Desculpe, mas vou ter que entrar nesta discussão

Não vou contar quem foi, mas me pediram para participar também da discussão sobre se prefiro o investimento por conta própria ou por meio de fundos passivos.

Compartilhe:
Desculpe, mas vou ter que entrar nesta discussão

Não vou contar quem foi, mas me pediram para participar também da discussão sobre se prefiro o investimento por conta própria ou por meio de fundos passivos.

Não consigo encarar ambas as formas como excludentes. Uma parte do patrimônio pode estar discricionária e outra alocada no piloto automático.

Minha experiência pessoal é de que essas duas partes se ajudam mutualisticamente.

Enquanto comparo investimentos ativos com passivos (fundos de índices, por exemplo), consigo entender melhor o que é intrínseco e o que é sistêmico no mercado, e ganho em autocrítica.

Isso dito, sinto-me absolutamente à vontade para revelar que meu grande tesão está em ocupar o banco do motorista, e não o do passageiro.

Tesão não se discute e não exige explicação. Ainda assim, tenho duas – uma de cunho racional e outra mais lúdica.

A explicação racional deriva da chamada Lei de Ashby, que estabelece que o número de estados que um mecanismo de controle é capaz de alcançar deve sempre ser igual ou maior do que o número de estados do sistema que está sob controle.

Se isso não acontece, o sistema entra em colapso, ou torna-se desgovernado.

Em outras palavras, um mecanismo de controle (pode ser autocontrole) só é viável se for capaz de abarcar toda a variabilidade do ecossistema que almeja controlar.

Um exemplo corriqueiro dessa lei aparece no debate sobre até onde devem ir os futuros automóveis que guiarão por conta própria.

Se você livrar o motorista de responsabilidades, ele vai ficar complacente com tudo, correndo sérios riscos por excesso de passividade.

Por outro lado, se você der muitas atribuições simultâneas ao motorista, ele não vai dar conta do recado, correndo então riscos por excesso de atividade.

Os automóveis – tais como os conhecemos hoje – já aprenderam a lidar com o segundo problema (excesso de atividade). Logo, é a convergência rumo ao primeiro (excesso de passividade) que mais me preocupa prospectivamente.

Do ponto de vista financeiro, entendo que os fundos de índice – por exemplo – são capazes de alcançar um número de estados menor que o do sistema, que é o próprio mercado.

Parece uma tautologia que os índices tenham o mesmo número de estados que os mercados que representam, mas não é. Índices não são mercados. Índices estão sujeitos a metodologias e a manipulações, atraindo gravidade para si mesmos (podemos conversar mais sobre isso futuramente).

A explicação lúdica fica a cargo da analogia que gosto de fazer entre o investimento ativo (andar de moto) e o passivo (andar de carro).

Sem querer reinventar as duas rodas, transcrevo aqui meu trecho preferido do livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”: