Carta ao 1 milhão de compradores de bitcoins

Temos hoje 1 milhão de compradores de bitcoins no Brasil, 500 mil CPFs cadastrados em Bolsa e 100 mil investidores de fundos imobiliários. O que isso quer dizer? Há pelo menos 500 mil pessoas cujos portfólios não estão devidamente diversificados.

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Carta ao 1 milhão de compradores de bitcoins

Caro especulador,

Ah, não, por favor. Não precisa se ofender com o termo.

Claro, eu entendo. Sei que normalmente usam “especulador” com uma conotação negativa. Mas não é o caso aqui. Na etimologia, especular é apenas examinar alguma coisa, refletindo sobre aquilo com profundidade. Pode ser também aventar possibilidades sobre o futuro, tentar antecipar o que se vem à frente.

Não é nada muito diferente do que todos nós fazemos, dia após dia no mercado financeiro.

Compreendo que você ainda resista ao rótulo. Medo de pegar mal por aí, né?

Eu sei que você prefere. Mas não posso chamar-lhe de investidor. Soa melhor, sim, mas, sabe, tenho – ou quero acreditar que tenho – certo apreço pelas palavras e empregá-la para me referir a você seria um tanto impreciso.

Veja, Damodaran já definiu com alguma precisão o ato de investir: trata-se da compra de alguma coisa por preço inferior ao que efetivamente vale. Isso, sim, é investimento. Portanto, requer que saibamos – ou, ao menos, possamos estimar com mínima convicção – o valor justo para a respectiva coisa. E sabe lá Deus quanto vale, no sentido de valor justo, de fato, o bitcoin.

É verdade. Eu também vi aquele estudo do Credit Suisse com suas projeções para o valor justo do bitcoin.

Ufa, felizmente concordamos nessa. Os analistas são mesmo ridículos em seu fragilismo, que parece não ter limites. Como alguém pode cravar o valor justo para algo que não temos a menor previsibilidade sobre o futuro? Regulação, externalidade de rede, capacidade de realmente desempenhar as funções de moeda (meio de troca, reserva de valor e unidade de conta), por aí vai. Nós simplesmente não sabemos.

Ainda sobre os analistas, não sei se você viu, mas ontem, pra mim, foi o ápice. Mandaram um relatório com o título “Can machines replace sell-side analysts?” (Poderiam as máquinas substituírem os analistas sell-side?). A conclusão, escrita por um analista sell-side, é de que não. hahahahahaha

Volto à questão da especulação. Não tenho nada contra o especulador. Ao contrário, acho a figura importantíssima para o mercado. Eu mesmo me sinto um especulador várias vezes, tentando elucubrar sobre o futuro. Daí emergem ideias, e acho que são as ideias o grande diferencial de um analista.

Também não tenho nada contra as apostas, que também não são investimento. Você pode, sim, comprar alguma coisa sem saber o valor justo exato daquilo, desde que a aposta lhe ofereça uma matriz de payoff convidativa (assimetria favorável entre perdas e ganhos potenciais). Repetido o procedimento no longo prazo, você vai sair vencedor. Pense num cara e coroa em que você recebe dobrado no caso de vitória. Eu gostaria de participar de rodadas de apostas assim.

Não vejo problema em se comprar alguma coisa simplesmente esperando vendê-la à frente mais caro, desde que se saiba exatamente o que está fazendo e calibrando adequadamente o tamanho da aposta.

Eu mesmo tenho cá meus bitcoins. Portanto, não se ofenda. Você e eu estamos no mesmo time. Temos reforços valiosos – o próprio Taleb falou bem da coisa recentemente. Ao mesmo tempo, os adversários também impõem certo respeito – Charlie Munger e Warren Buffett formam uma espécie de Pelé e Coutinho das finanças.

Então, embora nós dois estejamos no mesmo barco, eu não seria capaz, neste momento, de cantar vitória, mesmo que tenhamos comprado num preço muito inferior ao atual. Com a volatilidade desse negócio, mesmo 300 por cento de alta podem ser subitamente corroídos. Eu não me vanglorio e também não acho que você deveria fazê-lo – ao mesmo tempo em que não me importo com quedas diárias de 10 ou mesmo 20 por cento; faz parte do negócio e está tudo dentro da “normalidade” estatística de dois desvios-padrão.

Acho as criptomoedas um instrumento interessante de diversificação, exposição à convexidade e até mesmo hedge a este mundo maluco criado pelos Bancos Centrais, com bolhas e dívidas por tudo que é lado a partir da colossal emissão de moeda desde a crise de 2008.

Ao mesmo tempo, isso envolve um risco e uma volatilidade brutais. Sim, sim, são coisas bem diferentes. Risco é sua chance de perda permanente de capital. Volatilidade é só quanto o negócio pula pra cima e pra baixo.

Então, sou favorável a ter alguma coisa de bitcoin, mas precisa ser uma grana que você topa perder, uma posição muito pequena dentro de um portfólio bem diversificado, com a ciência de que, sim, você pode perder 100% do que investiu.

Se for assim, tudo bem. Mas aí é que mora o perigo.

Temos hoje 1 milhão de compradores de bitcoin no Brasil, 500 mil CPFs cadastrados em Bolsa e 100 mil investidores de fundos imobiliários. O que isso quer dizer? Há pelo menos 500 mil pessoas cujos portfólios não estão devidamente diversificados.

Houston, we have a problem. Grosso modo, o sujeito não tem outra aplicação senão o bitcoin. Sendo rigoroso, talvez ele tenha algum dinheiro em renda fixa ou em imóveis físicos. Mas, ainda assim, não dispõe de uma carteira devidamente diversificada, com ações e fundos imobiliários. O natural seria chegar ao bitcoin, muito mais arriscado e volátil, só depois de cumprir as etapas anteriores.

Então, se você faz parte desses 500 mil cidadãos, essa história de uma só, Zoraide, tenha dó. Você precisa variar. Não quero acabar com seu sonho de multiplicar parte de seu capital com criptomoedas. Você pode continuar com isso, mas não só com isso, entende?

Não precisa se casar com o bitcoin e manter uma relação monogâmica. Só porque já foi legal. E etc. e tal, não quer dizer que eu vou encarar.

Antes do bitcoin, compre um pouco de BOVA11, de BRCR11 ou de alguns bons fundos imobiliários de shoppings – eles estão voando agora.

Somente depois de você ter esgotado todas as opções mais tradicionais, podemos inovar num swing com as moedas digitais.

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Agenda local traz IPC-S e IGP-M, que trouxe inflação abaixo do esperado em janeiro, de 0,76%. Santander é atração na esfera corporativa com apresentação de balanço e Fibria faz teleconferência de resultados.

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