Boyhood – ou, deliberações de fim de ano

Minhas deliberações de fim de ano incluem ter ideias e atitudes alheias ao pasteurizado consenso, rompantes disruptivos e desafios ao status quo para melhores ideias e práticas de investimento.

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Boyhood – ou, deliberações de fim de ano

Sabe o que eu quero em 2018? Eu quero mesmo é não ficar velho. Pode ser só por um ano, tudo bem. Não em termos físicos, claro. Em que pese o otimismo da Singularity, 2045 – o ano em que supostamente interromperemos o envelhecimento do corpo – ainda está um bocado longe. A degeneração celular ainda é inexorável.

Mas a nossa alma é feita mesmo de outra coisa. Ela tem seu próprio material, seus próprios ancestrais e é vingativa. Ah, uma beleza de vingativa. Não admite ser traída. Enraivecida, é irrefreável. Cedo ou tarde, você vai ser obrigado a se encontrar com ela de novo.

Eu quero manter uma alma jovem. Ter ideias e atitudes alheias ao pasteurizado consenso, rompantes disruptivos e desafios ao status quo. Daí virão as melhores ideias e práticas de investimento. Quero ser um marginal, no sentido de pensar à margem, fora da enfadonha média, pertencer à cauda da distribuição, onde ficam os maiores retornos. A cauda representa o improvável, o lugar em que ninguém quer ficar e, portanto, costuma estar barata.

Smells like teen spirit. Por isso batizei o último texto do ano de Boyhood, em referência à infância e também ao filme do Richard Linklater.

Nele, digo, no filme, há dois diálogos que ficaram marcados como tatuagem na minha pele. Sempre lembro deles em momentos de reflexão.

No primeiro, o pai – a personagem de Ethan Hawke – presenteia o filho Mason com o que chama de Black Album dos Beatles. Ele reunira num CD duplo o melhor de cada Beatle em carreira solo, depois do rompimento oficial da banda, e formado uma sequência perfeita. Assim, com todos separados em cada música mas unidos no mesmo disco, poderíamos retomar o antigo balanço formidável.

“A melhor parte dos dois volumes são as quatro primeiras músicas. Você tem Band on The Run, depois My Sweet Lord, seguida de Jealous Guy e Photograph. Uaaaau! É a sequência perfeita. Você tem Paul levando você para a festa, George vindo lhe falar de Deus, John dizendo apenas ‘oh, não, tudo não passa de amor e dor’ e então Ringo, que rebate ‘hey, será que não podemos apenas usufruir daquilo que temos enquanto temos?’”

O pai está em êxtase com a composição a que chegou. Ele tenta transmitir a profundidade e a sensibilidade daquele momento ao filho, que claramente não está na mesma sintonia.

Mason: “Eu sempre achei o Paul meu Beatle favorito.”
Pai“Cara, você não está entendendo. Não pode haver um Beatle favorito. Tudo está no balanço dos quatro juntos. Pelo amor de Deus…”

Eu penso muito nisso. Quero transmitir com precisão o que pode representar um único momento, em toda sua extensão e grandiosidade. É sempre difícil. Agora mesmo, pode parecer longe demais. Também temos uma tendência a sempre pensar as coisas linearmente, um passo de cada vez, com gradualismo. Na verdade, porém, nunca é assim. Movemo-nos em grandes saltos súbitos, poucos momentos muito particulares que definem tudo. Uma longa tranquilidade rompida por um breve – e decisivo – acontecimento.

Há um exemplo claro disso para 2018. Refiro-me especificamente às eleições, evidente. Todos os grandes ciclos dos mercados brasileiros reuniram três elementos: uma retomada da economia (já em curso, mas que pode ser abortada ou não dependendo da continuidade das reformas), ambiente internacional favorável (temos, ao menos por enquanto, um panorama sem precedentes marcado por juros ainda muito baixos, inflação pequena, muita liquidez e crescimento sincronizado) e mudança do espectro político (tivemos essa migração em direção à pauta liberal, que pode ser confirmada em 2018).

Talvez eu não consiga transmitir exatamente o tamanho do que isso pode ser. Trouxe dois exemplos. Como uma imagem vale mais do que mil palavras, primeiro temos o desempenho do Dow Jones, um dos principais índices de ações dos EUA e sua catálise a partir da eleição de Donald Trump. Posteriormente, apresento a performance do principal índice de ações do Chile, que sobe nada menos do que 44% em dólar neste ano, também, entre outras coisas, influenciado pela eleição de um candidato pró-mercado.

Isso passa um pouquinho do que pode estar por vir.

Volto ao filme, ao segundo diálogo:

MasonMãe, você ainda ama o papai?
MãeEu ainda amo seu pai… mas isso não significa que seja saudável pra gente se manter juntos.
MasonMas é que… se a gente se mudar de cidade e ele tentar nos achar, como vai conseguir?
MãeAh, isso não seria um problema. Ele poderia ligar para a vó e ela diria onde estamos. Não será difícil nos encontrar.
MasonEle ainda está no Alaska?
MãeBom, ao menos é o que seu tio diz…
MasonProvavelmente, deve estar domando alguns ursos polares ou algo assim…
MãeÉ, eu espero que os ursos polares estejam domando seu pai.

No meu último texto de 2017, eu gostaria de lhe fazer um pedido. Que você me ajude, me cobre para que eu não me institucionalize, não seja domado por pressões empresariais e comerciais simplesmente porque ficamos um pouco maiores, não ceda às imposições explícitas e tácitas do sistema, da imprensa ou de qualquer outra organização que queira me ver enjaulado.

Por favor, não. Cobre de mim para que eu não tergiverse. Nesse dia, se eu ceder, eu terei perdido.

Acima de tudo, não me deixe cair na tentação de tecer aqui qualquer projeção. Se o fizer, por favor aperte o botão “unsubscribe”. Pare de receber essa newsletter, pois eu não mais merecerei sua atenção – se é que algum dia fui digno…

Sabe por quê? Simplesmente porque é ridículo. No último relatório Focus de 2016, a mediana das projeções apontava para 2017:

  • uma inflação oficial de 4,87% (e vamos fechar abaixo de 3%);
  • uma taxa de câmbio de 3,48 reais por dólar (e estamos em torno de 3,30);
  • uma taxa Selic de 10,25% ao ano (enquanto registramos 7%);
  • e um crescimento do PIB de 0,50% (será o dobro disso).

Os economistas, mais uma vez, erraram fragorosamente suas projeções para 2017. Para a taxa Selic, então, foi um escândalo. E o que estamos fazendo agora? Debruçando-nos novamente sobre o mesmo relatório Focus para tentar antever como será 2018.

Nós somos parte daquele bando de loucos que acham que podem mudar o mundo. No final, são mesmo os que mudam.

Mercados brasileiros iniciam a quinta-feira demonstrando otimismo, embalados por clima favorável no exterior e alta de commodities. Mineradoras são destaque de alta lá fora, sob valorização dos principais metais – cobre para três meses na LME atinge máxima desde janeiro de 2014.

Agenda doméstica traz dados consolidados do setor público e inflação medida pelo IGP-M, ligeiramente abaixo do esperado – 0,89%, contra expectativa de 0,93%. Terceira prévia do Ibovespa trouxe de volta Marfrig, além de Sanepar, Fleury, Magazine Luiza e Via Varejo.

Nos EUA, hoje temos estoques de petróleo, pedidos de auxílio-desemprego e atividade na região de Chicago.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,35%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

PS.: Caso não tenha visto ontem meu vídeo comentando cenários de investimento para 2018 e um pouco mais, fica aqui o convite para fazê-lo agora.

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