Quando os gênios falam

O que pensam os principais gestores de multimercados brasileiros? Confira como foi uma das mesas mais esperadas no evento anual do Credit Suisse, uma conversa com a participação de Márcio Appel e Rogério Xavier, mediada por Ibrahim Hajjar.

Compartilhe:
Quando os gênios falam

O que eu faria se Márcio Appel e Rogério Xavier, titãs dos fundos multimercados brasileiros, decidissem abandonar o mercado financeiro para vender coco na praia? Além de fotografar e reproduzir aqui, claro, eu sacaria Adam e manteria SPX. E desconfio que o próprio Márcio faria o mesmo.

“Na Adam ninguém tira boleta, só eu” – esse é Appel. “Eu não nasci com a genialidade que o Márcio nasceu. Infelizmente não consigo olhar tudo, pensar em tudo e achar que vou estar certo em tudo. Então tenho que contratar muita gente para olhar e ter profundidade” – esse é Xavier.

Só faltaram as pipocas. O mérito ou demérito do “one man show” – questionamento de doze em cada dez alocadores de fundos – foi o primeiro tema da mesa mais esperada do evento anual do Credit Suisse. Na mediação, Ibrahim Hajjar, que seleciona fundos para os clientes de alto patrimônio do banco suíço. Ingressos esgotados, silêncio no salão.

Appel começa defendendo que o modelo descentralizado faz com que cada gestor queira mostrar serviço o tempo todo. Em um momento de otimismo com Brasil, o fundo ficaria comprado em juros, Bolsa e moeda. “Como alguém tem que olhar o todo, a decisão tem que ser centralizada”. Passa a vez para o Rogério, que diz resolver esse problema fazendo sócios – 28 dos 105 colaboradores da SPX. Todo mundo ganha dinheiro se o fundo for bem. A internacionalização também ajuda – o cara das ações pode buscar oportunidades em outras bolsas quando a nossa não contribuir.

E segue. Dólar? “Eu acho de graça comprar” – Xavier. “É o pior mercado brasileiro em relação risco-retorno. Não acho que é boa alocação, mas também não acho que posição comprada em real seja” – Appel. “O real não está valorizado nem desvalorizado, mas, dos três mercados, disparadamente é onde se vai procurar mais hedge [proteção] para eleição” – Stuhlberger, no dia anterior, comprado em dólar. Apenas para reforçar a tese de que em câmbio não se especula.

Renda fixa brasileira? Saudade de 2017, quando predominava uma só língua: juros em queda.

Appel e Stuhlberger estão na arbitragem entre vencimentos: acham que alguns parecem pagar demais, outros de menos. O gestor da Verde considera exagerada a diferença entre os juros mais curtos, para janeiro de 2019, em torno de 6,8 pontos percentuais, e 2021, mais perto de 10%.

Xavier, por sua vez, prefere ficar de fora da renda fixa brasileira: “O Banco Central já entrou em sintonia fina, o que tem para ganhar é muito pouco. Não é mais alocação para nós: é o tipo de dinheiro que deixamos para os outros ganharem”.

Também com a Bolsa o gestor da SPX não se anima, enquanto Appel está compradaço em Ibovespa e Itaú. E Stuhlberger, que passou 2017 receoso, diz ver beta favorável: Brasil tem acompanhado os emergentes, sempre um pouco atrás (enquanto eles sobem puxados por tecnologia, nós seguimos com nossos analógicos bancões e empresas de commodities).

O que empolga mesmo o discreto gestor da SPX é o ajuste para cima nos juros americanos e europeus. Aqui a trindade santa dos multimercados brasileiros está mais para Torre de Babel.

De um ano para cá, a taxa para o título americano com vencimento em dez anos abriu 0,2 pontos percentuais, aponta Xavier, enquanto o S&P subiu 23%. “A Treasury está muito defasada”, disse. Quem acaba com a festa? Os bancos centrais. “E eles estão com medo. Vão errar e vão precisar de muito mais juro no futuro”. O gestor da Adam até tem a mesma posição – “mas não tenho tanta certeza de que inflação vai aparecer este ano. Acho que mercados de trabalho estão defasados”.

Stuhlberger está em outra. Diz que vivemos em um mundo desinflacionista (não sei se essa palavra está no dicionário, mas, como ele usou, agora existe), em que as pessoas vivem muito e robôs roubam empregos. Ponto contra aumentos salariais e, assim, abertura de juros.

Que tal eleições, para uma saideira? Appel, tranquilão: “isso não tem a menor importância”. A mesmice brasileira, diz, é suficiente para as posições da Adam. Xavier, preocupado: “O prefeito do Rio é o Crivella e quem disputou com ele foi Freixo. Acidentes acontecem”.

Stuhlberger, em cima do muro: “O cenário eleitoral deve trazer volatilidade”. Por outro lado, positivo com reformas adicionais, que considera ainda relativamente pouco no preço. “E qualquer candidato fará reformas em 2019, proativa ou reativamente”.

Se é que há um ponto de concordância, parece ser o curto prazo no Brasil. Appel é o mais otimista dos três. Stuhlberger, o mais pessimista do trio com questões estruturais, fala em “curto prazo bom”, com perspectiva de crescimento de mais de 3% por dois a três anos, com parcela importante da inflação comportada.

E Xavier defende que, mesmo quando os juros começarem a subir lá fora, os ativos tendem a se comportar bem no restante do mundo em um primeiro momento, com commodities em alta e um efeito riqueza, que gera mais compra de Bolsa, commodities e ativos de crédito. O destino deve ser uma bolha, mas não agora. “Acho que o maior risco não vai acontecer nos próximos 6 meses, nem 12. Talvez a festa vá continuar”, diz.

Em tempo, sobre desapegos: Stuhlberger desistiu de apostar contra a moeda chinesa. Agora só opera na Bolsa do país – comprado. E Appel desmontou S&P, com os bolsos cheios de dinheiro (haters, não foi dessa vez) – tem dado preferência a ações avulsas na Bolsa americana, compradas e vendidas.

Ao menos janeiro fez todos felizes: Verde, 3,01%; SPX Nimitz, 3,77% e Adam Macro, 5,62%. Uma lavada no pobre 0,56% do CDI.

“Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que não entendam um ao outro”, disse Jeová, segundo a Wikipedia, bagunçando tudo a fim de que os homens fossem impedidos de construir sua torre até o céu.

O que você faz com isso? Menor ideia. Se podemos tirar daí algo minimamente inteligente, talvez seja não apostar em um único cavalo para 2018.

Por enquanto, aqui embaixo, segue o imbróglio quanto à aprovação da reforma da Previdência ainda este ano, com evoluções pouco animadoras. Depois de fechar em alta no último pregão, com Petrobras ajudando de um lado e Bradesco pesando do outro, Ibovespa abre em queda de 1,38%, dólar futuro tem valorização de 0,85% e juros futuros avançam.

Após ensaiar um abalo diante de um banco central americano aparentemente mais duro em política monetária, dólar cedeu ao presente e fechou em queda ontem. Vejamos o efeito hoje do vencimento de 3 bilhões de dólares de leilões do BC.

Juros longos aqui também têm ignorado tendência internacional de abertura – cederam ontem com entrada de estrangeiros, respondendo à venda de papéis prefixados pelo Tesouro (mais detalhes abaixo com a Marília).

Agenda local tem hoje Índice de Preços ao Consumidor da Fipe, esperado sem surpresas em relação a dezembro. Fora saem dados de emprego nos EUA, com expectativa de novas vagas e aumento no salário médio, sentimento do consumidor de Michigan e encomendas à indústria. Haverá também discursos de dirigentes do banco central americano e índice de preços ao produtor da zona do euro.

P.S.: Não deixe de abrir seu e-mail na segunda para conhecer o maior projeto do Felipe na Empiricus. Até lá, deixe de ser um conhecedor mediano do mercado financeiro, com o livro da Beatriz Cutait.

Saiba mais: Investidor estrangeiro entra no juro longo brasileiro