Smells like teen spirit

A decisão de investir hoje num determinado ativo não guarda relação alguma com os ganhos ou as perdas do passado. Ela depende apenas da sua disposição em manter uma alma jovem, inquieta e sedenta por querer mais.

Smells like teen spirit

“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

“Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.

Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me pego pensando no passado, eu sinto saudades … Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei … Sinto saudade dos que se foram e de quem não me despedi direito, daqueles que não tiveram como eu dizer adeus … Sinto saudade das coisas que vivi e das que deixei passar (..)

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que … não sei onde … para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi …”

Amo Clarice Lispector, mas devo discordar desta vez. Sei exatamente do que tenho saudade. Sei tanto que tenho dor física a partir desse saber. Sinto um incômodo no diafragma, um embrulhamento no estômago e o gelar das pontas dos dedos, dos pés e das mãos, toda que vez reconstruo na cabeça uma cena capaz de me inspirar verdadeira saudade. Hoje é assim.

Tenho saudade de quando era criança. Ontem, antecipando a ausência que viria a partir da viagem dele com a mãe, observava João Pedro jogando bola livre, psiquicamente livre, embora as vezes marcado por dois adversários. Ele é como o pai. Alterna o jogo real com o vídeo-game, foge das aulas de inglês, o que desperta no patriarca o temor de que, além de pouco dinheiro, venha a herdar também uma segunda língua macarrônica.

Nada parece interessar além de uma bola de futebol, camisetas de times e chuteiras. Promete sempre que vai tomar meu lugar na Empiricus, caso, claro, não consiga jogar no Paris. Torço pela segunda alternativa, óbvio.

Quando criança, eu tinha apenas uma terceira atividade, preservando o game e o futebol na garagem do prédio. Ajudava meu pai a contar as notas de dólares ganhadas como bônus anual. Era tão bonito sentir (não era apenas ver ou pensar; era verdadeiramente sentir) o orgulho que ele tinha daquilo – do bônus em si, que representava materialmente a sensação de dever cumprido, e também do próprio ato de contar junto ao filho as notas verdes de três dígitos.

Ficávamos os dois sentados sobre a cama do quarto do casal, em cima de uma colcha cor de rosa, com estampas de flores azuis e amarelas. Talvez seja mesmo meio brega, mas eu, talvez o último romântico dos litorais deste oceano atlântico, me apaixonava por aquilo.

Ficava totalmente entretido com as primeiras lições aritméticas (apostávamos quem contava mais rápido os bolos de mil) e também financeiras (já me era dada a função de calcular quanto aquilo representava em cruzeiros).

Lembro de tudo isso com muita saudade. A garganta amarra-se num nó apertado, enquanto os olhos ficam encharcados.

Naquele tempo, com o olhar de criança, achava que as coisas tinham uma ordem objetiva, e não apenas imaginada. Tinha certeza de que o mundo poderia caber em representações, que as regras ensinadas pela mamãe ou pelo padre jesuíta eram lições universais, que o mundo estava sujeito ao materialismo histórico e que a aleatoriedade, se existisse, cumpria apenas um papel marginal no transcorrer das coisas.

Tudo era preto ou branco, certo ou errado. A visão maniqueísta, embora mais simplista, é reconfortante. Seria muito mais fácil se as coisas fossem mesmo assim. Quando criança, era como a personagem de Guimarães Rosa: “Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado.”

No livro Sapiens, um daqueles que já nasceu clássico, Yuval Harari resume a ideia com brilhantismo. Ao comparar o Código de Hamurabi, que afirma que as pessoas são decididamente desiguais, com a Declaração de Independência dos EUA, que aponta a igualdade entre os homens, ele diz assim: “os norte-americanos, é claro, diriam que eles estão certos e que Hamurabi está errado.

Hamurabi, naturalmente, retorquiria que ele está certo e os primeiros errados. Na verdade, ambos estão errados. Os dois imaginaram uma realidade governada por princípios universais de justiça, como igualdade e hierarquia. Mas o único lugar em que tais princípios universais existem é na imaginação fértil dos sapiens e nos mitos que eles inventam uns aos outros. Esses princípios não têm nenhuma validade objetiva.”

Talvez isso lhe pareça uma discussão desprovida de cunho prático, contemplação teórica. Mas não é nada disso. Esse ponto, ao menos na minha humilde interpretação, é essencial para as decisões de investimento. Muda por completo a forma de ser e estar no universo das finanças. Não há fundamentos estritos, não há valor intrínseco. Há apenas construções mentais.

A realidade objetiva não importa muito. Na verdade, eu não sei sequer se ela existe. As decisões de investimento são tomadas a partir de uma representação da realidade, mais precisamente sobre uma representação do que as coisas podem ser no futuro. Hoje, elas só existem na nossa cabeça. E essa representação acaba influenciando e sendo influenciada pela tal ordem objetiva das coisas.

É em grande medida a essência da teoria da reflexividade de George Soros, em que as expectativas e a realidade influenciam reciprocamente num processo dialético.

Peço licença para copiar trecho da mais recente carta do mitológico fundo Verde – mitos, de novo, também tendem a ser construções mentais, mas nesse caso particular é uma realidade objetiva sintetizada na cabeça de um gênio e de um track record superhumano:

“O crescimento da economia brasileira continua dando sinais de ter entrado num ritmo mais forte. A confiança do consumidor e do empresariado estão em alta, trazendo de volta algum consumo que vinha reprimido, e também a perspectiva de mais investimentos. Embora questionemos a sustentabilidade do crescimento no médio prazo, no curto prazo as coisas de fato estão melhores e o cenário político praticamente não importa, pelo menos pelos próximos dois trimestres. O fato de o governo Temer ser o mais impopular da história é irrelevante, e a liquidez global dá ao Brasil passe livre para não fazer reformas (por ora). Junte-se a isso uma inflação de alimentos em queda livre (nunca antes na história desse país…) e o juro deve ir para 7,0%, talvez até abaixo. Nesse contexto, continuamos a manter o portfólio bastante alocado em juro real, mas também zeramos a maior parte dos hedges do nosso portfólio de ações brasileiras.”

No momento, ninguém quer tanto saber se o crescimento é sustentável, como vai se resolver o imbróglio político, se os lucros no médio prazo vão frustrar as projeções. Há uma complacência com riscos, alimentada por um cenário global quase sem precedentes, e não há como dar murro em ponta de faca. O mercado é de alta, pois acredita, ao menos por enquanto, na construção mental de que desta vez é diferente. Conseguiremos reunir rápido crescimento, baixa inflação e muita liquidez global por muito tempo.

Se vamos ou não, só o tempo vai dizer. A verdade é que não sabemos. A mera fotografia indica que sim. A lógica capitalista sugere que todas as vezes em que acreditamos ser diferente desta vez quebramos a cara. O fato, porém, é que nos momentos em que estamos vivendo a parada achamos que, realmente, desta vez é diferente. Os motivos estão ai, por toda parte, basta querer ver e ganhar um debate retoricamente.

Na véspera do 12 de outubro, eu queria mesmo é que você mantivesse uma alma de criança ao investir, aquele olho de tigre que o faz perseguir só e tudo de melhor.

Sei que os ganhos no ano vão tentar empurrar-lhe para a morosidade e a preguiça, como se nada mais precisasse ser feito. A vitória esconde os equívocos e o quanto poderíamos ser melhores.

Também suspeito que os erros do passado queiram voltar a assombrar-lhe, como se fossem insuperáveis ou como se não tivessem sido apenas uma ocorrência aleatória, cuja repetição, uma vez seguida da outra, seria inexorável.

A passagem do tempo vai criando-nos cicatrizes, tirando-nos os sonhos, calejando as mãos e alargando as costas. Eu ainda quero ser criança, manter a perseguição implacável pelos melhores retornos possíveis, uma obstinação diabólica e obsessiva pelo melhor que pudermos fazer. Day One sempre. Isso não é apenas um título de efeito, é uma forma de ver o mundo.

A decisão de investir hoje num determinado ativo não guarda relação alguma com os ganhos ou as perdas do passado. Ela depende apenas da sua disposição em manter uma alma jovem, inquieta e sedenta por querer mais.

With the lights out, it is less dangerous. Há momentos em que podemos, sem irresponsabilidade, excesso de concentração ou alavancagem (todas palavras proibidas), fecharmos os olhos para certos riscos e adicionar um pouco de ações e juros longos na carteira.

Eu já desisti de encontrar ordem objetiva nas coisas. Agora eu me jogo com as luzes apagadas, quero me beneficiar do desconhecido, ganhar com a incerteza e a volatilidade.

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A alma jovem não liga para reputação, não quer estar certa. Ela quer apenas ser feliz.

Reputação é para os escravos. Honra e integridade são para nós mesmos.

Depois do novo recorde histórico na véspera para o Ibovespa, mercados brasileiros iniciam a quarta-feira demonstrando alguma cautela, sem grandes variações, todos basicamente próximos à estabilidade.

Há uma certa expectativa no mundo todo pela publicação da ata da última reunião do Fed, com potenciais sinalizações sobre o futuro da política monetária norte-americana. Cotações do mercado futuro indicam 70% de chance de elevação do juro básico em dezembro, o que pode ser confirmado pelo documento de hoje.

Internamente, prévia do IGP-M ficou ligeiramente abaixo do esperado, ao apontar alta de 0,32%, enquanto vendas ao varejo vieram bem abaixo das projeções, recuando 0,5%, contra prognóstico de alta de 0,1%.

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