates muito longos com a guarda alta, por mais que finjam-se impávidos que nem Muhammad Ali. Tenho medo de que fiquemos para trás em 2018.

Como seria isso?

Embora os ativos de risco como um todo estejam com desempenho estelar neste início de ano, sejamos sinceros: há um domínio completo das commodities. As ações de empresas ligadas às matérias-primas têm sido o grande destaque, por larga folga, até aqui.

Se vai continuar assim ou não, simplesmente não sabemos. Ninguém sabe. Claro que existe o grupo que acha que sabe, que na verdade é o mais perigoso. O ponto nevrálgico é que, no geral, nossas carteiras não estão posicionadas pesadamente em commodities. As teses principais se ligam à recuperação da economia doméstica, consumo, infraestrutura, melhora de governança, alavancagem operacional e, principalmente, previsibilidade de resultados.

Commodity é complicado porque você nunca sabe o ponto do ciclo em que está. De repente, aquela barganha de 8x lucros vira 16x simplesmente porque o minério, o petróleo ou outro metal caiu pela metade. Value ou value trap? Difícil saber…

Você pode controlar os fatores micro, buscar o low cost producer desalavancado e se expor àquilo. No final do dia, porém, o que vai mesmo determinar a maior parte do desempenho da respectiva ação é o preço da commodity subjacente – e para essa variável, amigo, temos pouco poder preditivo.

Por uma simples aplicação da lógica, ninguém pode ter edge para prever preço de commodity. Isso se liga fundamentalmente às condições de liquidez e de crescimento da economia global, sobre as quais se debruça o escrutínio de centenas, talvez milhares, das mentes mais brilhantes do mundo. Achar que um de nós pode tecer comentários mais perspicazes do que o consenso sobre essas variáveis requer uma arrogância epistemológica que não conseguimos atingir por aqui.

Por isso, em nome da maior previsibilidade, relutamos um pouco em carregar a mão em ações de commodities, ainda que isso, nos grandes ciclos, possa nos impor underperformance sobre os principais índices.

Mas não estou aqui para justificar potenciais derrotas futuras sobre o benchmark. A questão é outra. Pragmaticamente, há uma probabilidade não desprezível de que estejamos na iminência de um novo grande ciclo de commodities.

A economia global vive o chamado “crescimento sincronizado”, com belo ritmo de expansão dos PMIs de todas (ou quase todas) economias desenvolvidas. A China, que vinha sendo motivo de preocupação, endereçou ao menos parte de seus problemas e reduziu o temor de exportar inflação por conta de pressão interna de salários ao transferir boa parte da produção de manufaturas para Miamar, Vietnã, Índia e outros. Os EUA estão simplesmente voando e podem acelerar o ritmo diante da reforma fiscal, enquanto a Europa, que patinava há uns dois séculos, volta a crescer com força.

Em paralelo, em que pesem subidas pontuais de taxas de juro, a liquidez global continua gigantesca (e esse sempre foi um driver importante para preços de matérias-primas) e a inflação mundial tem sistematicamente surpreendido para baixo, inclusive desafiando modelos e testando os limites da curva de Phillips.

A pergunta prática é: diante do exposto e do risco de ficarmos para trás, devemos aumentar nossa exposição às commodities?

Há dois extremos aqui.

Num polo, podemos simplesmente deixar isso passar. Não estamos aqui necessariamente para brigar contra um índice específico. Queremos uma construção sólida de patrimônio a longo prazo e, sabedores de que não disputamos uma regada, podemos nos permitir erros do tipo 2. Se as commodities voarem mesmo, perderemos para o Ibovespa, mas ainda assim teremos ganhos em nossas posições. Matérias-primas em alta significam bom apetite para mercados emergentes, balança comercial forte, prêmios de risco comprimidos, economia mundial crescendo e por aí vai. Ou seja, mesmo que em menor dimensão, os nomes cíclicos domésticos também vão apresentar valorização e isso pode ser suficiente.

Do outro lado, há aqueles que podem se sentir muito atraídos pela possibilidade de multiplicação decorrente do potencial novo ciclo de commodities – basta pegar os ciclos anteriores para verificar o quão significativa pode ser a transformação de capital se estivermos no cavalo certo, na hora certa.

Não julgo nenhuma das duas posturas. Mesmo. Ambas parecem fazer sentido. A primeira é apenas uma jogada mais conservadora. Já a segunda, embora mais arriscada, de fato, encontra boas justificativas na fotografia da economia global.

Talvez, porém, haja um caminho do meio. Nem calça de veludo, nem bunda de fora. Podemos ter alguma exposição a commodities sem incorrer em riscos excessivos, montando uma posição ativa, direta ou indiretamente, em matérias-primas ao mesmo tempo em que compramos seguros contra essa exposição.

De forma mais objetiva, apresento duas ideias para compor o racional – pra mim, nada tem mais valor do que a ideia; o resto é apenas….bom…. o resto.

i. Você pode selecionar uma boa empresa de commodity (Ex.: Vale ou Fibria) e comprar puts (opções de venda) fora do dinheiro sobre aquela ação. Assim, você gasta um pouco de dinheiro na aquisição da put, mas está protegido no caso da ação derreter, podendo vendê-la ao preço de exercício da respectiva opção. Ou seja, limita seu downside. Ao mesmo tempo, pode surfar o potencial de valorização caso, de fato, estejamos num ciclo de alta.

ii. Você monta uma posição em commodity, que acaba sendo uma proxy para o apetite sobre mercados emergentes e ativos de risco em geral, e compra um pouco de dólar também. Aliás, tenho achado a recomendação de dólar bastante interessante para este ano. Selic vai a 6,5% ao ano, contra um juro de mercado de 2% nos EUA. Como real já se valorizou bem neste começo de 2018, talvez dólar possa ser um hedge barato e um belo instrumento de diversificação.

Neste verão, safe sex or no sex at all.

Dando continuidade ao seu movimento unidirecional, mercados têm mais um início de pregão positivo, resistindo à pressão por realização de lucros. CDS brasileiro na mínima e desistência de se alterar regra de ouro fiscal geram algum otimismo, embora as variações sejam bastante comedidas.

Petróleo sobe e se mantém acima de 62 dólares por barril com expectativa de queda dos estoques nos EUA. Minério de ferro se valoriza na China empurrado por prognóstico de retomada da produção de aço.

Agenda doméstica traz IGP-DI em alta de 0,74%, contra prognóstico de 0,81, e vendas ao varejo subindo 0,7%, também um pouco acima do esperado. Lá fora, destaque para inflação na China, a ser divulgada à noite.

Ibovespa Futuro tem leve alta de 0,05%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

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