A crença na lei dos grandes lucros

Somos uma máquina treinada para cometer erros em determinadas situações. E isso gera problemas evidentes para o processo de investimento.

A crença na lei dos grandes lucros

Vamos jogar uma moeda para cima sete vezes.

Uau! Sete coroas consecutivas…

O que você pensaria sobre a probabilidade de uma oitava coroa na sequência?

Fat Tony logo responderia: “corta essa. A moeda está viciada. Só você não percebeu.” Mas deixemos a inteligência de rua da personagem criada por Nassim Taleb de lado por alguns instantes. Vamos assumir que a moeda é justa.

Embora todos nós saibamos que a probabilidade de dar cara ou coroa é de 50 por cento, somos atraídos mentalmente a acreditar mais na hipótese de cara. “Não é possível uma sequência tão longa de coroas. Essa probabilidade é baixíssima.”

“Mesmo a moeda mais justa (no sentido de equidade) do mundo, entretanto, dadas suas limitações de memória e senso moral, não irá se preocupar em equilibrar a sequência de caras com coroas”, ironizam Amos Tversky e Daniel Kahneman no clássico Belief in the Law of Small Numbers.

A dinâmica reflete a chamada “falácia do apostador”. Há uma crença generalizada na capacidade de amostras pequenas refletirem a real distribuição da população. De maneira um pouco mais formal, acreditamos que a lei dos grandes números pode valer também para os números pequenos. E o problema disso é que somos levados a conclusões equivocadas.

Se você jogar uma moeda pra cima milhões de vezes, é provável que metade das observações sejam caras. Mas se você o fizer duas ou três vezes apenas, pode ser que todos os resultados sejam coroa. Amostras pequenas são altamente suscetíveis a padrões meramente aleatórios – ou à falta de padrão, sei lá.

A tendência a acreditar na validade da lei dos pequenos números, como se ela pudesse se apropriar das mesmas características da lei dos grandes números, é, na verdade, um problema mais amplo, associado às dificuldades do cérebro em pensar estatisticamente com precisão.

É curioso pois essa foi justamente a questão científica que aproximou Amos Tversky e Daniel Kahneman. Os detalhes estão no livro Undoing Project, do Michael Lewis, que surgiu espontaneamente a partir do sucesso esplêndido do Moneyball – instigado por uma coluna de Richard Thaler, Lewis percebeu que os erros na seleção intuitiva de jogadores de beisebol, corrigidos por modelos matemáticos, pertenciam a um arcabouço maior, já devidamente documentado por Tversky e Kahneman. Então, se viu quase obrigado a escrever a história dos dois – é curioso pois Tversky é tão ridiculamente brilhante que faz Kahneman (prêmio Nobel de Economia e um dos maiores gênios vivos) parecer apenas moderadamente inteligente.

Até aproximar-se de Kahneman, Tversky acreditava que as pessoas eram “conservadoramente bayseanas”. Ou seja, aproximavam-se intuitivamente do teorema de Bayes – grosseiramente, feito para cálculos precisos e adequados de probabilidade – e cometiam pequenos desvios, para cima ou para baixo, em suas estimativas. Seríamos bastante razoáveis em nossas aproximações para cálculos probabilísticos.

A relação entre os dois foi provar justamente o contrário. Nunca fomos ou seremos conservadoramente bayseanos. Não temos um bom modelo mental e intuitivo para nos aproximar de cálculos probabilísticos.

O que fazemos então?

Tomamos decisões a partir de uma série de heurísticas, regras de bolso que substituem uma pergunta difícil por outra mais fácil.

O ponto é que, enquanto tentamos evitar o esforço de nos debruçar sobre uma pergunta difícil e optamos pela fácil, podemos acabar respondendo a um problema totalmente diferente. Jogamos fora o bebê junto com a água do banho.

Somos uma máquina treinada para cometer erros em determinadas situações. E isso gera problemas evidentes para o processo de investimento.

A partir da crença na lei dos pequenos números, encontramos padrões onde existe apenas aleatoriedade. Aquele gestor foi beneficiado por uma pequena amostra de resultados favoráveis. Confundimos a mera aplicação da sorte (no sentido da aleatoriedade) com competência individual. O mesmo, claro, vale para nossos próprios resultados. Se acertamos duas vezes na Bolsa, nos achamos gênios. Se erramos, “isso não é pra mim. Bolsa é cassino.”

Ao longo do tempo, a aleatoriedade seleciona vencedores e perdedores, que vão sendo injustamente classificados como gênios ou idiotas por terem sido meramente contemplados com a sorte ou o azar.

Se os mercados financeiros são ambientes pertencentes ao Quarto Quadrante de Nassim Taleb (sim, eles são), estamos no terreno onde os eventos raros dominam o jogo. Para que os eventos raros revelem suas reais propriedades e possamos fugir das erradas inferências a partir da lei dos pequenos números, precisamos de muuuuuito tempo. Afinal de contas, os eventos raros são… como posso dizer…. raros.

Trocas de governo, por exemplo, deveriam ser raras. Por aqui, acontecem ao ritmo dos fundos de alta frequência. Final de semana foi dominado por notícias sugerindo possibilidade de Rodrigo Maia assumir presidência. Ainda há muita incerteza e ninguém consegue enxergar ao certo se, quando e como rolaria a transição.

Há uma resistência geral, porém, a se acreditar na mudança. Temos uma tendência enorme a sempre confiar que as coisas continuarão exatamente como estão. Foi rigorosamente assim entre o final de 2015 e o começo de 2016. Ninguém acreditava, veio o impeachment, muitos avanços no primeiro ano do governo Temer e a maior tendência de alta em muito tempo.

Alguns potencialmente dirão que compramos uma ilusão. Ora, mas isso não é o que sempre fazemos no mercado financeiro? Olhamos pra frente e tentamos enxergar o que pode ser, mas ainda não é, pois se for já está nos preços?

George Soros entendeu com brilhantismo a dialética entre ilusão (expectativas) e realidade, num processo de influência recíproca chamada de teoria da reflexividade.

Eu ainda estou na dúvida se a realidade existe. Pra mim, é tudo uma ilusão. Certamente, a confiança de que as coisas nunca mudam é uma delas. Vejo uma probabilidade não desprezível de estarmos vivendo o final de 2015, versão reloaded.

Segunda-feira marca parecer na CCJ sobre denúncia contra Michel Temer. Governo insiste ter maioria na Comissão – só Deus sabe o quanto é retórica e o quanto é realidade. A gente vai e volta nessa aparente dicotomia entre ficção e realidade.

Expectativa por votação da reforma trabalhista na próxima terça-feira também pode fazer preço, bem como desconforto com declarações estapafúrdias do presidente do BNDES, em desacordo com o restante da equipe econômica. #voltaMariaSilvia.

Na agenda econômica estrita, relatório Focus trouxe pouca alteração nas projeções para inflação, mas mediana das estimativas reviu para baixo Selic esperada ao final do ano, de 8,5 para 8,25 por cento. Para 2018, consenso espera 8 por cento para o juro básico.

IPC-S trouxe deflação de 0,18 por cento, em linha com projeções, e BC sinalizou rolagem integral de swaps cambiais.

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Na esfera corporativa, destaque para manutenção de IPOs, conforme narra matéria do Valor, mesmo a preços mais baixos. Estou particularmente interessado em Biotoscana e IRB. O primeiro é um caso aparentemente excêntrico, mas com barreiras de entrada maiores do que pode se supor a priori – não é um case comum de distribuição, tem escala e ROIC interessantes. O segundo parece oferecer um yield legal.

Nos EUA, temos hoje relatório de tendência do emprego e crédito ao consumidor. Inflação na China veio em linha com projeções.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,4 por cento, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.

Hoje faço um convite voltado àqueles com interesse em imóveis e/ou fundos imobiliários em particular. Se você ainda não conhece nosso relatório e tem investimentos nesse nicho, vale a pena passar os olhos  neste material . Daniel Malheiros faz um trabalho excepcional neste mercado. Com toda certeza, o melhor relatório sobre fiis, sendo, com alguma folga, aquele que mais forma preço.

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