De volta para o futuro

Quanto mais tempo se passa, maior a chance de nos expormos a eventos capazes de trazer mudanças.

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De volta para o futuro

“Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais.” Parece que o Einstein falou isso. Se não falou, esqueceu dessa.

Hoje faço 33 anos. Dizem que Jesus Cristo morreu com essa idade. Ryan Gracie também. Desconfio que não foram para o mesmo lugar – se é que há um lugar para se ir. Se houver, espero poder contar com ar condicionado.

Revelo meu aniversário não por achar que isso seja de seu interesse. Sei que não. Também não estou atrás de felicitações, tampouco pretendo convidar-lhe para a festa que não vai acontecer. Aliás, ao contrário. Passarei o dia com o telefone desligado e sem acesso a e-mail. Reservei-me o direito de ter uma única companhia, a do meu filho. Ah, claro, tenho também de conviver comigo mesmo, mas isso por completa falta de opção.

Conto meu soprar de velinhas porque ele me remete à passagem do tempo. Quinze anos depois, é triste ver o quanto decepcionei a pessoa que eu era aos 18 anos. É a definição de fracasso. Se aquele ser humano que você viu no espelho no dia em que tirou carteira de motorista não se orgulharia de você, infelizmente falhamos juntos, não tivemos sucesso.

O tempo é antifrágil e convexo. Life is long gamma. No fundo, quanto mais tempo se passa, maior a chance de nos expormos a eventos capazes de trazer mudanças, maior o espaço para cisnes negros, maior a vol, maior a incerteza. Não à toa, a precificação das opções guarda correlação positiva com o tempo. Ou, tecnicamente, o teto é negativo (a derivada do prêmio da opção em relação ao tempo tem sinal de menos).

Esse é o sentido clássico associado à convexidade do tempo. Mas há um outro capaz de incomodar um pouco mais.

Se você traçar um gráfico com os anos no eixo das abcissas e o acúmulo de conhecimento, de dados ou de tecnologia no eixo das ordenadas, vai observar justamente uma curva convexa, do tipo exponencial, aquela que denota uma aceleração positiva. Ou seja, a cada ano agregamos muito mais conhecimento do que nos 12 meses anteriores, e isso se dá de forma acelerada. A diferença entre 2018 e 2017 será ainda maior do que aquela de 2017 para 2016.

As coisas vão mudando numa velocidade assustadora e nós, hipnotizados pela sufocadora rotina, sequer nos damos conta. De repente, puft! Aquilo que parecia sólido e corriqueiro desapareceu do mapa. Aliás, sem a locadora 2001, onde encontro os filmes do Kurosawa?

Você está vendo a revolução que Jeff Bezos está promovendo no consumo norte-americano? Ele já está em supermercados, logo estará em vestuário e, subitamente, utilizando do big data e da inteligência artificial, vai saber até quando faltam imãs de geladeira na sua casa – vai mandar entregar com frete grátis em um dia; para membros do Prime, claro.

Reparou a ressureição que Elon Musk promoveu nas indústrias automobilística e aeroespecial nos EUA? O Model S não é apenas o melhor carro elétrico já produzido. É o melhor carro do ano, entre todos, e ponto. Fim para os motores a combustão interna. Ah, tem ainda a Solar City, com prognóstico de mudar bastante a indústria de energia. Como competir com alguém que trabalha seis dias por semana, 21 horas por dia? O cara vai colonizar Marte…eu acredito.

E o que Larry Page está fazendo em Inteligência Artificial, o que inclusive dá um certo medo de que essas máquinas um dia se voltem contra a gente… eu que não confio nessa turma sem sentimentos.

Olha o que está acontecendo na China. O grande parque fabril, toda aquela pujança siderúrgica, foi trocado por um polo de inovação tecnológica, capaz de liderar tendências globais em diversos setores, com possibilidades de lucros formidáveis a partir do investimento nas empresas certas. Google em Tencent ou Naspers.

Isso sem falar no discurso da Singularity. Se Ray Kurzweil estiver certo, estamos simplesmente pertinho do fim da era humana. Em 2045, interromperemos o processo de degeneração celular e teremos cura para praticamente todas as doenças – aliás, o próprio envelhecimento seria uma enfermidade como outra qualquer. A gente não vai morrer mais, entende? E estaremos todos conectados a um super computador por meio de um chip em nosso cérebro. Nosso exo-cortex permitiria uma capacidade de processamento, armazenamento, cálculo e qualquer outra coisa que imaginarmos muito além do que seria possível somente pelas competências humanas estritas. Em 30 segundos, tudo é transferido para seu exo-cortex e, pronto, você virou bacharel em Direito ou cineasta, sei lá; talvez os dois. Que mundo é esse?!

Ok, ok, como ponderaria Yuval Harari, possivelmente haja marketing e excesso de otimismo ai, mas a direção é meio essa, sabe?

E, então, voltando ao meu mundinho e ao IPVA que tenho que pagar hoje à tarde, me lembro que investir em ações é um ato necessariamente de longo prazo. Ao menos, é o que diz o discurso politicamente correto. Detesto falar isso, mas o pior é que, dessa vez, concordo com essa gentalha. O curto prazo, retiradas exceções pontuais, obedece a um passeio aleatório e, como tal, não segue um padrão previsível. Se vamos à renda variável, necessariamente precisamos estender o horizonte temporal do investimento.

Mas o que é o longo prazo hoje, se tudo muda tão radicalmente e tão rápido?

Somos todos uma grande Kodak. Só não percebemos ainda. Continuamos a fazer projeções na perpetuidade, para daqui 10, 20, 30 anos, como se as coisas fossem ceteris paribus. Ah, sim, talvez haja vida na tecnologia, mas onde há tecnologia vivendo na Bolsa brasileira?

Em meio a toda revolução tecnológica no campo da energia, não é que temos uma perspectiva ruim de longo prazo. Simplesmente, não há perspectiva. No fundo, nós somos mesmo um monte de hidrocarboneto. Acho que você entende o que isso significa. Não pode haver um final feliz para os combustíveis fósseis.

Num dia negativo para as bolsas em nível global, mercados brasileiros iniciam as negociações no vermelho. Há uma alta dos yields (rendimento dos títulos) lá fora e isso impacta disposição a risco. Banco do Japão restringiu compra de títulos de longo prazo, trazendo alguma preocupação sobre nível de liquidez.

Agenda doméstica trouxe IPCA acima do esperado, em alta de 0,44%, contra prognóstico de 0,3%. Inflação oficial de 2017 ficou abaixo do piso da meta, obrigando Banco Central a escrever cartinha justificando seu erro – já temos um culpado, claro: o preço dos alimentos, que não podem se defender. Apesar de abaixo da meta, número de dezembro esvazia um pouco apostas de afrouxamento monetária adicional em março, empurrando juros futuros para cima.

Nos EUA, hoje saem preços de importação, estoques de petróleo e estoques no atacado.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,8%, juros futuros sobem e dólar se valoriza contra o real.