Break America Great Again

O aumento da correlação das ações norte-americanas para níveis comparáveis a outros momentos de crise costuma ser um bom indicativo de um momento de pânico nos mercados financeiros.

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Break America Great Again

Preocupar-se é ocupar-se duas vezes. O sofrimento é duplo: antes do fato, diante da perturbação por pensamentos pessimistas; e no fato em si, encarando a realidade negativa.

Ao menos assim pensam os estoicos. Amos Tversky, que ganharia o Prêmio Nobel de Economia se não tivesse morrido cedo demais, achava a mesma coisa. Era um otimista incorrigível.

Daniel Kahneman – esse, sim, Prêmio Nobel de Economia e amigo de Tversky – vai na direção oposta: é um grande pessimista. Considera que, ao antecipar um problema futuro, pode amenizar o sofrimento quando da real materialização da coisa ruim lá na frente – supostamente, já estaria preparado para o mal.

Volto ao estoicos, para quem a felicidade está na virtude. Ela é interna, alheia aos acontecimentos de fora. Logo, resta-nos um estado de apatheia (apatia) como caminho de luz. Deveríamos ser indiferentes aos fatores que nos escapam, não guardam relação com a nossa virtude pessoal.

Desculpe, mas eu não consigo. Aliás, não sei nem se devo. No mercado financeiro, se você não se pré-ocupa, não poderá se proteger de eventuais eventos negativos que venham a acontecer lá na frente. Está na essência da atividade tentar antecipar acontecimentos futuros, agindo hoje para colher frutos amanhã.

Todos falam do futuro do juro nos EUA, do tuítes de Donald Trump, das eleições brasileiras, da recente decepção com os dados de atividade local, da disparada do dólar, do problema fiscal. Ok, ok. Tudo isso pode ser motivo de preocupação. Mas eu estou antecipadamente ocupado com outra coisa, retratada na imagem abaixo:

Ela descreve o aumento da correlação das ações norte-americanas neste ano para níveis comparáveis a outros momentos de crise. Para o físico-matemático-gênio-pesquisador-amigo-do-Taleb Yaneer Bar-Yam, esse costuma ser um bom indicativo de um momento de pânico nos mercados financeiros.

Ele diz algo mais ou menos assim (tradução minha, portanto péssima, mas lá vai):

“A previsão do pânico é de importância crítica em várias áreas do comportamento humano e animal, notadamente no contexto da economia. A recente crise financeira é um caso em destaque. O pânico pode resultar de uma ameaça externa específica, ou de um nervosismo gerado endogenamente. Aqui mostramos que a recente crise econômica e os primeiros dias de pânico foram precedidos de períodos longos de alto nível de imitação nos mercados (nota do tradutor: imitação aqui aparece no sentido de alta correlação, de vários ativos tendo o mesmo comportamento, um igual ao outro) – uma evidência de incerteza e nervosismo, e da comparativamente baixa influência de notícias externas. Altos patamares de imitação podem ser um belo indicador geral do potencial de crises geradas organicamente.

(…)

Este novo estudo indica que é a estrutura interna dos mercados, não as crises externas, que são as responsáveis principais para os crashes.

O número de diferentes ações que se movem para cima ou para baixo juntas é um indicador do nível de imitação dos mercados, de quanto um investidor olha para outro atrás de dicas de como agir. Quando o mimetismo é alto, muitas ações seguem o movimento das outras, uma razão primeira para o pânico se instalar.

Um aumento dramático no nível de imitação dos mercados aconteceu durante todo o ano antes de cada crash dos mercados ao longo dos últimos 25 anos, incluindo a última crise financeira.”

Conforme você pode ver no gráfico, só uma vez na história a correlação das ações do S&P esteve acima do patamar atual: em 1987, ano marcado pela famosa Segunda-Feira Negra, quando a Bolsa dos EUA caiu “só” 22 por cento num único dia.

Olha aí, meu bem: prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém. Na lista de Jorge Ben, faltou adicionar umas puts de S&P.

Antes de prosseguir com as coisas mais frívolas e banais do dia, queria falar duas coisinhas.

A primeira:

A famigerada “Maldição da capa da ‘Exame’”. Bastou André Esteves voltar ao jogo estampando o periódico para a turminha resgatar a narrativa – sabe como é: a inveja e a fofoca imperam na Faria Lima.

Para quem não conhece a lenda, há uma mística no mercado financeiro brasileiro de que “foi para a capa da ‘Exame’ vai se dar mal”. De fato, sobram coincidências históricas para corroborar a superstição. Apareceu na “Exame”, quebrou na sequência.

Para mim, não é o caso desta vez. Além do empreendedorismo brilhante, da genialidade e da capacidade de André Esteves se reinventar ímpar, o BTG passa por um momento muito forte, com grande recuperação de resultados e credibilidade. À medida que se afastar em definitivo o risco de cauda, seria natural observar apreciação de suas ações em Bolsa.

Mas o ponto aqui é outro. Pode parecer contraintuitivo, mas eu acredito na “Maldição da ‘Exame’”. Não é superstição, é ciência: aplicação direta da reversão à média, uma tendência típica de empresas, pessoas e um monte de coisa na natureza.

A imprensa não é líder. Ela é seguidora. Aparece na capa da revista quem está no auge, destacado dos demais, à frente de um mercado ou de uma tendência. O extraordinário é sempre resultado da competência, mas também da sorte. Ou seja, o destacado do momento está acima da sua habilidade média ou natural, estando ali empurrado também pela atuação da deusa Fortuna. Obviamente, sorte não dura para sempre. Quando essa vai embora, o sujeito simplesmente volta ao seu normal, piorando frente à atuação tão destacada do momento anterior.

Quando perguntado pela revista “Edge” sobre sua equação favorita, Daniel Kahneman apontou:

Sucesso = talento + sorte
Grande Sucesso = um pouco mais de talento + muita sorte

As empresas mais admiradas e lucrativas de um ano provavelmente não o serão por muito tempo. Aquele primeiro lugar foi resultado de talento e sorte. Somente a primeira parte vai ser mantida para sempre. Isso vale para pessoas também.

A segunda:

O dólar já está me parecendo um tanto caro. Estamos bem perto do ponto em que devemos chamar a cavalaria. Todo banco central que se preze tem “fear of floating” (medo da flutuação), e a volatilidade do real está semelhante apenas à do rand sul-africano e do rublo russo – tudo bem que não somos grande coisa, mas tem limite também, né?

Mercados iniciam a sexta-feira em clima de cautela, aguardando resultado do PIB dos EUA e ponderando lucros elevados da véspera.

Agenda é relativamente cheia. IGP-M apontou inflação marginalmente acima das projeções, de 0,57%. IBGE mostrou taxa de desemprego de 13,1%, um pouco acima das expectativas. Tesouro divulga relatório da dívida pública.

Nos EUA, além do PIB, temos confiança do consumidor e Baker Hughes, do setor de petróleo. PIB do Reino Unido surpreendeu e empurrou para cima Bolsa local. Na Ásia, aproximação histórica entre as Coreias foi bem-recebida, bem como alta mais vigorosa da produção industrial japonesa.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,25%, dólar está perto da estabilidade contra o real.