Como investir com muito risco

Goleiro bom também tem de ter sorte.

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Como investir com muito risco

Ontem comprei um punhado de bitcoins. Sem metáforas ou brincadeiras, apenas o fato. Ainda quero adquirir ethereum, mas um passo de cada vez.

Não acho que você tenha interesse em minhas movimentações particulares. Eu mesmo quase que não tenho. Narro o investimento, se é que posso chamá-lo assim, apenas para dar transparência às coisas e também para poder lhe transmitir as razões que levaram à decisão.

As linhas a seguir descrevem como eu enxergo as criptomoedas e, humildemente, imagino que talvez seja também uma forma útil de você mesmo enxergá-las. Trata-se de uma proposição feita para o caso particular dos bitcoins, mas pode ser levada ao geral, como uma maneira sistematizada de atuação em ativos de risco.

Se tivesse de resumir tudo em uma única palavra, seria: convexidade. Eu não apenas proponho que você adote essa filosofia em seus investimentos. Eu vivo isso e aplico sistematicamente, mesmo em ambientes alheios às finanças.

Minha decisão de comprar bitcoins decorre, quase integralmente, da percepção de que posso ganhar muito mais do que posso perder. No máximo, meu prejuízo está limitado a 100 por cento do capital aplicado – e sim, você deve estar ciente de que existe uma probabilidade material de que esse tipo de perda venha a se concretizar. Em contrapartida, esse negócio pode subir 100, 200, 1.000, 5.000 por cento. Não estou dizendo que vai subir. Apenas que pode.

Eu não sei se vai mesmo subir. Não faço a menor ideia. Sinceramente, cá entre nós, acho que ninguém sabe. Não estamos aqui para entender o mundo, mas para viver num mundo que não entendemos. Eis a proposta ontológica a que me proponho. Eles nem desconfiam, mas estão em desvantagem aqueles que acham que sabem de alguma coisa.

Da minha parte, pelo pouco (e eu falo com toda a sinceridade do mundo: pouco mesmo) que pude estudar, não encontro hoje maior convexidade (potencial de ganho muito maior do que de perda), mais entre ativos financeiros do que nas criptomoedas.

Ou seja, elas me parecem encaixar bem dentro da sua parcela de ativos dedicados a incorrer em muito risco, com a contrapartida, claro, de alto retorno potencial. Enquadram-se com propriedade para aquele polo de seu portfólio em que Nassim Taleb recomenda-nos alocar a partir da estratégia 1/N. Destine um pequeno percentual de seu portfólio a ativos ultra-arriscados; esteja seguro de que eles ofereçam uma matriz de retornos convexa (podem subir muito mais do que podem cair); distribua em vários ativos, da maneira mais diversificada possível, o capital total destinado aos ativos de risco – isso é apenas um corolário da aplicação algébrica da convexidade: se os ativos podem subir muito mais do que podem cair, então basta você pegar uma grande multiplicação para compensar suas perdas. Uma única alta de 5.000 por cento vai sobrepujar várias perdas de 100 por cento.

Obviamente, não podemos saber ex-ante qual ativo vai subir 5.000 por cento – se tivéssemos certeza, concentraríamos nele. Como ainda não dispomos de bola de cristal, a maneira mais eficiente de você ampliar as suas chances de capturar uma supermultiplicação é por meio da diversificação. Um mini-Google em sua carteira compensa 499 paletas mexicanas.

Com esse preâmbulo, imagino já conseguir rebater dois fatos estilizados sobre as criptomoedas. Eles me incomodam bastante, porque são dois mega lugares-comuns. Têm aparecido com frequência por aí, como coisas pseudointeligentes, mas que na verdade são mega clichês. Ouço essas coisas e logo sou remetido àqueles diálogos que você trava com um interlocutor que decorou uma ou duas frases do Nietzsche e as cospe em você, como se fosse profundo conhecedor daquilo. O especialista após leitura de 15 minutos. Depois do Google, todo mundo é inteligente.

A primeira delas: bitcoin é muito arriscado?

Olhando isoladamente, é claro que sim. Não é nada mais óbvio do que isso. “Tome cuidado com a volatilidade e os riscos das criptomoedas.” Sinceramente, existe alguém comprando isso achando que é renda fixa? Ao se analisar a compra de moedas digitais per se, é quase tautológico dizer que há risco relevante de perda definitiva do capital. Desculpe, mas isso não é nada inteligente. O João Pedro sabe disso.

Agora, se você calibrar para o tamanho da aposta, ciente de que, sim, você pode perder 100 por cento do capital investido, apenas querendo participar de um jogo cuja matriz de retornos é favoravelmente assimétrica, aquilo é zero arriscado. Você sabe exatamente quais são as regras e está disposto a participar.

Seu portfólio precisa de algum percentual, mesmo que ínfimo, de ativos de alto risco. Se você estiver pequeno neles, aquilo não lhe representa risco material para seu portfólio como um todo. No meu caso, por exemplo, o investimento (desculpe pela imprecisão do termo; “aposta” talvez fosse um vocábulo mais rigoroso para descrever o que está na minha cabeça) representa 0,7 por cento de meus ativos líquidos. Se eu perder 0,7 por cento, ainda poderei sobreviver.

Sou um grande defensor de que o investidor jamais olhe posições isoladas, mas que entenda o papel que cada uma delas desempenhe em seu portfólio como um todo.

Por exemplo: eu recomendo que você tenha 30 por cento de seu capital em ações neste momento. E, ao mesmo tempo, sugiro que compre algumas puts (opções de venda) sobre ações fora do dinheiro. Se olhar para uma dessas posições isoladamente, talvez não encontre sentido algum. Mas se entendê-las conjuntamente, a coisa fecha. Não faz sentido ser diferente.

O outro clichê que gostaria de refutar: bitcoin é uma bolha?

As criptomoedas não são empresas. A elas, não está associado um fluxo de caixa de hoje até o infinito, que você pode trazer a valor presente por uma taxa de desconto apropriada. Algumas pessoas querem comparar as moedas digitais à bolha pontocom no início dos anos 2000. Acho a tentativa inadequada, pois naquela situação falávamos de empresas, agora de moedas.

Se o valuation de companhias normalmente está associado ao fluxo de caixa, uma moeda não dispõe dessa prerrogativa. Não há valuation a se tirar daí. Seu valor depende muito mais de externalidade de rede, de uma gradual ou súbita confiança que as pessoas venham a desenvolver naquilo, e da aceitação geral.

Em outras palavras, se não há métrica de valuation para os bitcoins, não se pode, por dedução lógica, afirmar tratar-se de uma bolha, normalmente associada a situações em que os preços estão além de um valuation razoável. Se não temos referencial para comparar, pode ser qualquer coisa.

De novo, nós não sabemos. Pode ser bolha? Sim, certamente. Entenda isso. E também pode não ser. Se for, você vai perder 100 por cento. Se não for ou se ela estiver só começando, você pode ganhar muito mais do que isso. Essas são as regras. Entre no jogo sabendo o regulamento.

Última coisa sobre a decisão de comprar criptomoedas. Eu vejo isso como uma aposta nas caudas (buy the tails!). Se continuar um mega bull market e a complacência com riscos, esse negócio deve seguir subindo, exatamente como tem sido. Já se a economia global abandonar a recente recuperação da atividade, os Bancos Centrais voltarão a emitir moeda – sob a divisa fiduciária em xeque, as digitais podem ganhar espaço. E ainda há um hedge contra um cenário meio louco e futurista, que pode ser uma viagem, mas me assusta: e se subitamente tudo virar digital e a moeda fiduciária clássica estiver em desuso? Então, tudo que acumulei na vida valerá zero. Embora improvável, deixe-me proteger disso também. Sabe-se lá o que vai ser do mundo em 2045.

Se a turma da Singularity estiver certa, nós não vamos mais morrer e estaremos conectados à inteligência artificial. A morte da moeda fiduciária seria coisa pouca perto disso.

Se há uma vantagem epistemológica aqui na Empiricus é que nós sabemos que não sabemos nada.

Voltando ao bom 2017, mercados iniciam a terça-feira em forte alta. A decisão da PGR de revisar delação de executivos da JBS dispersa aversão a risco e empurra investidores às compras. Michel Temer sai fortalecido politicamente. Talvez nem haja uma segunda denúncia de Rodrigo Janot contra o presidente da República, que segue no cargo e pode voltar a discutir a agenda de reformas.

Prêmios de risco reagem com vigor à notícia. Goleiro bom também tem de ter sorte. Juros longos caem vigorosamente.

Agenda doméstica trouxe alta de 0,8 por cento da produção industrial em julho, contra prognóstico de avanço de 0,4 por cento, dando materialidade ao prognóstico recente de recuperação da atividade em ritmo mais forte do que se supunha. Cria panorama favorável para lucros corporativos e para a Bolsa em geral.

Reunião do Copom começa hoje com ampla expectativa de novo corte de 1 ponto percentual na Selic. Atenções se voltam para sinalizações sobre a próxima reunião.

Nos EUA, temos pedidos às fábricas e pedidos de bens duráveis, além de discursos de membros do Fed.

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Flertando com novo recorde nominal, Ibovespa Futuro abre em alta de 1,1 por cento e dólar volta a cair contra o real.

PS.: Encerraremos hoje a adesão ao programa 1MR, a forma mais rápida de se chegar a 1 milhão de reais. Vale a pena correr, pois as últimas vagas estão sendo preenchidas.

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