A cura financeira de Schopenhauer

A maior parte da Faria Lima não leu a obra-prima "O mundo como vontade e representação”, mas é curioso como os financistas citam um outro livro de Schopenhauer: "Como vencer um debate sem ter razão”.

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A cura financeira de Schopenhauer

O título deste pobre texto é obviamente uma referência ao livro de Irvin Yalom. Em “A Cura de Schopenhauer”, o escritor psiquiatra instiga o autoconhecimento a partir dos ensinamentos do filósofo alemão.

A ligação entre Schopenhauer e a terapia, mais especificamente, a psicanálise é bastante significativa. Em sua obra principal “O mundo como vontade e representação”, apresenta-se uma perspectiva pessimista da vida, em que o único deus possível seria a vontade, um impulso a sempre querer mais, independentemente do quanto já se tem. Na falta de um sentido ontológico essencial, restaria ao homem o desejo insaciável de ir sempre atrás do que ainda não possui. Viveríamos uma eterna insatisfação.

As ideias de Schopenhauer vieram a influenciar fortemente a entrada de Friedrich Nietzsche para a filosofia, servindo de base também para a construção da teoria psicanalítica freudiana.

Há uma coisa curiosa na relação do mercado financeiro com Schopenhauer. O primeiro não conhece muita coisa do segundo – os fariseus não se interessam por filosofia. A maior parte da Faria Lima não leu a obra-prima “O mundo como vontade e representação”, mas é curioso como os financistas citam um outro livro de Schopenhauer: “Como vencer um debate sem ter razão”.

Pode reparar. Vez ou outra, financista cita o livro. A partir daí, talvez você possa fazer inferências sobre a ética do pessoal, que, de fato, vai muito além de 38 estratagemas.

Em sua defesa, porém, argumento que o mercado financeiro não é mesmo – ou, ao menos, não deveria ser – um lugar para se estar certo.

 

Estar certo está intimamente atrelado à certeza, que, na verdade, é o caminho mais rápido para o abismo. Quando você estiver certo – no sentido de 100% de convicção -, pode ter certeza de que terá perdido a sanidade. Além, claro, de representar uma postura totalmente arrogante, cujo desdobramento prático será o excesso de concentração, alavancagem e falta de proteções para seu portfólio.

Estar certo significa apostar num determinado cenário à frente e vê-lo se concretizar. O problema é que nunca podemos saber ex-ante qual dos cenários vai se materializar. Você pode acertar uma ou duas vezes e achar que tem uma habilidade especial em antever o futuro. O fato, porém, é que num cenário binário à frente, com probabilidades iguais de materialização, metade das pessoas vai mesmo estar certa sobre aquilo. Sua habilidade nada mais é do que a aplicação da estatística. Suas certezas tornam-se ou não realidade no futuro por mera aleatoriedade. E sua competência individual na verdade é apenas uma ilusão criada pelas forças do acaso.

No já clássico “Antifragile” (se o Taleb espirrar, pra mim, já vira um clássico), está brilhantemente descrita a separação entre os aristotélicos e os talesianos, narrada a partir do enriquecimento de Tales de Mileto. Ele simplesmente alugou prensas de oliva num momento em que ninguém mais as queria – portanto, estavam muito baratas – e ficou rico passado um tempo. A comunidade local tentou relacionar seu sucesso a aptidão para antever, a partir do conhecimento em astronomia, a colheita à frente ou qualquer coisa parecida. Na verdade, Tales apenas comprou algo muito barato, sabendo que, a partir daquele ponto, tinha pouco a perder e muito ganhar. Ele não tinha certeza de nada. Nunca quis ter razão sobre qual seria a colheita à frente. Queria apenas ganhar dinheiro sob a perspectiva de uma assimetria vantajosa.

O que nos resta fazer:

i. repetir apostas que ofereçam mais a ganhar do que a perder, fazendo-nos vencedores no longo prazo, com a ciência de que necessariamente haverá resultados adversos no meio do caminho (erre pequeno, acerte grande). Aposte centavos para ganhar dólares, nunca dólares para ganhar centavos

ii. tornar-mos antifrágeis, investindo em coisas que podem se beneficiar do desconhecido, da incerteza, do choque, daquilo que ninguém mais espera. A vida é long gamma; e

iii. verifique se seu portfólio é convexo (aquela curva exponencial de seus livros da oitava série; um sorriso é convexo; uma emoji de carinha triste é côncavo), ou seja, conforme o cenário melhore, seus ganhos respondem mais do que proporcionalmente; em contrapartida, quando as coisas pioram, seu prejuízo aumenta em ritmo menor. Faça o teste de fato. Simule o que acontece com seu portfólio se a Bolsa cai 10 por cento. Então, refaça a conta para 20 por cento. Se as perdas acelerarem, ele é frágil e precisa ser alterado.

As pessoas me perguntam se eu estou realmente certo sobre as ações da saneamento, mais especificamente sobre Sanepar, que integra minha lista de “oportunidades de uma vida” (peço gentilmente para que você se permita conhecer a série Palavra do Estrategista, o relatório mais lido de todo mercado financeiro brasileiro, com 100 mil assinantes – tenho muito orgulho dessa assinatura, com algumas peças que nem eu mesmo acredito que deram tão certo, ao preço ridículo de 12,90 reais/mês).

Respondo as pessoas com um sonoro “não”. Eu não estou certo de nada. Pra ser sincero, nem gosto muito do setor. Mas vejo uma assimetria fantástica sobre as ações agora e, por isso, eu as compro. Se os reajustes já deliberados forem respeitados ao menos pelo governo atual (qualquer coisa diferente disso seria simplesmente uma atrocidade), ação vale 15 reais. E pode ir a 20 se levarmos todo o diferimento adiante. Isso para uma relação Preço sobre Lucro abaixo de 6x e uma TIR de cerca de 15 por cento, com divi de 7,5 por cento neste ano. Newsflow sobre o setor melhorou muito (Copasa também pode estar legal, e ainda conta com um upside risk de termos o “brimo” Salim Mattar no governo de Minas; já pensou o que seria isso?) e posição short está bem alta, em torno de 14 dias de trading, podendo ter squeeze a qualquer momento.

Do ponto de vista de resultado, pouca relacionada a todo ruído macro e volatilidade com indicadores de confiança, com boa previsibilidade de earnings. Isso pode ser desejável num momento em que ninguém quer muito saber de bolsa.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,3 por cento nesta quinta-feira, acompanhando certa aversão a risco no exterior com ata do BCE um pouco mais dura, pressão sobre ações de tecnologia nos EUA sob dúvidas sobre valuation e criação de postos de trabalho abaixo do esperado pelo ADP Employment, que ganha importância às vésperas do payroll.

Cena política segue tensa, com jornais tratando de chances crescentes de troca de governo. Sempre preferi um fim terrível a um terror sem fim. Maia assumiria com compromisso de fazer o mínimo da reforma da previdência – por ora, bastaria ao mercado, com algumas outras medidas infraconstitucionais garantindo avanços marginais; e assim vamos indo. Possibilidade de delação de Funaro e Cunha também eleva um pouco a temperatura.

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