Quem vai pagar o pato?

O crescimento econômico global sincronizado pode acabar em 2018 com a subida dos juros nos EUA e Europa. Será possível ganhar com o movimento?

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Quem vai pagar o pato?

No primeiro apartamento em que eu morei, em Diamantina, havia uma banheira. Eu me divertia por longos minutos entre segurar a espuma com as mãos e testar minha capacidade de ficar submersa o maior tempo possível. Isso até minha mãe entrar já irritada – “você vai morar aí?” – e puxar a tampa do ralo de uma vez antes que eu pedisse só mais um pouquinho.

Aí eu assistia fascinada a toda aquela água descendo com violência em redemoinho, como se um pequeno furo fosse capaz de abalar meu mundo. Lá vai a espuma, lá vai o pato de borracha…

É esse meu medo hoje. Desde a crise de 2008, os bancos centrais enchem a banheira. O BC europeu está desligando a torneira, mas o americano já está com a mão na tampinha do ralo, felizmente deslocando-a com gentileza, como se estivesse ouvindo o apelo do mundo: “Só mais um pouquinho”.

E se o banco central americano de repente achar que não é preciso mais ser condescendente? A atividade econômica já está mais animada, os salários começam a subir, as commodities assumem uma trajetória de alta. E se a inflação enfim aparecer? E se o Fed resolver empreender um pouco mais de força no movimento para conter a farra e subir os juros em uma velocidade maior do que o mercado espera?

É aqui que o mercado se divide. Há quem acredite que haveria um fluxo de saída de ativos de maior risco, o que inclui Bolsa de países emergentes. E há também os convictos do oposto: se as economias globais estão em recuperação sincronizada e as commodities em alta, faz sentido a Bolsa brasileira sofrer, por exemplo? Também tendo a achar que não.

O ponto é: pode ser que algo mude lá fora em 2018. E podemos esperar ao menos um estresse de curto prazo, pela incerteza do efeito.

A Pimco, que gere US$ 1,75 trilhão no mundo, mais do que toda a indústria brasileira de fundos, tem se pautado pelo ABC da Cautela:

Aging of business cycle (Envelhecimento do ciclo de negócios): esse é o terceiro maior ciclo de crescimento econômico da história americana e em geral eles morrem por um excesso de consumo ou investimento.
Balance sheet (Balanço): O banco central americano está reduzindo o balanço ao não fazer a recompra de ativos e a Europa está reduzindo o ritmo. E se der um xabu? Quais serão as armas para estimular as economias? É como se estivéssemos rodando numa estrada sem estepe.
China: e se o agora consolidado presidente Xi Jinping resolver promover uma desalavancagem da economia?

Para fazer frente ao medo, a gestora global tem dado preferência a crédito de nota AAA e inverteu a estratégia – a gaveta de risco, antes com 60% do patrimônio, foi reduzida a 40%; e a de preservação de capital passou de 40% a 60%.

Mas será que eu posso não somente deixar de perder com esse movimento, mas ganhar com ele?

As mais recentes cartas e discursos dos titãs dos multimercados brasileiros, Verde e SPX – o primeiro infelizmente fechado e o segundo com algumas portas levemente abertas (se você é cliente do Bradesco Prime, pode pentelhar o gerente; se é da XP, o assessor) – mostram duas visões diferentes sobre o fenômeno.

A SPX zerou as posições em juros brasileiros e se posicionou para ganhar com a abertura dos juros – a puxada do ralo mais rápido do que o esperado – nos Estados Unidos e Europa.

A Verde segue em Brasil: conta, na carta mais recente, ver o maior prêmio de risco hoje na taxa prefixada para 2020 em diante (ainda que o Tesouro Direto já mostre hoje prêmios um pouco inferiores para esse vencimento do que os 10% a 11% observados então por Luis Stuhlberger). E também está comprada em Bolsa brasileira.

Para o mundo, a equipe da Verde tem defendido que os avanços tecnológicos têm ajudado para que a atividade econômica forte não pese sobre o mercado de trabalho, evitando assim a inflação (e a elevação acelerada dos juros).

Ainda assim, Stuhlberger, que não é bobo nem nada, tem mantido uma posição em dólar contra real, que vai proteger o fundo caso a virada na política monetária americana precise ser mais veloz do que o esperado.

E você? Tem algo no portfólio que te proteja, ou que, melhor ainda, permita ganhar com essa virada?

Enquanto isso, do lado de cá, São Paulo amanhece com greve do metrô, mas o mercado está mais focado na divulgação do PIB da China, esta manhã, acelerando para 6,9% – levemente acima do esperado. É sempre um alívio ver que a tão esperada desaceleração chinesa ficou para mais tarde.

Nova queda global do dólar no exterior anima os mercados. Ibovespa atinge nova máxima no Brasil, acima dos 81 mil pontos, seguindo recordes também nas bolsas mundiais.

Com o mundo crescendo, o capital migra dos EUA para o exterior, desvalorizando o dólar – que abre hoje em leve queda contra o real.

Internamente, os problemas na Caixa e na posse da ministra do Trabalho reduzem as chances de aprovação da reforma da Previdência. E temos dados de arrecadação de dezembro: são esperados R$ 138,8 bilhões para os cofres públicos.

O mercado segue de olho no julgamento do ex-presidente Lula no próximo dia 24 e o noticiário deve esquentar.

Ibovespa futuro abre em queda de 0,4% e juros futuros operam estáveis, mesmo com sinalização positiva dos mercados futuros americanos.