Uma conversa com a lenda Luiz Alves

Hoje escrevo sobre os melhores momentos da minha conversa com Luiz Alves, um dos maiores investidores de ações do Brasil, sócio do fundo de ações (Alaska) que liderou o ranking da indústria nos últimos dois anos de forma consecutiva.

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Uma conversa com a lenda Luiz Alves

“Wall Street é o único lugar do mundo onde pessoas que andam de Rolls-Royce pedem conselhos a quem pega metrô.” A frase é de Warren Buffett e ela não sai da minha cabeça.

Luiz Alves esteve aqui ontem. Passou a manhã numa conversa conosco. Corrijo: acho que o termo apropriado não é conversa, mas, sim, aula. Numa situação dessa, você senta, fica quieto, escuta e aprende. Uma das coisas que agradeço diariamente é pela interlocução desenvolvida nos últimos anos, que, sinceramente, nem me acho digno de merecer.

Caso não o conheça, Luiz Alves é um dos maiores investidores de ações do Brasil, sócio do fundo de ações (Alaska) que liderou o ranking da indústria nos últimos dois anos de forma consecutiva, profundo conhecedor da dinâmica macro e micro da renda variável, capaz de discutir cada case listado em Bolsa de prontidão, um belo contador de causos e inteligentíssimo. Ah, claro, para afastar de vez a desconfiança dos fariseus, ele é muito rico – no seu fundo exclusivo, há mais de 2 bilhões de reais somente em ações. Acima de tudo, no trato pessoal, é um doce.

Há várias Empiricus dentro de uma só. A minha – e não estou aqui dizendo que é a certa; apenas como eu a vejo – se liga a uma instituição que leva às pessoas físicas estratégias de investimento tão boas quanto aquelas praticadas pelos (melhores) profissionais do mercado financeiro. Se eu puder, mesmo que marginalmente, reduzir a distância entre a forma com que o dentista de Cuiabá lida com seu dinheiro e a maneira com que Luiz Alves (ou qualquer outro grande financista genial; poderia ser o Stuhlberger, o Rogério Xavier, sei lá) o faz, estarei feliz. Trato isso como uma espécie de vocação, um chamamento impossível de se ignorar.

É com esse espírito que apresento uma espécie de “melhores momentos” da conversa de ontem.

1. A Bolsa brasileira vai subir muito mais do que você imagina. E isso é inexorável. A gente se esquece, mas os ciclos são sempre maiores e mais profundos do que concebemos a priori. Há uma capacidade ociosa brutal, as empresas estão crescendo receita, fizeram a lição de casa e não há capex por fazer. A geração de caixa vai ser simplesmente brutal. Isso volta pro acionista necessariamente.

2. A maior parte das pessoas vai achar o argumento acima inadequado. Então, quando a Bolsa tiver multiplicado por algum fator, ela passará a ser a queridinha. A pessoa física vai sofrer pressão da indústria bancária e da imprensa tradicional para comprar ações, quando já tiver subido muito e for a hora de vender. Assim, perderá um bocado de dinheiro, ficará machucada e pegará trauma da Bolsa, simplesmente porque foi estimulada a entrar na hora errada.

3. Não importam muito o presidente, a reforma da Previdência, a perda do rating ou o julgamento do Lula. Esses até podem ser elementos que nos permitam aproveitar a volatilidade de curto prazo. Certamente, darão muitos sustos. Nada, porém, muda a tendência principal, que depende muito mais do momento do ciclo econômico. E esse é muito favorável agora. Ponto final.

4. Talvez o Lula nem saia para presidente. Ele tem problemas pessoais e familiares muito sérios para resolver. Pragmaticamente – e devemos nos lembrar que ele é um pragmático -, pode ser muito mais simples sair para deputado federal (ou qualquer coisa parecida) e garantir o foro privilegiado.

5. Em poucas vezes na história, as commodities estiveram tão baratas relativamente aos demais ativos. A economia global está forte, a Europa volta a crescer depois de 15 anos e dos EUA ninguém duvida. Preço de longo prazo do minério de ferro é 80 dólares por tonelada, bem diferente dos 50 que todo mundo tem na conta. Isso muda radicalmente o jogo para a Vale, que pode se multiplicar por mais de 3x em dólar se o prognóstico para a commodity subjacente for confirmado.

6. “Estamos namorando Petrobras depois de muito tempo.”

7. Uma carteira é como um time de futebol. Precisa de defesa, meio-campo e ataque. Equilíbrio, ao melhor estilo Tite. Ou, diversificação, ao estilo Markowitz. Lendas obedecem à tradição e a turma lá joga no consagrado 4-3-3, com dois pontas bem abertos (Marcopolo e Randon) e um centroavante fixo, vindo de dois anos seguidos como bola de ouro (Magazine Luiza).

8. No IPO, o vendedor de ações está estourando champanhe. Se o vendedor está comemorando, como deveria estar o comprador? No mínimo, chorando, né? Em ofertas públicas, o investidor encontra-se do lado ruim da assimetria de informação. O vendedor escondeu tudo de ruim do balanço, antecipou tudo que poderia de bom e provavelmente empurrou para baixo do Ebitda despesas que na verdade são operacionais. Espere ser listado, estude alguns trimestres, deixe passar a camuflagem do balanço e somente então, se achar apropriado, compre.

9. “Faça a conta de TIR e dividendos de Comgás ao longo do tempo. É uma enormidade de retorno para o acionista. Vai continuar assim, porque está gerando um caixa brutal e não tem o que fazer com o dinheiro.”

10. E para quem quer arriscar em negócios bem problemáticos, com altíssimo risco, baixa liquidez e também problemas de governança, sob a contrapartida, claro, de retorno potencial muito grande, alguma possibilidade? Sabendo que há muito risco, exige-se horizonte de longuíssimo prazo e há pouca liquidez, talvez Coteminas e Login ainda sejam, lá na frente, histórias para se contar.

Sob o risco de soar arrogante, entendo que algo me aproxima do Luiz Alves – definitivamente, não é a conta bancária. Ele tem 70 anos, é bilionário e passou décadas longe da gestão de recursos de terceiros. Somente agora, depois de ganhar muito dinheiro para si, aceitou tocar a grana dos outros. É uma espécie de recomeço. O Day One é um estado de espírito. Tem que manter isso, viu? Esse sorriso doce é encantador.

Mercados brasileiros começam a sexta-feira derretendo depois da importantíssima decisão da S&P 500 de rebaixar o rating brasileiro. É uma piada, claro. Não tão piada quanto a relevância das agências de risco e seu fragilismo. Sempre atrasadas e, arrisco dizer, como ótimos sinais de fundo. No nosso caso particular, pode até servir para mostrar a importância de se aprovar a Previdência.

Exterior mostra bom comportamento, após Angela Merkel conseguir acordo preliminar para negociar governo de coalizão, de acordo com notícias da imprensa. Metais em alta ajudam a estimular disposição a risco. Agenda nos EUA traz inflação ao consumidor e vendas ao varejo.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,1%, dólar está estável contra o real e juros futuros tentam definir tendência.