Da arte de selecionar contadores de IR

Em pleno mês de declaração do Imposto de Renda, ofereço-lhe uma provocação: Você confia mesmo no seu contador?

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Da arte de selecionar contadores de IR

Em pleno mês de declaração do IR, ofereço-lhe uma provocação:

Você confia mesmo no seu contador?

Suponhamos que sim, que é o caso (raro) de você confiar plenamente em seu contador.

Emendo, então, duas novas perguntas:

1) Você confia nele graças a atributos técnicos (ex. ele sabe que seu PGBL não deve entrar na declaração de bens, mas sim como despesa dedutível, código 36)?

Ou

2) Confia graças a princípios éticos (ele não vai criar despesas fictícias com profissionais de saúde, nem vai desviar parte de sua restituição para uma conta pessoal dele).

Da forma com que estão logicamente dispostas aqui, essas são duas perguntas absolutamente inúteis.

Apoiam-se naquilo que os engenheiros (ou economistas que sonhavam em ser engenheiros, mas não eram tão bons de matemática) chamam de soluções de canto.

Soluções de canto são algo como: “Cara, quem liga para ética? Meu contador sabe de cabeça todos os códigos da DIRPF!”.

Ou: “Ele é superbonzinho, pendura as roupas no cabide, só não manja muito de ativos e passivos. Também não dá para querer tudo nesta vida, né?”.

Só vamos confiar em nossos contadores se eles combinarem ambas as virtudes: técnica e ética.

De nada adianta ter uma OU outra.

Essa poderia ser minha coesa introdução para falar do Lula desprovido de habeas corpus, mas escolhi não falar disso hoje. Já tem muita gente falando. Blá-blá-blá, brilha uma estrela, cresce a esperança.

Como eu posso agregar algum insight ao mercado sendo o milésimo primeiro analista a escrever sobre LULA3?

Seria um gesto preguiçoso (falar obviedades sobre um dia favorável para nossos ativos de risco) ou um gesto arrogante (supor que eu sou mais astuto do que meus mil pares).

Por isso, me deu na telha de falar rapidamente sobre livros.

Livros?!

Isso mesmo, livros.

Internamente, tento domar um embate contínuo entre livros que alimentem minha fome técnica (aprender a fazer coisas) e livros que saciem minha fome ética (aprender o que é bom ou ruim).

Eles se alternam na minha pilha de cabeceira.

Alguns raros autores – ainda mais raros que os contadores confiáveis – conseguem matar ambas as fomes com um livro só. Sabem falar de ferramentas técnicas, de questões éticas e, mais importante, de como ambas se entrelaçam.

A quem se interessar, esses são os autores que elencamos para compor a biblioteca exclusiva da Empiricus Books®.

Se você quer ser um membro-leitor da biblioteca, confira nossa Carta-Convite com todos os detalhes para participar desta novidade.

Fato é que o mercado financeiro evoluiu de um jeito que o conhecimento técnico se sobrepôs à preocupação ética.

Naturalmente, não somos obrigados a aceitar essa assimetria.

Nós, colaboradores e leitores da Empiricus, não conseguimos aceitar um ambiente no qual empurrar um produto financeiro menos ruim que o anterior é ter “foco no cliente”.

“Com licença, vi aqui que há um pouco de merda humana no seu prato. Estamos com uma promoção hoje e eu poderia substituir essa porção por merda de cavalo, sem qualquer custo adicional. O senhor aceita?”

Desculpe a escatologia, mas, de outro modo, não conseguiria lhe passar a exata impressão do nojo que sentimos sobre o estado antigo das coisas.

O jogo está mudando, habeas corpora não são mais distribuídos ao léu.

Não há técnica que se sustente, de maneira autônoma, sem o alicerce da ética.