O Aprendiz ou (Uma conversa com Roberto Justus e Luciana Seabra)

Roberto Justus esteve aqui na segunda-feira. Conversamos sobre sua mais nova iniciativa. De Justus, ouvimos uma visão empreendedora e apaixonada de Brasil. Das ideias de seu gestor, capturamos uma tese interessante, que levantou uma discussão antiga com a Luciana: a gestão dos fundos de investimento em ações no país.

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O Aprendiz ou (Uma conversa com Roberto Justus e Luciana Seabra)

Sempre achei que inteligência tinha a ver com sensibilidade. Steve Jobs podia se apaixonar por uma maçã, e achar outra de gosto podre. Qualquer um que provasse as duas maçãs juraria sentir o mesmo gosto em cada uma delas. Da sensibilidade decorrem o refinamento, o bom gosto, a educação, o rigor, a precisão dos argumentos, a identificação da hora de ouvir/falar e por aí vai…

Ray Dalio, o maior gestor do mundo e possivelmente o melhor manager de pessoas no mercado financeiro, é um defensor da transparência radical. “Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas”, diria o gênio Riobaldo. Sem a total transparência, Ray Dalio tem certeza de que a Bridgewater não chegaria onde está. Copiando dele, firmei um pacto de Radical Transparency com as pessoas que mais amo.

Roberto Justus esteve aqui na segunda-feira. Conversamos sobre sua mais nova iniciativa, um investimento na Nest Asset Management, que eu acompanhava de longe desde a época do amigo Luciano Tavares, hoje à frente da Magnetis, um robô advisor com adequada preocupação com a qualidade de alocação. Bom, se tem uma coisa que o Justus agrega é track record – isso ninguém pode negar! Inveja boa…

Estávamos entretidos falando dos mercados brasileiros, quando subitamente me interrompeu: “Me desculpe, seu escritório é lindo, seus textos são ótimos, mas essa água não dá pra beber. É filtrada, não é? Baita gosto ruim, com todo o respeito, espero que não se ofenda…”

Aquilo era a demonstração bruta do que é sensibilidade e transparência.

Sabe o que é pior? Ele estava assustadoramente certo.

Bicho, você acha que quem enchia a cara de Jurubeba Leão do Norte nos carnavais em Senhora do Porto vai mesmo sentir a diferença entre filtrada e mineral? Eu nunca tinha percebido, claro.

Mas há 48 horas que eu só sinto gosto de plástico nessa porcaria de água. Comecei a reparar e agora me sinto engolindo um fio de cobre sob a forma líquida a cada gole.

Além da transparência e da sensibilidade, o que mais me entusiasmou na conversa não foi isso. Roberto Justus pode ainda não ser totalmente versado no mercado de capitais. Certamente, não é. Mas nem precisa. Há um gestor para isso.

De Justus, ouvimos uma visão empreendedora e apaixonada de Brasil. Das ideias de seu gestor, capturamos uma tese interessante de CPFL, que basicamente engendra a necessidade de se fazer uma OPA pelas ações remanescentes com cerca de 50% de upside em até seis meses (pelo que descobri depois, parece que a Claritas está nessa também), e um fundo passivo que rende um delta positivo sobre o Ibovespa, fazendo pequenas arbitragens e comprando/alugando BOVA11, cujo aluguel rendeu 3% nos últimos anos. Nada mal.

A apresentação do fundo passivo me levou a uma discussão antiga que tenho com a Luciana, que, confesso, me parecia um tanto encantada com aqueles olhos azuis – bom, até eu estava encantado com aqueles olhos azuis.

Eu sempre achei que os fundos de ações brasileiros, em geral, eram grandes geradores de beta. Eles iam muito bem quando mercados iam bem. E muito mal quando os mercados iam mal. Claro que ninguém nunca vai admitir isso. Quando sobe, é o mérito próprio. E quando cai, as condições sistêmicas impediam um desempenho melhor – se essa explicação não for suficiente, a responsabilidade vai para o gestor antigo, que agora já saiu e permitiu que a equipe retomasse a rota. A culpa é minha e eu coloco ela onde quiser. Para não terminar a minha versão da história de maneira triste, a boa notícia para os fundos de ações é que agora, no meu humilde entendimento, entramos num ciclo muito positivo – e dá-lhe beta.

Ela pensa o contrário. Acredita na capacidade dos gestores gerarem alfa, ou seja, gerarem um resultado superior à média do mercado de maneira consistente, independentemente das condições sistêmicas. Como ela é muito mais inteligente do que eu, é provável que esteja certa.

O que nós dois concordamos é que o Brasil viveu nos últimos anos a fase beta, surfando a onda dos mercados emergentes em geral, até mesmo com defasagem, muito por conta da ausência de tecnologia nos benchmarks, sendo esse o setor que mais subiu. Talvez agora estejamos na iminência da fase alfa.

Mas ela te conta os detalhes disso tudo mais tarde, na Hora dos Fundos. Com a pessoa de que ela vai falar, temos muito a aprender. Para encerrar mais uma vez com Riobaldo: “Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo…”. Os gênios espalham as ideias boas por ai e a gente sai colhendo, se aproveitando delas. Se a sabedoria de “Grande Sertão: Veredas” está certa, talvez eu ainda tenha alguma chance de ser alguém na vida. “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

Depois de dois dias de sell off, mercados brasileiros buscam recuperação, na esteira do bom humor na esfera externa. Discurso de Trump nos EUA, que vinha sendo apontado como fator de risco, não trouxe grandes novidades e permitiu que investidores voltassem às compras após uma terça-feira mais negativa.

Reunião do Fed domina as atenções globais, focando eventuais sinalizações para março. Estoques de petróleo, ADP Employment, PMI e vendas de casas pendentes completam a agenda norte-americana.

Ainda no exterior, PMI chinês ficou um pouco abaixo do esperado ao marcar 51,3 pontos, mas sem preocupar. Na Europa, temos preços ao consumidor hoje.

Por aqui, destaque para pesquisa Datafolha, que não assustou ao mostrar Lula ainda na liderança e uma trajetória ascendente de Luciano Huck, que já empata com Alckmin nas intenções de voto. PNAD contínua e conferência de resultados do Santander merecem acompanhamento.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,8%, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.