Você quer passar desta para uma melhor?

Pacote de corte de impostos lançado pelo presidente norte-americano pode fazer países emergentes sofrerem com saída de recursos. Prepara-se para o próximo ciclo.

Você quer passar desta para uma melhor?

Woody Allen já resumiu a coisa: “não é que eu tenho medo da morte. Eu só não quero estar lá quando esta hora chegar.”

Quando era criança, acreditava que a gente ia para um lugar lindo depois que morria. Eu queria encontrar minha avó. Hoje, após algumas caixas de Lexapro, já me conformei com minha insignificância cósmica. Respeito a fé alheia e torço para que estejam certos os que dizem “partiu dessa para uma melhor.”

Para alguns, deve haver esperança. Para Hugh Hefner, não. Ele não pode ter ido para uma melhor, não. Está decidido: impossível. Se esse cara encontrou o Paraíso, foi na Terra mesmo. A Playboy foi um marco importante na minha vida. Perdi a fé na eternidade, me permiti esperar sem culpa pela próxima edição.

Hugh Hefner partiu dessa para uma pior, mas deixou uma marca indelével na humanidade. Namorador incorrigível, parece querer ir acompanhado dos mercados emergentes, que sempre também gostaram de uma boa farra, historicamente marcados por seus problemas de balanço de pagamentos, caráter perdulário e gastança pública. Não tenho dúvidas de que o deus Baco assina a Playboy (ou ao menos o fazia até 2015) e investe na turma do beta alto.

Depois de alguns meses de farra e absorção do fluxo gringo, bolsas e moedas emergentes parecem entrar numa fase pior. Eles têm sofrido em especial nos últimos dias com o retorno do chamado “Trump Trade” – o pacote de corte de impostos lançado ontem pelo presidente norte-americano poderia acelerar a economia local, aumentar a vantagem competitiva de suas empresas e fazer retornar até 250 bilhões de dólares aos EUA. A economia norte-americana se fortaleceria, o Fed teria de subir os juros, a atratividade dos títulos por lá subiria e os emergentes sofreriam com saída de recursos.

O Brasil, país do carnaval e do beta alto, obviamente é protagonista dessa história toda. Não há novidades sobre a alta sensibilidade local a condições sistêmicas globais – em que pese a obsessão por criar narrativas ligadas a fatores domésticas e ao (de)mérito próprio, a verdade é que somos muito mais guiados por forças exógenas e aleatórias do que gostaríamos de supor. Vamos e viemos ao bel prazer do fluxo e das condições internacionais de liquidez.

Não há como negar, porém, a deterioração, ao menos na margem, do ambiente local nos últimos dias. Há uma tensão na relação entre os poderes desde a decisão do STF envolvendo o senador Aécio Neves, com a ameaça de descumprimento da decisão pelo Congresso – essa disputa de poder entre as casas, que conseguiu inclusive unir PT e PSDB, não emite sinais de uma democracia sólida e estabelecida. “Nossas instituições continuaram funcionando” – só resta saber quais instituições, se o Judiciário ou o Legislativo; em lados antagônicos, só um deles pode estar funcionando corretamente, por mera aplicação da lógica.

A tese estrutural está abalada?

Eu nunca comprei o Trump Trade. Isso inclusive me fez ficar para trás durante certo intervalo de tempo. Reconheço que perdi algumas oportunidades com isso e fiz, ao mesmo momentaneamente, os clientes ganharem menos dinheiro do que poderiam. E continuo não comprando. Erro tipo II faz parte.

Entendo que há muito mais bravata e retórica do que a fragilidade das negociações entre Democratas e Republicanos (e mesmo entre Republicanos) pode permitir. Além disso, embora possa parecer contraintuitivo a priori, a correlação histórica sugere que juros subindo nos EUA indicam alta das bolsas emergentes, e não o contrário. O fenômeno acontece porque o mundo não é ceteris paribus. Se fosse um exercício de estática comparativa, possivelmente o maior juro nos EUA, de fato, retiraria atratividade dos emergentes, penalizando seus ativos. Mas juro subindo no centro indica rápido crescimento, mais demanda (principalmente por commodities) e aumento dos lucros corporativos na periferia.

Internamente, há muito ruído e volatilidade, idas e vindas na história de enfraquecimento da base, amor e ódio de Rodrigo Maia ao PMDB, com foro ou sem foro, por ai vai. Agora, cá entre nós: não tem novidade nenhuma. Do ponto de vista ético e moral, o governo é mais sujo de que pau de galinheiro. Qual a surpresa? Mercado sempre soube e manteve o pragmatismo de sempre. Importa-nos a pauta das reformas estruturais, mais notadamente a Previdência. É óbvio que o quanto antes, melhor. Mas, ainda que atrase um pouco e fique para o próximo governo, ela vem, pela simples razão de que é inexorável. Ou sai, ou sai. A alternativa é a completa paralisação do orçamento – e isso deputado nenhum quer.

Isso posto, a tese estrutural permanece. Esclareço: faz parte da tese estrutural uma caminhada errática, momentos em que teremos a certeza de que “não vai dar”, questionamentos constantes sobre a validade da hipótese, correções típicas dentro de um bull market, não linearidade, quedas abruptas e súbitas, saltos, etc.

Resumidamente, do alto de seu caráter problemático, dionisíaco, volátil e imprevisível, os mercados emergentes ainda são um excelente lugar para se estar. Adaptando a sabedoria de Hugh Hefner para o contexto: “”Eu considero-me e sempre me considerei um homem muito moral.”

Antes de caminhar com as questões mais protocolares, gostaria hoje de sugerir a leitura da mais recente carta da Atmos Capital. É quase um compromisso ético da gente aqui apontar materiais relevantes de investimento, sejam eles produzidos por nós ou por outros. A turma lá é brilhante, mas escreve pouco e você vai ter a oportunidade dessa leitura apenas duas vezes. Portanto, aproveite.

Entre outras coisas, o documento trata de um tema que já falamos aqui. Basicamente, nas minhas palavras, e incorrendo aqui no risco clássico do problema da não-tradução, aborda a quem vai pertencer o próximo ciclo? Nos últimos anos, ganhou dinheiro em Bolsa quem foi mais conservador, prudente e pouco alocado. Mas, com a potencial mudança estrutural, não seria o caso também de se mudar a postura pra frente?

Uma foto do período anterior colocaria os pessimistas/conservadores/medrosos entre os mais aptos, possivelmente elencando alguns deles como mais competentes do que efetivamente são (fique claro: não é o caso da Atmos, cujas competência e genialidade transbordam) os limites do razoável). Não é uma exclusividade dos gestores/investidores. Qualquer lista com “os melhores CEOs do mundo”, “as melhores empresas de 2017”, “as melhores capas da Playboy” acaba passando mensagem errada. Aqueles caras que estão no topo da relação devem o posto a uma combinação de competência e sorte, uma reunião de forças aleatórias favoráveis que acabaram o empurrando além de sua capacidade individual intrínseca. Então, se você infere o futuro a partir do passado, julga azarados como incompetentes; e sortudos como muito brilhantes.

Quando a situação muda, eu mudo. E você? Está preparado para o próximo ciclo?

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Depois de uma sequência ruim, mercados brasileiros tentam alguma recuperação nesta quinta-feira, embora ainda com algum comedimento, sob variações apenas marginais.

Agenda traz importantes referências e impõe cautela adicional sobre os negócios, em especial diante da manutenção de dúvidas sobre o pacote tributário e sua implementação nos EUA. Temos previstos hoje naquele país PIB trimestral (+3,1%), pedidos de auxílio-desemprego e atividade industrial.

No Brasil, saem pesquisa de avaliação do governo Temer, testando a barreira da física e possibilidade de cruzarmos a linha do zero de cima para baixo, IGP-M de setembro e dados fiscais do governo central.

Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,1%, dólar cai 0,2% contra o real e juros futuros recuam. Há instabilidade nos mercados, que transitam entre leve perdas e ganhos.

Conteúdo relacionado